Em comício, Trump tenta assumir versão sobre primeiro mês no poder

Neste sábado (18), ele voltou ao palanque -onde se sente mais confortável- para rebater as críticas da imprensa

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20 FEV 2017Por Folhapress08h30
Ao completar um primeiro mês turbulento no poder, Donald Trump decidiu que era hora de tentar assumir a narrativa sobre seu governoAo completar um primeiro mês turbulento no poder, Donald Trump decidiu que era hora de tentar assumir a narrativa sobre seu governoFoto: Divulgação

Ao completar um primeiro mês turbulento no poder, Donald Trump decidiu que era hora de tentar assumir a narrativa sobre seu governo. Neste sábado (18), ele voltou ao palanque -onde se sente mais confortável- para rebater as críticas da imprensa e dizer que fez um "incrível progresso" e que seu governo está caminhando "suavemente".

No que foi reconhecido como comício pela própria equipe de Trump, num hangar em Melbourne, na Flórida -Estado importante para sua vitória nas eleições-, o presidente disse que queria falar ao povo "sem o filtro das notícias falsas" e repetiu ter herdado uma "grande bagunça" de Barack Obama.

Após descer do Air Force One, ele destacou decisões tomadas, como a de construir o muro na fronteira com o México, de sair da Parceria Transpacífico (TPP), de retomar a construção de polêmicos oleodutos. E criticou mais uma vez os juízes que suspenderam -e mantiveram suspenso- o seu decreto vetando refugiados e cidadãos de sete países de maioria muçulmana.

"Temos que manter o nosso país seguro", disse, lembrando que assinará outro decreto na próxima semana sobre o tema.

Ele disse ainda que pretende criar zonas de segurança na Síria para abrigar refugiados ao invés de deixá-los entrar nos EUA. "Não queremos pessoas com ideias ruins."

Trump prometeu planos "grandes" e "ousados" para o futuro. "Vocês querem um governo que mantenha suas promessas", afirmou. "Vamos continuar a vencer, vencer, vencer."

Em mais uma característica de evento de campanha, o presidente foi apresentado pela primeira-dama, Melania, que surpreendentemente rezou o Pai Nosso antes de sua fala. "Não sabia que ela ia rezar o Pai Nosso, mas foi bonito", disse Trump.

Ele criticou ainda a "pequenina" manifestação que reuniu dezenas do lado de fora do aeroporto, chamou um emocionado apoiador ao palco e desafiou a mídia "desonesta" a mostrar quantas pessoas lotavam o hangar (neste momento, a câmera da CNN mostrou todo o local).

'MAQUINA BEM REGULADA'

Durante a semana, ele já havia enfrentado a imprensa em uma coletiva de mais de uma hora para tentar mostrar que seu governo funcionava como uma "máquina bem regulada", apesar da queda de um de seus mais importantes assessores, da suspensão pela Justiça de um de seus mais alardeados decretos e da maior oposição de um Congresso para aprovar um gabinete desde os anos 1980.
 

Trump hoje patina para achar um novo conselheiro de Segurança Nacional, após a renúncia de Michael Flynn, e tem confirmados apenas 12 dos 23 nomes -entre secretários e diretores de agências- que precisam do aval do Senado.

No Congresso, senadores republicanos pediram investigação sobre a influência russa nas eleições diante de revelações de possíveis contatos do time de Trump com Moscou durante a campanha.

"Apesar de poucos presidentes terem conseguido fazer muito em seu primeiro mês, o de Trump foi muito mais caótico", afirma Eric Posner, especialista em Poder Executivo da Universidade de Chicago. "Um presidente precisa cooperar com os outros Poderes para cumprir sua agenda, e a posição de confronto não o ajudou."

Para Gary Nordlinger, especialista da Universidade George Washington, ficou clara a frustração de Trump ao ver que pode realmente ter suas decisões limitadas por outros Poderes. "Ele está acostumado a estar à frente de um negócio em que os seus funcionários se viram como podem para atender às suas ordens."
Julian Zelizer, historiador da Universidade de Princeton, concorda que o sistema de freios e contrapesos fez Trump retroceder. "Mas os republicanos no Congresso ainda têm feito pouco para desafiá-lo", diz.

A imprensa, com quem Trump tem uma guerra declarada desde a campanha, também não deu trégua ao presidente, em um embate que, no caso mais extremo, levou à saída de Flynn. No sábado, o presidente disse que não vai deixar que a mídia o diga o que fazer.

"Eles têm a sua própria agenda, que não é a de vocês", disse. "Eles inventam em muitos casos. Eles não querem reportar a verdade, são parte do sistema corrupto."

APROVAÇÃO

Nas pesquisas, o resultado do primeiro mês de Trump é a menor aprovação da história. Segundo o instituto Gallup, apenas 40% dos americanos são favoráveis ao seu governo hoje, cinco pontos a menos do que no início de seu mandato e 11 pontos atrás do segundo pior desempenho -o de Bill Clinton, que tinha 51% de aprovação no mesmo período.

No entanto, segundo pesquisa do mesmo instituto, no início do mês, 59% dos entrevistados consideravam Trump um líder "forte e decidido" e 53% acreditavam que ele pode trazer as mudanças de que o país precisa.

"Os apoiadores de Trump ainda estão entusiasmados, mas a sua aprovação é extraordinariamente baixa", diz Posner.

Para Nordlinger, apesar das avaliações majoritariamente negativas, Trump deu sinais positivos no primeiro mês, como a crítica aos assentamentos israelenses. Segundo o especialista, num cenário ruim, o presidente poderia já ter retrocedido no acordo sobre o programa nuclear do Irã ou no Acordo de Paris sobre o clima.

"Metade do país acha que ele não é capaz de fazer nada certo ou que nada do que ele fizer será errado. O resto de nós vaga entre o otimismo e o nervosismo."