Navio-prisão Raul Soares: Memórias do cárcere flutuante

Sindicalistas pedem que atos de torturas e humilhações no Navio-Prisão sejam apurados pela Comissão da Verdade

Sindicalistas do litoral sul do Estado de São Paulo, querem que o Governo Federal, através da Comissão Nacional da Verdade, apure e também divulgue os atos de torturas e violência contra os presos do navio-prisão Raul Soares, que permaneceu no Porto de Santos, de 24 de abril a 23 de outubro de 1964.  Após tomarem conhecimento da série de reportagem que o DL está publicando sobre os 50 anos da ditadura militar, o movimento sindical, pede providências às autoridades do País e também internacionais. Alegam que houve um início de apuração de atos da ditadura militar, mas que o trabalho referente ao navio Raul Soares, ao que parece, está parado.

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O sindicalista Paulo Pimentel, o mais antigo de Santos, presidente do Sindicato dos Empregados de Saúde, é um dos que está cobrando mais empenho por parte da Comissão Nacional da Verdade. “Eu escapei por muito pouco de ser preso e levado para esse navio lúgubre”, disse Pimentel.

Ele relembra que estava com prisão preventiva decretada por ser sindicalista e por integrar o Fórum Sindical de Debates da Baixada Santista. “Fui avisado deste fato pelo delegado do trabalho de Santos, Cristiano Solano, que era meu amigo. Ele próprio intercedeu junto ao Governador Ademar de Barros, que conseguiu desfazer a ordem de prisão, senão, eu seria hoje, caso escapasse com vida das torturas, mais um a depor neste livro reportagem sobre os 50 anos do navio Raul Soares, a repressão ao sindicalismo e as Memórias do Cárcere Fltuante.

Corte Interamericana de Direitos Humanos da ONU

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“A vida começa a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam”.

Esta frase, de Luther Martim King, foi usada para dar início a denúncia feita pelo sindicalista Jaime Porto, presidente do Sinprafarmas de Santos, à Corte Interamericana de Direitos Humanos da ONU, com sede em San José, Costa Rica. Em ofício encaminhado ao presidente daquele Corte de Direitos Humanos Internacional, Diego García Sayán, Jaime Porto pede que os fatos sejam apurados com todos detalhes e com a máxima urgência.

O dirigente sindical fundamenta seu pedido nas resoluções da ONU: 39/46, de 10 de dezembro de 1984 e 57/199, de 18 de dezembro de 2002.

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Esclarece que o Brasil criou recentemente a Comissão Nacional da Verdade, que visa apurar atos de torturas durante o período da ditadura militar, mas que os fatos não constam da pauta dessa comissão que é do Governo Federal. E diz:“ os direitos humanos de dezenas de pessoas foram vilipendiados. Os fatos ocorreram em 1964, época da Ditadura Militar no Brasil, mas até hoje não foram devidamente esclarecidos e nem apurados pelo Governo Brasileiro, que é País membro desta organização”.
E prossegue: “recorro à esta Corte internacional, por ser um caminho a ser utilizado para esclarecer os fatos de dor, tortura e sofrimento de dezenas de pessoas, em sua maioria sindicalistas, que ficaram presas naquele presídio flutuante”
Conclui mencionando que restam poucos presos ainda vivos, mas a maioria já não pode falar, nem andar e muito menos esclarecer os fatos. “Restam ainda poucas vozes, mas se não houver apuração rápida da verdade, até essas vozes podem também estar caladas”.

Navio-prisão Raul Soares: Memórias do cárcere flutuante

Descobrimos a lista de presos do Navio-Prisão Raul Soares

Lista revela os nomes de sindicalistas e presos civis que foram presos nos calabouços do navio Raul Soares, que se transformou em cárcere flutuante no Porto de Santos, entre 24 de abril a 23 de outubro de 1964, início da ditadura militar no Brasil.

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Uma das poucas vistorias no navio-presídio Raul Soares, que se tem conhecimento, foi realizada em 16 de setembro de 1964, determinada pelo juiz Tinoco Barreto, presidente da 2ª Auditoria Militar, a pedido dos advogados de dois presos: jornalista Nelson Gatto e sindicalista Orfeu dos Santos Sales. Ficou constatado que naquele dia o presídio flutuante contava com 94 presos políticos civis.

Nós tivemos acesso ao termo de vistoria a bordo, relatado por Durval Moura de Araújo, promotor da 2ª Auditoria da Segunda Região Militar, que relata que o navio mercante Raul Soares, guarnecido pela Marinha de Guerra, foi vistoriado com as presenças do Capitão dos Portos do Estado de São Paulo, comandante Júlio de Sá Bierrembach e do Capitão-de-Corveta, Astolpho Barroso Migueir.

