Popó decide morar em Santos, voltar a lutar e recomeçar carreira política

No Papo de Domingo, o boxeador revela que tem a intenção de se lançar vereador pelo PRB na Capital Paulista

Comentar
Compartilhar
28 MAR 201523h15

Santos deve receber nos próximos meses um morador ilustre. Isso porque Acelino Popó de Freitas decidiu “adotar a Cidade” para dar sequência em sua vida política e profissional, como pugilista.

Prestes a completar 40 anos, Popó vai retornar aos ringues em julho. Além desta luta, ainda sem adversário definido, marcada para a Arena Santos e com entrada gratuita, o lutador soteropolitano já tem compromisso para mais dois combates este ano.

Mas não é só o esporte que trouxe um dos maiores boxeadores de todos os tempos para a cidade da Baixada Santista. A intenção de se lançar vereador pelo PRB na Capital Paulista faz parte de seu novo projeto de vida. E poder conciliar os dois desejos com a hospitalidade de um litoral que remete às suas origens, em Salvador, pesou na decisão de Popó.

O Diário do Litoral conversou, com exclusividade, com o atleta que, em 1999, acabou com o jejum brasileiro de grandes títulos no cenário mundial do boxe.

Tetracampeão do mundo por duas organizações diferentes (dois títulos pela categoria super-pena e dois como peso-leve) e dono de um cartel de 39 vitórias, sendo 33 por nocaute, e apenas duas derrotas, Acelino Popó de Freitas falou sobre a homenagem que recebeu em sua ‘nova cidade’ ao lado de Éder Jofre, duas vezes campeão do mundo, e Miguel Oliveira, campeão mundial, além de revelar seus planos para o futuro na carreira e comentar o caso de doping de seu amigo e também multicampeão Anderson Silva.

Popó adotou a cidade de Santos (Foto: Matheus Tagé/DL)

Diário do Litoral - É verdade que você está decido a ficar em São Paulo?

Popó -
Eu já tinha recebido, no ano retrasado, uma proposta para morar em São Paulo, para fazer minha carreira política em São Paulo. Outro partido me chamou, falou para eu largar meu partido, mas eu falei ‘deixa eu continuar no meu partido aqui’. E, provavelmente, o Celso Russomano saia candidato a prefeito, e é o mesmo partido que o meu. E eu venho tentar fazer a carreira política aqui, sair como vereador, tentar ajudar o esporte, com inclusão social. Eu sei que tem muito nordestino aqui em São Paulo, tem gente que precisa, sim, de pessoas que tiveram as mesmas dificuldades. É isso que a gente pode fazer como político, como atleta, como representante do Brasil.

DL - E você pretende morar em Santos?

Popó -
Tem três deputados que moram aqui. Isso não é empecilho porque, dependendo do trânsito, você gasta meia hora, quarenta minutos para subir (a serra). E aqui é muito parecido com a Bahia, litoral, praia, eu gosto da Cidade. Então, eu acho que eu venho morar aqui, eu venho adotar Santos como minha cidade.

DL – Você idealizou o projeto de lei para o dia nacional do Boxe e acabou recebendo uma homenagem, em Santos, ao lado de Éder Jofre e Miguel Oliveira. A estátua criada com o busto de vocês três juntos te surpreendeu?

Popó -
Lógico. A gente não está no país do Boxe, a gente não está no país do MMA, nada disso. A gente está no país do futebol. E aqui (em Santos) só tem uma estátua dessa erguida, que é do Pelé. Então, a gente se igualar a um dos maiores ídolos do futebol...e Pelé foi tri-mundial (somando clube e seleção, foram cinco títulos). Podemos hoje (quinta, 26) colocar sete títulos mundiais em uma tarde só. Se a gente parar para mensurar, ter uma estátua dessa na entrada do maior Ginásio de Santos, não é escondidinho, não. É na entrada, onde todos podem ver e perguntar quem são. ‘Poxa, esse aqui ganhou quantos títulos?’, ‘Olha, essa época aqui meu pai não era nem nascido’. Isso é gratificante para a gente.

DL – Em julho, a Arena Santos vai receber uma luta sua. Como surgiu essa intenção de voltar a lutar após dois anos?

