Navio-prisão Raul Soares: Memórias do cárcere flutuante

Sindicalistas pedem que atos de torturas e humilhações no Navio-Prisão sejam apurados pela Comissão da Verdade

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27 OUT 201312h52

Sindicalistas do litoral sul do Estado de São Paulo, querem que o Governo Federal, através da Comissão Nacional da Verdade, apure e também divulgue os atos de torturas e violência contra os presos do navio-prisão Raul Soares, que permaneceu no Porto de Santos, de 24 de abril a 23 de outubro de 1964.  Após tomarem conhecimento da série de reportagem que o DL está publicando sobre os 50 anos da ditadura militar, o movimento sindical, pede providências às autoridades do País e também internacionais. Alegam que houve um início de apuração de atos da ditadura militar, mas que o trabalho referente ao navio Raul Soares, ao que parece, está parado.

O sindicalista Paulo Pimentel, o mais antigo de Santos, presidente do Sindicato dos Empregados de Saúde, é um dos que está cobrando mais empenho por parte da Comissão Nacional da Verdade. “Eu escapei por muito pouco de ser preso e levado para esse navio lúgubre”, disse Pimentel.

Ele relembra que estava com prisão preventiva decretada por ser sindicalista e por integrar o Fórum Sindical de Debates da Baixada Santista. “Fui avisado deste fato pelo delegado do trabalho de Santos, Cristiano Solano, que era meu amigo. Ele próprio intercedeu junto ao Governador Ademar de Barros, que conseguiu desfazer a ordem de prisão, senão, eu seria hoje, caso escapasse com vida das torturas, mais um a depor neste livro reportagem sobre os 50 anos do navio Raul Soares, a repressão ao sindicalismo e as Memórias do Cárcere Fltuante.

Corte Interamericana de Direitos Humanos da ONU

“A vida começa a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam".

Sindicalistas do litoral sul do Estado de São Paulo, querem que o Governo Federal apure e divulgue os atos de torturas e violência contra os presos do navio-prisão Raul Soares (Foto: Divulgação)

Esta frase, de Luther Martim King, foi usada para dar início a denúncia feita pelo sindicalista Jaime Porto, presidente do Sinprafarmas de Santos, à Corte Interamericana de Direitos Humanos da ONU, com sede em San José, Costa Rica. Em ofício encaminhado ao presidente daquele Corte de Direitos Humanos Internacional, Diego García Sayán, Jaime Porto pede que os fatos sejam apurados com todos detalhes e com a máxima urgência.

O dirigente sindical fundamenta seu pedido nas resoluções da ONU: 39/46, de 10 de dezembro de 1984 e 57/199, de 18 de dezembro de 2002.

Esclarece que o Brasil criou recentemente a Comissão Nacional da Verdade, que visa apurar atos de torturas durante o período da ditadura militar, mas que os fatos não constam da pauta dessa comissão que é do Governo Federal. E diz:“ os direitos humanos de dezenas de pessoas foram vilipendiados. Os fatos ocorreram em 1964, época da Ditadura Militar no Brasil, mas até hoje não foram devidamente esclarecidos e nem apurados pelo Governo Brasileiro, que é País membro desta organização”.
E prossegue: “recorro à esta Corte internacional, por ser um caminho a ser utilizado para esclarecer os fatos de dor, tortura e sofrimento de dezenas de pessoas, em sua maioria sindicalistas, que ficaram presas naquele presídio flutuante”
Conclui mencionando que restam poucos presos ainda vivos, mas a maioria já não pode falar, nem andar e muito menos esclarecer os fatos. “Restam ainda poucas vozes, mas se não houver apuração rápida da verdade, até essas vozes podem também estar caladas”.