Essa é relação dos presos civis naquela data, documento que poderá servir de indício para apuração dos fatos pela Comissão da Verdade do Governo Federal:

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Ademar dos Santos ;Afonso Neves Guerra; Alberto Fernandes; Alcindino Bittencourt Pereira; Aldo Ripasarti; Alfredo Correa da Rocha; Altamirando da Silva Almeida; Altamiro Claudio Costa; Amauri Teixeira Leite; Amaury Soares Costa; Angelo Osvaldo Masteline; Antonio Athaide Caricati; Antonio Ferreira da Silva; Antonio Guarnieri; Antonio Lisboa; Antonio Moreira; Antonio Vicente Barbosa; Argeu Anacleto Silva; Ariovaldo Vicente; Augusto Pereira Mota; Benedito Rocha Alencar; Benedito Terezo; Claudio José Ribeiro; Coelho;Do mingos Garcia; Edson Pacheco da Silva;Edward Cristino do Rego; Elmo Fernandes; Ercidio Weber; Felismino Fernandes de Cristo.

E mais: Felix Jorge da Silva; Florival da Silva; Francisco Soares da Silva; Frederico de Castro Braga; Gabriel Mendes Ruas; Gregorio Marinho Freitas Andrade; Henrique Martins dos Santos; Iradil dos Santos Melo; Israel Gomes da Cunha; Jacob Augusto Meireles; Jardelino Francisco dos Santos; João Florencio Leite; João Gramato; João Lima Martins; João Martins dos Santos; João Nicolau dos Santos, João Rosa; Jonas Sobrinho; José Aires de Alencar; José Barbosa Leite Junior; José Bezzi; José Carlos A. Costa; José dos Santos; José Rodrigues Teixeira; Jurandir de Abreu; Laerte Carneiro da Silva; Luis Nunes; Manoel de Almeida Milton da Silva; Nadir de Oliveira; Nelson da Silva; Nelson Fructuoso Amado Nelson Gato; Nelson Salinas Maira; Newton Alres de Oliveira; Nilo … ; Nilsen Ribas Martins; Nivam Vieira de Araújo; Nonato Gonçalves Pinto; Orfeu dos Santos Sales; Orlando de Sousa Campos; Orlando dos Santos; Osmar Alves Campos Colegã; Osni Nery dos Santos; Otoniel Fernandes da Silva; Ovidio Ferreira Dias; Pedro Rocha dos Santos; Pinheiro Machado; Rafael Babunovich; Raimundo Jesuíno de Sena; Raimundo Nunes de Oliveira; Ricardo Bonfanti; Roberto Covello; Rubens Lousada; Sebastião Assis Bezerra; Sérgio Martins; Sumida Tomochi; Tomas Maack; Tino Florentino da Rocha; Vitorino Nogueira; Waldemar da Silva; Waldemar Fernandes; Waldemar Neves Guerra; Wilson Mendes Maia.

Navio-prisão Raul Soares: Memórias do cárcere flutuante

Ademarzinho ficou trancafiado 92 dias no Navio-Prisão Raul Soares

Ademar dos Santos, Ademarzinho, era, em 1964, sindicalista portuário. Foi perseguido pela ditadura militar, preso e trancafiado no navio-prisão. Hoje, aos 80 anos de idade e doente, ele relembra cada detalhe de sua prisão e dos bastidores do cárcere flutuante no Porto de Santos. E fala sobre esse período triste para o sindicalismo e para a própria história do País

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Funcionário da extinta Companhia Docas de Santos (CDS) no cargo de Eletrotécnico, o doqueiro Ademar dos Santos, conhecido no cais entre os portuários como Ademarzinho, diz que foi o último preso civil a deixar o navio-presídio Raul Soares, em 23 de outubro de 1964, fato ocorrido à noite. Ele tinha 29 anos de idade, era casado e pai de dois filhos, quando foi preso pela ditadura militar e  trancafiado no navio-prisão “Raul Soares”. Sua prisão foi longa, durou  92 dias, tempo em que permaneceu incomunicável.

Para relembrar esse período triste para o sindicalismo e para a própria história do País, Ademarzinho recebeu a reportagem do DL  em sua residência. Aos 80 anos de idade, ele lembra dos bastidores e cita nomes de civis e militares. Simpático e bastante falante, diz cada detalhe da sua prisão e dos personagens desta história de luta, tortura e sobrevivência no cárcere flutuante.

O primeiro documento que ele exibe ao Diário do Litoral é um ofício assinado pelo almirante Júlio de Sá Bierrembach, capitão dos portos,  que confirma  a data de sua prisão e chegada no navio Raul Soares: 17 de junho de 1964. “Foram momentos tensos, de preocupação para meus familiares. Logo após o golpe de 31 de março, os sindicatos foram invadidos. Todo mundo do sindicato já tinha sido procurado  para depor e eu ainda não. Eu sabia que ia ser preso. Procurei o advogado Eraldo Aurélio Franzese, que fez uma carta pedindo a minha volta à empresa, uma vez que não estava mais exercendo mandato sindical, pois o Sindicato dos Operários Portuários(Sintraport) estava  sob intervenção”, relata o ex-sindicaalista.  Menciona que o pedido foi negado, pois ele já estava respondendo a processo.
Ademarzinho lembra todos  detalhes do dia em que foi preso. “ Um carro da antiga CDS (Companhia Docas de Santos) foi à minha casa. Era um policial civil das Docas; meu colega, que jogou bola comigo”, narra o ex preso do Raul Soares.

