Retrospectiva 2020: Muito além do vírus

No que talvez venha a ser considerado pelas próximas décadas como um dos piores anos da história contemporânea, 2020 encerra com milhões de mortes e reflexão sobre a humanidade

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31 DEZ 2020Por LG Rodrigues08h00
Ano foi marcado por pandemia vista pela última vez no começo do século passadoFoto: Edward Jenner/Pexels

Se existe uma palavra que pode vir a definir a expectativa dos brasileiros para 2021 é esperança. Foram pouquíssimas as oportunidades em que todos os moradores de terras tupiniquins puderam concordar com o quão ruim um ano foi, mas os 366 últimos dias se provaram tão unânimes que não há dúvida em todo o planeta sobre o quão difícil e insuperável em angústia e decepção foi 2020.

Apesar de parecer que os últimos 12 meses foram marcados apenas pela pandemia do novo coronavírus e o aumento desenfreado de mortes e novos casos de contaminações, muito mais ocorreu nesse ano, que parece ter sido um eterno agosto.

JANEIRO
No começo do ano, quando o coronavírus ainda era uma distante realidade e que se limitava a território chinês, a Baixada Santista presenciava o lançamento do edital do aeroporto de Guarujá, que prometia fomentar o turismo da Região ao mesmo tempo em que o governador João Doria afirmava que a privatização do Porto de Santos deveria sair ainda durante 2020. Desnecessário relembrar, mas ambas investidas foram drasticamente impactadas pela pandemia, que faria governos municipais e estaduais paralisarem quase todas suas atividades apenas dois meses depois disso. Ironicamente, no dia 10 do primeiro mês do ano, o DL reportou falta de vacina na Baixada, um prelúdio de algo que viria a se tornar obsessão totalmente justificada por todos os brasileiros.

Unidos dos Morros levou o título do carnaval santista

FEVEREIRO
Em fevereiro, um pedido de estudo que almejava verificar a possibilidade de tornar pagos os chuveirinhos das praias de Santos deu o que falar. No dia 18, a primeira preocupação sobre Covid-19 ocorreu quando um navio de origem chinesa foi inspecionado no Porto devido a sintomas gripais de dois tripulantes, mas a situação não rendeu grandes sustos. Na segunda quinzena, a Unidos dos Morros se sagrou campeã do carnaval santista e na última semana, mãe e filha recém-chegadas da Europa geraram preocupação mais grave na Baixada, ambas tinham sintomas similares ao do coronavírus e haviam visitado a Itália, país mais afetado até então, pela pandemia que começava a se espalhar no ocidente.

Tragédia deixou dezenas de mortos em Guarujá após fortes chuvas

MARÇO
Uma infeliz tradição se instalou de vez na Baixada Santista e as fortes chuvas voltaram a castigar a Região na mesma época que em anos passados. O número de mortos chegou a 45 e a situação foi mais grave em Guarujá, onde deslizamentos nos morros do município vitimaram dezenas de famílias que perderam entes queridos e praticamente todos seus bens materiais. Pra piorar a situação, tanto o litoral, quanto o resto do Brasil ainda sofreram um golpe inesperado e que não ocorria desde o começo do século passado. A pandemia atingiu o Brasil. Pela primeira vez em sua história, a Baixada Santista fechou suas portas e em uma união inédita dos nove prefeitos de Santos, São Vicente, Praia Grande, Guarujá, Cubatão, Bertioga, Itanhaém, Mongaguá e Peruíbe, a Região orientou comerciantes e moradores a ficarem em casa. A medida foi tomada à época devido a inúmeras preocupações com o avanço de óbitos e novos casos de Covid-19 em São Paulo. O medo de que o vírus pudesse descer a serra e entrar pelo Porto simultaneamente fez com que o caiçara soubesse pela primeira vez em mais de 100 anos sobre o que era uma pandemia. Na última vez, em 1918, mais de 800 mortes pela gripe espanhola. No dia 30 do mesmo mês, Praia Grande confirmou os primeiros óbitos e os números totais de mortes pelo coronavírus seguem crescendo sem sinais de desacelerar.

ABRIL
Com tantas incertezas, os governos municipais e estaduais começavam a importar testes rápidos para detectar casos confirmados de Covid-19 e tentar isolar as pessoas que estavam doentes. Ao mesmo tempo, as prefeituras da Baixada, menos de 15 dias após o início da quarentena no litoral, começaram a discutir sobre a possibilidade de uma reabertura escalonada do comércio, delimitando e liberando atividades consideradas como essenciais. Na mesma semana em que o novo Mercado do Peixe de Santos tinha suas obras finalizadas, começavam os primeiros flagrantes de moradores e turistas que furavam o isolamento social. Após semanas sendo pressionado, Henrique Mandetta foi demitido do cargo de ministro da saúde e o uso de máscaras passou a ser obrigatório em terras caiçaras.

Máscaras passaram a ser item obrigatório no vestuário caiçara

MAIO
Antes da primeira quinzena de maio ser encerrada, a Baixada Santista chegou a ter 80% de seus leitos ocupados e as nove prefeituras enviaram um pedido de socorro às autoridades estaduais para que fosse viabilizada a abertura de mais UTIs no litoral para tentar atender a demanda que disparava com casos de Covid-19. Mesmo com essa realidade dura enfrentada em hospitais e outras unidades de saúde, foi travada uma queda de braço com o Governo Estadual. Os prefeitos da Baixada Santista, pressionados por empresários que realizavam movimentos pela reabertura do comércio, conseguiram reverter suas situações dentro do Plano SP e entraram na Zona Laranja pela primeira vez, mesmo que em caráter ‘não oficial’. Começava, assim, a flexibilização da quarentena.