Popó -
Na verdade, foi um pedido de várias pessoas. Meu chefe de gabinete, que hoje é meu assessor, jogou nas redes sociais uma possível volta minha. E bombou. Pelo fato da luta de Michael ter acontecido de uma forma que a gente não esperava, porque ficar cinco anos parado, voltar, bater em um invicto, um cara 14 anos mais novo...ninguém esperava essa volta minha, daquela forma, nocauteando no penúltimo round. E eu mostrei que não tem idade, que a mão pode entrar em qualquer round. E não porque eu quis. Se eu pudesse, eu nocauteava no 1º round, mas teve momentos que eu segurei a mão e disse ‘não, vou nocautear a hora que eu quero. A hora que eu quiser, vou nocautear ele’. E nocauteei no 9º round.

E teve o pedido de outras pessoas, minha família. Meus sobrinhos, meus netos não viram, aquela coisa toda, todo mundo falando ‘volta aí’. Eu só estou voltando porque não foi o boxe que me parou. Eu que parei o boxe e falei ‘ele está alí. O dia que eu quiser voltar eu volto bem, não volto com lesão’.
A única lesão que eu tenho no boxe é no dedo do pé, não é nem da mão. Porque eu já lutei com três ou quatro lutadores canhotos e eles pisavam no meu pé. Eu tentava tirar o pé e o cara machucou meu pé. É a única lesão que eu tenho no boxe.

DL – Quem será seu adversário? O que espera dele?

Popó -
Sobre o adversário, a gente tem sempre três ou quatro para a gente escolher, a gente estuda o perfil e a gente nunca divulga muito antes porque aquele adversário acerta uma proposta melhor. Infelizmente, tem muitos lutadores mercenários. Se você marca aqui com um lutador, mas, se ele acha 500 ou mil dólares a mais, ele vai (embora). Não está nem aí se você colocou panfleto, cartaz, tudo com o nome do cara. Ele não vai e não está nem aí. Então, é melhor divulgar tudo certinho, com um mês antes.

DL – Por que você decidiu parar de lutar?

Popó -
Eu não tenho mais nada para provar para ninguém. Se eu tivesse que provar, era para mim mesmo. Para ver como está o condicionamento físico, técnico. E às vezes eu estou na academia e consigo fazer coisas que ninguém consegue. Então, vou voltar para dar uma levantada no boxe, ajudar o boxe, tentar atrair mais essa garotada para o esporte, dar oportunidades até para alguns lutadores lutarem uma preliminar.

DL – Pensa em título?

Popó -
Não sei. Isso é consequência de um trabalho. Já surgiu até oportunidade de disputar um título mundial, que seria o título que é o quinto da versão, mas para o cara que foi campeão da Organização, da Associação Mundial de Boxe, disputar um cinturão que não tem tanto glamour, nada disso...Então, não é o cinturão me ajudar. Sou eu tentar levantar esse cinturão. Então, eu não quero. Eu acho que é melhor eu fazer lutas amistosas, que não tenham títulos, do que luta que tem título e eu levantar. Não, eu quero um título que já esteja em pé.

DL – Como você analisa os pugilistas do passado e do presente. Na sua opinião, o nível técnico regrediu ou evoluiu?

Popó -
Era tudo diferente. A gente não pode comparar qualidade técnica, não pode comparar bolça, as coisas vão evoluindo cada vez mais. Antigamente, você fazia apoio que levava o corpo lá em cima. Hoje em dia você não pode mais, porque diz que prejudica a coluna. As coisas vão mudança, então, a gente não pode comparar que o boxe era mais evoluído no passado. Eu acho que o boxe é igual, sempre foi igual, não teve melhor no passado, não tem melhor no presente. A única coisa que mudou foram as bolsas, que no passado não tinham.

DL – Você é amigo do Anderson Silva. O Dória, que te treinou por muitos anos, é o treinador de boxe dele. Como você recebeu a notícia do doping?

Popó
- Ele é meu amigo, sim. É complicado. Eu brinco dizendo que fui tetracampeão tomando água e comendo a comida de casa (risos). Mas o Anderson Silva é um grande campeão, não posso julgar ninguém, o que aconteceu. Eu acho que é lamentável que a gente tenha um ídolo, tudo, e as pessoas, infelizmente, esquecem muito fácil o que o cara fez de bom. O cara levantou o nome do Brasil, levantou o nome do MMA, colocou o MMA lá em cima. Ganhou vários títulos, várias defesas de cinturão e ninguém repara no que o cara fez de bom no passado, só vão reparar o erro. Infelizmente, é assim.