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E prossegue: “Ele disse que eu seria preso. E fui preso mesmo. Tomaram meu depoimento e eu fui dispensado. No dia seguinte, foram me buscar em minha casa, na Zona Noroeste. A ordem era para eu ir ao departamento pessoal. Tinha um envelope amarelo pronto, com ordem de prisão. Me colocaram em um camburão e me levaram. Tomei o cuidado de ver se o cano do escapamento não estava para dentro, como faziam os nazistas”. Ele diz que só teve noção do destino, quando ouviu o barulho das tábuas da ponte pênsil, em São Vicente.

“Me levaram, por engano, para a Fortaleza  do Itaipú, em Praia Grande. No dia seguinte, outra viatura me pegou para  me levar para o quartel dos fuzileiros navais, na  Avenida Afonso Pena, em Santos. De lá, uma outra viatura  policial me levou, no dia seguinte, ao navio Raul Soares”.

Ele relata que, militares suspeitos, ou que não participaram do golpe que depôs Jango, também estiveram presos no navio, em setor separado dos presos políticos.
“A Polícia Marítima, que era estadual, tomava conta da gente; e a Marinha tomava conta deles”, explica Ademarzinho.

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Em seu relato ao DL, Ademarzinho rememora os fatos alegados pelos militares para a sua prisão. “Uma foto minha  em um jornal, na terceira fila de um evento político no Rio de Janeiro, onde se encontrava o cabo José Anselmo, que se envolveu em luta armada, foi um dos motivos alegados para minha prisão. Eu estava acompanhado do presidente do Sintraport, Manoel de Almeida,  no Rio de Janeiro, para um debate sobre a demarcação de uma área insalubre  em Santos. O evento foi cancelado pelo ministro do Trabalho e fomos convidados para uma festa. A Associação dos Marinheiros estava comemorando dois anos, e ia homenagear o marinheiro João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata”.

E acrescenta que os seus interrogadores faziam-lhe uma tortura psicológica querendo saber qual foi sua “missão” naquele evento político. A ida a um congresso de trabalhadores em minérios, em Belo Horizonte,  evento recheado de personalidades políticas também rendeu suspeitas e acusações e mais torturas psicológicas. Ele lembra: “os mineiros queriam um aumento e a empresa estava irredutível. Durante uma assembleia no sindicato foi definida a delegação:  era eu, Nelson Salinas Meira e Elmo Poderoso Giangiulio. Um advogado subiu para falar e a multidão quis invadir. Quem tomou a palavra e pôs ordem foi o Leonel Brizola. Também estavam lá o Miguel Arraes e o Francisco Julião, líder das ligas camponesas do Nordeste. Quando pegaram meu nome e o de outros, naquele encontro, queriam saber qual era a “missão” que o Partido Comunista tinha dado para mim. Eu disse que levava apenas uma representação do nosso sindicato, em solidariedade, nada mais que isso”.

E para completar as coincidências que culminaram com a sua prisão, o ex-sindicalista portuário santista esteve no badalado e comentado comício da Central do Brasil, em que Jango anunciou as chamadas “reformas de base”. Nesta viagem, o chefe da delegação do Sindicato dos Portuários de Santos era  outro sindicalista: Iradil dos Santos Mello, também um dos inúmeros  presos no cárcere flutuante.

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Ademarzinho relata que, dos 129 acusados no Inquérito Policial-Militar (IPM) do Porto de Santos, ele foi o primeiro a ser ouvido. “Por uma simples razão, a ordem alfabética”. E afirma: “ O sindicalismo de Santos era forte e muito temido perlas autoridades do País. Decretar intervenção nos sindicatos e prender os sindicalistas num navio, foi a forma de intimidar, fazer o sindicalismo santista se curvar, para minar nossa força e nossa resistência. Uma forma de  exemplo para todo o País. E o objetivo dos militares foi alcançado, porque Santos pagou caro ficando muitos anos sem poder eleger seu prefeito”.

“Quando os militares invadiram os sindicatos, pensavam que iam encontrar armas como metralhadoras e fuzis, e não encontraram sequer um estilingue. Queriam encontrar material subversivo e encontraram só algumas revistas masculinas”.
E conclui: “meu depoimento, por orientação do advogado do sindicato  Eraldo Franzese teve apenas seis linhas e foi baseado nas frases: não sei, não vi, não soube de nada disso e nunca ouvi falar”.

Camarote 29

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Ele diz que na chegada ao cais, assistiu cenas muito comoventes, pois dezenas de pessoas aguardavam para serem presas. “Eu vi senhores, de cabelos grisalhos, acima de 60 anos,  chorando”.

