Navio Raul Soares: Era uma vez um navio-prisão no porto de Santos...

A ordem dentro do navio era uma só: a tortura psicológica. Em seu interior não havia lei e nem respeito à dignidade humana. Direitos aos habeas corpus jamais foram respeitados

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27 OUT 201323h16

"Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante" (Declaração Universal dos Direitos Humanos)

Em 1964, o Raul Soares serviu de navio-prisão, se transformando num cárcere flutuante no Porto de Santos. Mas em seu interior não havia lei e nem respeito à dignidade humana. Direitos aos habeas corpus jamais foram respeitados. As ordens de soltura também não eram atendidas. Segundo relatos de sobreviventes, que constam em reportagens e livros sobre o navio-presídio, fazia parte da tripulação o tenente da Polícia Marítima Ariovaldo Pereira, que pelos relatos era o mais violento dos carcereiros. As ordens de soltura passavam por ele, mas consta que, de imediato, ele providenciava a abertura de um novo inquérito para impedir a saída do preso.

A ordem dentro do navio era uma só: a tortura psicológica. À noite os presos ouviam que um rebocador deixaria o Raul Soares durante a madrugada em alto mar. Os presos que recebiam habeas-corpus eram detidos novamente assim que pisavam no cais; Outros eram repetidamente trocados das celas próximas às caldeiras para as junto ao frigorífico do navio.

A comida era uma pasta intragável e os presos tinham que comer com as mãos, pois não existiam talheres no navio. Quem se recusava a comer sem os garfos, ficava sem as refeições.

O "Raul Soares" foi construído em 1900, pela empresa alemã Hamburg Sud e batizado de Cap. Verde. Sua função era transportar imigrantes da Europa para a América do Sul. Pesava mais de 5.000 toneladas e tinha capacidade para 587 passageiros. Vendido em 1919 para a Grã-Bretanha, passou a denominar-se “Madeira”, em 1922. Em 1925, comprado pelo Lloyd Brasileiro, passou a ser chamado de Raul Soares, em homenagem ao político que governou Minas Gerais e que dá nome a uma cidade mineira. O navio foi responsável pela condução de muitos migrantes do Norte e Nordeste do país para o Porto de Santos.

Em 1964, o Raul Soares serviu de navio-prisão, se transformando num cárcere flutuante no Porto de Santos (Foto: Divulgação)

Na década de 60, o navio era um velho de 64 anos e não tinha mais forças para navegar. Já inativo, o Raul Soares no cais da Ilha de Mocanguê, no Rio de Janeiro, foi rebocado pela embarcação Tridente, da Marinha, chegando no dia 24 de abril de 1964 ao Porto de Santos. Com uma semana, começou a sua função de navio-prisão, recebendo os primeiros prisioneiros políticos, sob a acusação de subversão, por se oporem ao governo militar que havia deposto o então presidente da República, João Goulart, em 31 de março. Em 23 de outubro, a embarcação foi desativada como prisão flutuante, retornando ao Rio de Janeiro, na manhã do dia 2 de novembro de 1964, onde foi desmontado e suas peças vendidas como sucatas. Assim chegou ao fim de forma inglória, àquele que é conhecido na história, não por seus feitos na navegação mundial, mas sim, como o símbolo do navio-prisão da repressão.

Três calabouços

Os calabouços do navio eram três, batizados, ironicamente, com nomes de boates da Boca do Lixo de Santos, os tradicionais inferninhos, bastante famosos na época, ou seja:

1- "El Marroco", era um salão totalmente metálico, ao lado da caldeira, sem nenhuma ventilação, onde a temperatura passava dos 50 graus, sem nenhuma iluminação. Ainda assim era o melhor.

2- O "Night And Day", era uma pequena sala onde o preso ficava com água gelada até o joelho.

3- O "Casablanca",  onde eram despejadas as fezes dos presos. Eram usados para quebrar a resistência dos presos políticos. A maioria dos presos do Raul Soares passou, ao menos, por uma dessas três salas.

Consta nos fatos narrados pelos sindicalistas que ficaram trancafiados no navio, que foi onde o ex-líder operário, Manoel de Almeida, contraiu a doença que o matou dois meses depois. E foi por lá que outro preso: Waldemar Guerra, transformou-se no mais resistente, permanecendo 16 dias num deles, sem comer.

Sem banheiro

Segundo ainda os relatos dos presos, não havia banheiro nas celas improvisadas. A conversa era proibida e nas poucas vezes em que foi possível a montagem de um sistema qualquer de comunicação (cartas, bilhetes, ou as conversas ao pé do ouvido ao estilo rádio - peão), a descoberta era punida com a proibição dos arejamentos e das idas ao imundo banheiro coletivo, sendo obrigados os presos a fazer suas necessidades no chão da própria cela.