JUNHO
Estudantes, especialmente de áreas mais carentes dos municípios, começam a apontar problemas em assistir aulas online. No primeiro dia de Zona Laranja, o Diário do Litoral registrou aglomerações, ruas lotadas e lojas cheias tanto em Santos quanto em São Vicente. O anúncio da instalação de uma usina de lixo em Santos ligou o sinal amarelo de ambientalistas. No dia 9, o Brisamar Shopping reabriu suas portas e estabeleceu medidas de distanciamento social. Nas semanas seguintes, outros empreendimentos da Baixada seguiriam o exemplo e também retomariam suas atividades. Com problemas no transporte público, funcionários de empresas de viação denunciaram ao Diário do Litoral que menos da metade da frota de ônibus estaria rodando em algumas cidades.

 

Ônibus lotados em Santos geraram denúncias ao MP

JULHO
O primeiro dia de julho trouxe boas novas e a Baixada Santista sem dúvidas estava precisando. Após mais de sete meses fechada, a Ponte dos Barreiros reabriu para veículos leves. A alegria, porém, durou pouco, porque dias depois disso, as nove cidades atingiram uma marca para lá de indigesta com mil mortes registradas por Covid-19. Na mesma semana, igrejas e templos religiosos reabriam normalmente e o Estado liberou mais de R$ 200 milhões para a obra da segunda etapa do VLT. O Diário do Litoral também denunciou que 1/3 da GCM de Santos usa coletes vencidos e, para fechar o mês, o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha ganhou os noticiários nacionais após humilhar agentes da Guarda que o abordaram por ele não estar usando máscara no auge da pandemia.

AGOSTO
A Câmara dos Vereadores de Santos teve seus planos frustrados de retomar sessões em caráter presencial quando realizou uma grande testagem de seus servidores e verificou que mais de 100 pessoas, aproximadamente 40% das pessoas que trabalham na Casa de Leis, positivaram para a Covid-19. Na segunda semana de agosto, o Brasil chegou a 100 mil vidas perdidas para o coronavírus. Já os ônibus lotados em Santos geraram uma denúncia ao Ministério Público. Após mais de um ano de obras, o novo viaduto da entrada da cidade foi inaugurado, mas ele viria sofrer alguns pequenos ‘problemas’ nos meses seguintes.

Ponto dos Barreiros passou por reabertura gradual em São Vicente

SETEMBRO
Setembro teve o retorno dos ônibus à Ponte dos Barreiros e Santos chegou a 38% de moradores isolados, a média mais baixa de toda a Baixada Santista e abaixo até do Estado de São Paulo. O desemprego em todo o Brasil atingiu o recorde de 13,7 milhões de pessoas sem ocupação e as campanhas eleitorais começaram a ganhar força no mesmo mês em que o presidente Jair Bolsonaro começou a dar apoio a alguns nomes que disputariam as prefeituras em novembro, o que incluiu, até mesmo, pleiteantes da Região. No dia 29, mais uma marca angustiante, as nove cidades da Baixada Santista chegaram a 2 mil mortos na pandemia.

OUTUBRO
Tentando se restabelecer economicamente, a Região viu o número de empreendedores crescer como nunca antes, ao mesmo tempo em que o Estado deu permissão para os caiçaras entrarem na Zona Verde do Plano São Paulo, muito embora o benefício não tenha durado muito tempo e tenha sido o último concedido ao litoral paulista até o fim de 2020. Nem tudo foi ruim, entretanto, porque os santistas, em especial, celebraram um aniversário muito importante: 80 anos do Rei Pelé.

Rogério Santos foi eleito em primeiro turno nas eleições santistas

NOVEMBRO
A dois meses do fim de um dos piores anos da história, os brasileiros precisaram se recordar que haveria eleições. Após adiamentos e possíveis cancelamentos serem cogitados, moradores de Santos, São Vicente, Praia Grande e Itanhaém elegeram novos prefeitos, enquanto Guarujá, Cubatão, Bertioga, Mongaguá e Peruíbe reelegeram administrações que já ocupavam suas prefeituras. O mês, entretanto, ficou marcado pela violência política durante a campanha, quando a candidata de São Vicente, Solange Freitas, foi alvo de um atentado a tiros na cidade. Felizmente, ninguém ficou ferido e a Polícia Civil ainda investiga o caso para chegar a possíveis suspeitos de serem mandantes do crime.

DEZEMBRO
O começo do fim da pandemia foi sacramentado, ironicamente, no último mês de 2020, quando a já anunciada e muito esperada vacina do Instituto Butantan, a Coronavac, apontou que teria a eficácia mínima de 50% recomendada para ser aprovada pela Anvisa. Apesar de não ter divulgado exatamente o quão eficaz ela é, estudos na Turquia, que também utilizará o imunizante, apontaram uma eficácia de 91% nas pessoas que receberam a Coronavac. Os dados oficiais obtidos em território nacional, porém, ficarão para a primeira semana de janeiro, mesmo mês em que a vacinação está marcada para iniciar com o público idoso e os profissionais de saúde. Quem sabe, com isso, possamos retomar a rotina de 2019 em 2021 e possamos colocar, de vez, uma pedra em 2020...

Atualmente, a vacina Coronavac, feita pelo Instituto Butantan, é a maior esperança dos paulistas