E diz: “com o tenente Mário, da Marinha, descemos a escada e chegamos ao destino naquele navio de tão triste lembrança. O tenente disse: ‘O senhor vai ficar bem aqui’. Meu camarote era o de número 29. Em cima dele estava escrito: Carpinteiro.  Era um bom camarote do tempo em que o navio era um transatlântico. Pensei comigo:  Jesus foi carpinteiro e meu avô também foi carpinteiro naval. Se eu vou ficar preso no camarote do carpinteiro, então estou em casa. Neste camarote eu fiquei 92 dias, incomunicável. Só saía  para buscar a comida, no convés, e ir ao banheiro. Havia um tenente, Hugo  Panasco  Alvim  Filho, que me perseguiu desde que cheguei ao navio, do primeiro ao último dia. Ele me escalava para as tarefas mais humilhantes, como limpar ou desentupir latrinas”., relembra Ademarzinho.
Mas a maior humilhação que ele diz ter passado e quase todos os presos civis também, principalmente os que estavam incomunicáveis, era o de ter que fazer as necessidades fisiológicas com a porta do banheiro aberta e sendo vigiado e olhado por um guarda com uma metralhadora na mão.

Ademarzinho, hoje com graves problemas de saúde, diz que esses problemas começaram com sua prisão e as torturas psicológicas que sofreu no cárcere flutuante. “Tomo calmantes há quase meio século, mas me orgulho de minha mente, que funciona muito bem, pois me lembro de tudo o que ocorreu”.

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Ele diz que o inquérito  que respondeu foi por atividades políticas e trabalhistas e menciona que esteve em lugares que lhe comprometeram muito. “Em  três deles”, lembra Ademarzinho, “ fui escolhido em assembleia registrada em ata  do sindicato”.

Ele diz que os militares queriam saber de suas ligações  com lideranças da esquerda. O interrogatório, no navio-prisão, era sempre o mesmo, e cada vez mais demorado. Diz que um oficial o chamava às 4 da tarde e ficava, às vezes, até 3 da manhã sendo interrogado. Ele ia embora e vinha outro. “Eu não podia dormir”, resume o ex-preso da ditadura militar.

“O tenente disse: ‘O senhor vai ficar bem aqui’. Meu camarote era o de número 29. Em cima dele estava escrito: Carpinteiro.  Era um bom camarote do tempo em que o navio era um transatlântico. Pensei comigo:  Jesus foi carpinteiro e meu avô também foi carpinteiro naval. Se eu vou ficar preso no camarote do carpinteiro, então estou em casa. E lá fiquei por 92 dias incomunicável”, disse Ademarzinho.

Navio- Prisão Raul Soares: Memórias do Cárcere Flutuante

Há 49 anos, navio da repressão ao sindicalismo era desativado no Porto de Santos

Edição e apoio de Pedro Henrique Fonseca

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Essa é uma história real de sobrevivência, resistência e coragem diante de torturas e humilhações nos calabouços de um navio-presídio, ancorado no Porto de santos, em 1964, no início da ditadura militar no Brasil. O Navio Raul Soares, se transformou em cárcere flutuante, de 24 de abril a 23 de novembro daquele ano e serviu para encarcerar sindicalistas, rotulados de comunistas. Os poucos personagens que restam deste triste capítulo para o sindicalismo do País, contam suas memórias nesta reportagem especial  e falam sobre um período sombrio para o sindicalismo e sobre as torturas psicológicas a que eram submetidos.

São pessoas, hoje famosas, como o médico e cientista americano Thomas Maack, professor emérito da Cornell Universidade de Nova Iorque e seu colega, igualmente médico e cientista Hildebrando Pereira da Silva, que tiveram que fugir do País;  e também de pessoas anônimas, como o sindicalista portuário Argeu Anacleto, ou Ademar dos Santos, Ademarzinho, que não cometeram crime algum, mas sofreram as humilhações do cárcere flutuante. Eles querem a apuração da verdade através do Governo Federal, o único bálsamo a amenizar dor ou sofrimento perpetuados através do tempo…

“Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos civilizados.” (Vladimir Herzog)

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Santos (SP), junho de 1964. Cais do maior porto da América Latina. Era uma madrugada fria, de chuva intermitente e de ventos fortes. A maré batia no negro casco da pesada embarcação, que mesmo ancorada num banco de areia, trepidava lentamente com as marolas formadas pelas águas em elevação. O jovem médico, de cabelos de “fogo”, é acordado no rude catre de sua cela inexpugnável, no interior do navio-prisão Raul Soares, pelos gritos de um soldado da Marinha do Brasil que lhe apontava uma metralhadora em direção ao seu peito. O soldado estava nervoso. Muito nervoso. A ponto de tremer com a arma na mão. É que, um preso havia tentado o suicídio e cortado os pulsos. Alegava que não aguentava mais viver as torturas, pois as violências físicas e psicológicas imperavam no interior daquele navio-presídio.

Ele sangrava muito e o sangue escorria de seus pulsos para o chão no corredor do navio. Foi levado para a enfermaria, mas não havia médico e nem enfermeiros na embarcação. Ao lado, entretanto, ficava a cela do jovem médico de nacionalidade alemã e de cabelos ruivos ou avermelhados, que havia sido preso no prédio da USP, em São Paulo, com ordens superiores e expressas de que deveria ficar incomunicável. Ou seja: não poderia ter nenhum contato dentro e nem no convés do navio, improvisado como presídio-flutuante.

Desesperado e sem saber o que fazer diante dessa situação de emergência, principalmente após ver e rever o rastro de sangue deixado no chão da embarcação, o soldado da Marinha resolveu desobedecer essa ordem, infringir a hierarquia, e acordar o preso, pois sabia que ele era médico.

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Este episódio, que estamos narrando, quase cinco décadas depois, foi contado pelo próprio personagem principal, direto de Nova Iorque, Estados Unidos. Dr. Tomas Maack é o médico ou o personagem, que emocionado narrou a história para ser publicada nesta reportagem sobre os 49 anos da desativação do navio-prisão, revivendo os fatos ocorridos no longínquo ano de 1964. E, foi esse episódio, que mudou sua vida, conforme ele conta com todos os detalhes ao site do Diário do Litoral.

O soldado gritava: “Você é médico, não é? Então atenda essa emergência”. Thomas Maack, detido pela recém Ditadura Militar implantada no Brasil e que havia sido levado há poucos dias aos calabouços do navio-prisão, foi retirado de sua cela e conduzido a uma outra, bem ao lado da sua, uma espécie de enfermaria, mas sem médicos, sem enfermeiros e também quase sem nenhum tipo de material de primeiros-socorros.

“Falei para o soldado abaixar a arma porque não tinha condições de atender o paciente com uma metralhadora apontada para minha direção. Ao examinar o prisioneiro ferido, percebi que o corte era apenas superficial, só que o sangue continuava abundante”, relata Thomas Maack.

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E prosseguiu: “Fiz o atendimento mediante uma sutura e pedi que ele fosse encaminhado ao hospital sob o argumento de que não iria me responsabilizar por sua vida, uma vez que ele havia perdido muito sangue. Sem contar que poderia pegar uma infecção pois, no navio, não havia condições higiênicas de atendimento”, enfatiza o médico. Diante desse diagnóstico, foi prontamente atendido e o preso encaminhado à Santa Casa de Santos.

Ele diz que os militares tinham medo de que ocorressem mortes no interior do navio-prisão e por isso mesmo estavam inseguros diante da tentativa de suicídio que originou em seu primeiro atendimento médico aos presos. Elogia as mulheres de estivadores e portuários que ficavam de vigília no Porto de Santos diuturnamente. “Essa presença física das mulheres foi importante também para preservar as vidas dos presos. Os oficiais tinham medo de que se algo de errado acontecesse, poderia se espalhar pelo País e manchar a falsa imagem por eles transmitidas de que tudo estava bem e tranquilo dentro da embarcação. E, principalmente, a mentira de que os presos eram bem tratados e tinham todo conforto no interior do navio-prisão”.

Personagem localizado em Nova Iorque

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Thomas Maack, hoje famoso cientista médico nos Estados Unidos, e um dos presos políticos da ditadura militar, que também sofreu com as humilhações dentro do navio Raul Soares, foi localizado em Nova Iorque, e reafirma quase cinco décadas depois, torturas e violência contra sindicalistas e presos do navio, um dos símbolos da ditadura militar. E diz que a Comissão da Verdade chegou muito tarde ao País.

Ele foi personagem de uma triste época para o sindicalismo de Santos e para a história do País. Preso pela Ditadura Militar e confinado no navio-prisão Raul Soares por quatro meses, junho a outubro de 1964, o médico Thomas Maack, de nacionalidade alemã, poderia ter sido apenas mais um preso a ficar no anonimato. Entretanto, a situação excepcional, narrada acima pelo próprio personagem, direto de Nova Iorque , Estados Unidos, o levou a fazer um atendimento de emergência a um preso, que tentou o suicídio, cortando seus pulsos. Depois disso, mesmo na condição de preso político, fez incontáveis atendimentos e ajudou a salvar muitas vidas.

Ele conta os detalhes de histórias reais de torturas no interior do navio-presídio, símbolo da repressão da ditadura militar, que ficou de abril a outubro de 1964 no Porto de Santos, servindo de presídio flutuante para os presos políticos. O navio foi embora, mas deixou um rastro de vergonha, dor e sofrimento e também uma democracia à deriva por longos 21 anos no Brasil, onde sonhos foram destruídos .

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Um mito, uma lenda ou apenas mais um preso da ditadura militar? Durante muitos anos ele foi considerado um mito ou uma lenda nos fatos narrados por presos do navio Raul Soares, de triste lembrança para o sindicalismo de Santos e da própria história do País, naqueles “anos de chumbo”. A figura esbelta do jovem médico de cabelos avermelhados, que também era um dos presos, foi sempre relatada e lembrada com gratidão por presos políticos e sindicalistas que ficaram confinados no presídio flutuante, que permaneceu por seis meses em Santos. Mas, ninguém sabia seu paradeiro, ou qual teria sido seu destino após a desativação do navio e nem mesmo se estava vivo.

Nossa reportagem localizou o médico, que vive em Nova Iorque, Estados Unidos, e hoje é um famoso especialista internacional na área de pesquisas médicas e científicas. Nessa entrevista, ele relata detalhes de sua vida, de sua prisão, do atendimento médico a sindicalistas presos no Raul Soares, sua fuga e seu exílio. E reafirma as torturas praticadas contra os presos. Diz que a Comissão da Verdade, instalada recentemente pelo governo brasileiro, infelizmente chegou muito tarde, pois muitas vítimas da Ditadura Militar já morreram, mas admite que a história tem que ser sempre relembrada para que nunca mais se repita. “A Comissão da Verdade veio tarde, mas antes tarde do que nunca”, relata o médico .

Testemunha e personagem do Navio-Presídio

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“A vida começa a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam” (Martin Luther King Jr)

Este episódio do primeiro atendimento médico dentro do navio, não só salvou a vida do prisioneiro ferido como também mudou a vida do médico Thomas Maack, que estava preso, incomunicável, mas a partir desse fato era constantemente chamado para as emergências médicas no interior da embarcação, onde prestava os primeiros socorros. Com isso, atendeu e conheceu muitos líderes sindicais e foi testemunha dos maus tratos, torturas e terrorismo psicológico a que eram submetidos, conseguindo, finalmente, após longos dias presos, transmitir um recado para sua esposa Isa, em São Paulo, que soube de sua prisão, mas até aquele momento, não sabia para onde ele havia sido levado.

Maack informa como isso ocorreu: “Devido à minha atividade médica, através de um guarda da polícia marítima de Santos, consegui pela primeira vez mandar um recado para minha esposa dizendo onde estava, quebrando assim a incomunicabilidade com a família sem o conhecimento do Coronel Alvim (Sebastião Alvim). A minha incomunicabilidade oficial somente terminou um pouco antes do navio ser desativado em fins de outubro de 1964”.

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Um rosto anônimo na história

Em todos os relatos e nos livros escritos sobre a embarcação, que ficou atracado no Porto de Santos, servindo de prisão política flutuante, o jovem médico sempre foi mencionado, mas poucos sabiam seu nome, e seu destino após a desativação do navio. Para muitos presos daquele navio, ele era apenas uma lenda ou simplesmente um mito, um rosto quase anônimo, mas sempre lembrado como uma boa recordação pelos sindicalistas por ele atendidos, tendo suas vidas salvas naquele difícil período da Ditadura Militar no Brasil.

De um detalhe todos se lembram: O médico tinha os cabelos de “fogo”, pois ele era ruivo de cabelos quase avermelhados. O falecido jornalista Nelson Gatto, um dos presos políticos do navio e autor do livro Navio-presídio, lançado em 1965, se refere sempre ao médico, como um jovem professor de cabelos de “fogo”, outros presos o chamavam de médico de cabelos de “tomate”, em alusão ao tom avermelhado. Ele relata cenas de horror, tortura, violência e falta de respeito que imperavam naquele navio da ditadura.

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O navio-prisão Raul Soares foi desativado em 23 de outubro de 1964. Não tinha mais forças para navegar. Deixou o Porto de Santos, próximo à Ilha Barnabé, sendo rebocado para o Rio de Janeiro onde no dia 2 de novembro virou sucata, ou seja “morreu” no Dia de Finados, levando consigo as dores silenciosas de estudantes, presos políticos e sindicalistas.

Thomas Maack é pesquisador de renome internacional e professor titular de Fisiologia da Weill Cornell Medical College (Escola Médica da Universidade de Cornell), da cidade de Nova Iorque. Antes de ser preso e levado para o navio no Porto de Santos, Maak diz que já se dedicava às pesquisas médicas. Casado com a brasileira Isa e até então pai de uma menina, ele diz que, no início da carreira, tinha que fazer renda para sustentar a família e se dispôs em trabalhar nos plantões médicos na periferia de São Paulo. “Prestar atendimento aos presos do Raul Soares não foi nenhuma novidade, a não ser pelo ambiente diferente de um pronto-socorro e pela falta de estrutura e de medicamentos e pelas crueldades das torturas praticadas contra os presos, sem contar que essa não era a minha especialidade, pois sempre me dediquei à pesquisa”.

Maack diz que Comissão da Verdade chegou tarde ao Brasil

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Aos 78 anos de idade, a primeira pergunta o médico Thomas Maack nos respondeu pelo skype foi sobre a Comissão da Verdade,  criada pelo Governo Federal, para apurar crimes de torturas e violências contra presos durante a ditadura militar. “Infelizmente, para muitos presos, a Comissão da Verdade chegou tarde. Entretanto, tenho que admitir, que antes tarde do que nunca”.

De nacionalidade alemã , o médico diz que saiu do País aos 29 anos de idade, deixando sonhos e projetos e uma vontade grande de obter a nacionalidade brasileira, sonho que ainda acalenta, mas que acha difícil de se concretizar, mas não impossível, por estar radicado e morando nos Estados Unidos. “Se o Governo quiser, será um grande prazer. Basta refazer meu processo de naturalização”, diz Maack que hoje é um cidadão americano naturalizado e um dos maiores nomes da medicina mundial em pesquisas.

Entretanto, diz se considerar brasileiro e um autêntico paulistano, mas de coração corintiano, time do qual é torcedor desde sua infância na Capital Paulista. “Me  considero um típico cidadão de São Paulo, pois apesar de ter nascido na Alemanha, vim para o Brasil com 1 ano de idade, pois meus pais, emigraram para o Brasil em 1936, fugindo do regime nazista. Tanto que nem sei falar alemão. Portanto, toda minha infância, adolescência, juventude e parte da vida adulta foram vividas em São Paulo, onde também me casei com a brasileira Isa e onde nasceu minha primeira filha, Maísa”, justifica.

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E prossegue: “Foi na Capital Paulista que estudei, cursei a Faculdade de Medicina, me formei e iniciei minha carreira em Ciência. Posso dizer que moro em Nova Iorque, me refugiei nos Estados Unidos, mas meu coração permaneceu em São Paulo, cidade que eu amo”.

Preso no Navio e depois expulso do País

“Quando saí do Brasil, em dezembro de 1964, e me exilei nos Estados Unidos, achei que voltaria em breve para obter a cidadania brasileira e retomar minha vida interrompida pela prisão, mas o regime militar durou longos 21 anos, sem contar que fui expulso do País por decreto do Governo Militar”.

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Assim que o processo de expulsão do País foi revogado em fins de 1978, voltei ao Brasil principalmente para visitar os meus pais, já agora envelhecidos e doentes. Com a anistia, em 1979, tentei a volta definitiva ao país, obtendo um a licença prêmio da Cornell para trabalhar um ano na Divisão de Nefrologia da Escola Paulista de Medicina a convite do seu chefe de disciplina, o saudoso professor Oswaldo Luiz Ramos.

Eu havia treinado diversos professores dessa Divisão em meu laboratório na Cornell nos EUA. Na Divisão de Nefrologia fiz pesquisa e treinei cientistas-médicos. Na ocasião também recebi o grau de Doutor em Nefrologia pela Escola Paulista de Medicina em 1980.

De alguns anos para cá ele afirma que tem vindo com mais frequência ao Brasil para compromissos profissionais.

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Prisão foi no prédio da USP

Em 1964, o País vivia tempos turbulentos da Ditadura Militar. Em 1º de abril daquele ano o presidente Jango Goulart foi deposto do cargo e o Brasil naufragou num período bastante turbulento de sua história. Quem se opunha ao Governo e ao Regime era preso. Bastava uma desconfiança para que agentes do extinto Departamento de Ordem Pública e Social (Dops) recebessem incumbências militares para efetuar prisões.

No dia 8 de junho daquele ano, esses agentes acompanhados por militares à paisana invadiram o prédio da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) para prender o médico sob acusação de subversão. “Eu estava em meu laboratório quando isso ocorreu, pois era auxiliar de ensino no Departamento de Fisiologia”, conta o médico, que por alguns instantes não consegue esconder a emoção da lembrança e isto é visível mesmo através da tela do computador. Ele informa que teve intensa atividades políticas e estudantil. Como universitário ajudou a fundar a União dos Estudantes Nacional em Medicina (UNEM). “A minha atividade política, como a de muitos da minha geração, era dirigida para a emancipação econômica do País e pela luta contra injustiças econômicas e sociais em geral”.

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O médico e professor diz que como estudante e docente participou ativamente na luta pela autonomia universitária, substituição do serviço militar obrigatório por atividade médica compulsória em regiões carentes de médicos no Brasil e abolição do trote de calouros para protegê-los contra humilhações e violências praticadas por veteranos.

Levado ao navio-prisão

Maack relata como foi sua chegada ao navio-prisão e as constantes ameaças que recebia. “Após alguns dias presos, o Coronel Sebastião Alvim decidiu quebrar o meu silêncio mandando-me para o navio- prisão Raul Soares ancorado no porto de Santos. Essa decisão não foi comunicada a minha família que ficou por algumas semanas incerta de onde estava. O Coronel Alvim deu ordens estritas de manter a minha incomunicabilidade até poucos dias antes da desativação do “Raul Soares” em fins de outubro. Os interrogatórios continuavam no navio com uma frequência algo menor do que em Quitaúna , mas as ameaças de prender a minha esposa continuavam a ser parte constante desses interrogatórios.

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Numa cela inundada

No “Raul Soares” fiquei isolado dos outros prisioneiros numa cabine individual, sendo também proibido de me comunicar com outros prisioneiros quando no convés do navio. A intenção foi a de me punir com isolamento absoluto com o objetivo de quebrar o meu silencio. Quando cheguei ao navio fui colocado numa cela inundada. A água não permitia que dormisse na parte de baixo do beliche, só na parte de cima. Fiquei, a princípio, assustado com àquele ambiente.

O meu isolamento teve que ser quebrado porque o navio contando com dezenas de prisioneiros políticos , muitos deles idosos e doentes e abrigados em péssimas condições no porão do navio, não tinha um único médico e eu era constantemente chamado para tratar emergências (febres altas, tuberculose ativa, desidratação, distúrbios gastrointestinais, tentativa de suicídio, quadros psicóticos agudos, convulsão epiléptica, foram algumas das emergências que atendi ). Assim, como “médico do navio” consegui quebrar o meu isolamento e me comunicava com os outros prisioneiros.

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Também tratei de guardas da polícia marítima de Santos, fuzileiros navais que guardavam prisioneiros e mesmo oficiais da marinha que comandavam o navio- prisão.

Devo dizer, todavia, que as condições para atendimento de doentes eram tão precárias no navio, que quase nada podia fazer. Isso aliado, a bem da verdade, a minha relativa inexperiência já que eu tinha me formado somente 2,5 anos antes de ser preso e desde a minha formatura eu tinha me dedicado mais à pesquisa e vida acadêmica do que à pratica médica.

Quando o caso era grave ou o prisioneiro era muito idoso eu ameaçava o comandante do navio que se ele não transferisse o doente para um hospital em Santos, eu não podia mais me responsabilizar. Assim consegui , de acordo com o coletivo de prisioneiros do navio, retirar do navio alguns prisioneiros idosos e doentes. Isso pode ter salvo algumas vidas, do que me orgulho. Na época o comandante do navio tinha muito medo que algum prisioneiro morresse no navio, graças em parte, à intensa vigília por parte de mulheres de sindicalistas que estavam presos no navio.

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Fuga e o exílio em Nova Iorque

Com a desativação do navio-prisão, em 23 de outubro de 1964. Thomas Maack foi levado para a Cadeia do Palácio da Polícia, no Centro de Santos.

O médico conta: “Todavia, a minha prisão não terminou. Fui transferido juntamente com outros prisioneiros para a cadeia do Palácio da Policia em Santos. Éramos oito prisioneiros numa cela de uns poucos metros quadrados com latrina aberta, e condições péssimas de higiene e alimentação. Os interrogatórios cessaram completamente e eu podia receber visitas semanais da esposa e mesmo de colegas de trabalho. Fui libertado por força de um habeas-corpus do Supremo Tribunal Federal no dia 15 de dezembro de 1964, após cerca de 7 meses de prisão. A minha foi a prisão politica mais prolongada de um docente universitário em São Paulo em 1964.

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Expulsão do Brasil e o exílio

Dr. Thomas Maack relembra seus últimos dias no Brasil antes da fuga e exílio nos Estados Unidos. “Aparentemente os militares não se inteiraram imediatamente de que eu tinha sido libertado. Assim que o fizeram decretaram nova prisão preventiva. Não houve alternativa a não ser se esconder e depois sair do País com a esposa e a filha.

Minha liberdade e carreira profissional assim como os da minha esposa, talvez mesmo as nossas vidas, estariam seriamente ameaçadas se nós tivéssemos ficado no Brasil, o que foi confirmado pelas repetidas ordens de prisão preventiva, os diversos IPM e processos instaurados em diversas instâncias militares.
Apesar de todas as alegações contidas nos IPM, e a minha longa prisão , em grande parte em isolamento e em condições degradantes, fui absolvido em todos os julgamentos resultantes desses IPM na 2a Auditoria de Guerra e no Superior Tribunal Militar . Finalmente, o que impossibilitou de todo minha volta ao País antes da anistia de 1979, mesmo em caráter temporário, foi o inquérito instaurado para minha expulsão do Brasil quando eu já estava há muito tempo nos Estados Unidos” .

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E conclui:” Fugi para São Paulo, onde fiquei refugiado na casa de um amigo e de lá inicie fuga para o exílio. Minha intenção era me exilar no Canadá, porém, o destino não quis dessa forma e fugindo com minha família, via Paraguai, por um fato inexplicável, acabei nos Estados Unidos, e até hoje guardo comigo o bilhete aéreo para o Canadá, como uma lembrança daquele dia, talvez, como a me explicar para onde o destino me levou através de suas asas”.

A série de reportagem Memórias do Cárcere Flutuante prossegue amanhã…