Em tempos de crise, empreender pode ser uma saída

A corretora de imóveis Sofia Quitéria só sentiu a crise econômica do País quando, em meados de 2016, decidiu deixar para trás a profissão que lhe acompanhou por 15 anos, após passar um ano inteiro sem vender nenhum ­imóvel.

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04 MAR 2018Por Vanessa Pimentel15h02
Sofia comprou uma banca de variedades no Gonzaga e há um ano e meio vende quase de tudoSofia comprou uma banca de variedades no Gonzaga e há um ano e meio vende quase de tudoFoto: Rodrigo Montaldi/DL

A corretora de imóveis Sofia Quitéria só sentiu a crise econômica do País quando, em meados de 2016, decidiu deixar para trás a profissão que lhe acompanhou por 15 anos, após passar um ano inteiro sem vender nenhum ­imóvel.

“Isso nunca tinha acontecido porque mesmo em crise, sempre têm pessoas com dinheiro para investir, principalmente em Santos, que é turística. Mas, quando passei um ano sem vender nada, vi que era hora de mudar de área”, diz ela. 

O nicho escolhido foi o comércio. Sofia comprou uma banca de variedades no Gonzaga e há um ano e meio vende quase de tudo: de chapéus a óculos, de bolsas a camisetas de futebol. Os valores variam de R$15 a R$220. 

Sofia já estava acostumada a viver sem os benefícios do regime trabalhista CLT, já que corretores de imóveis são profissionais autônomos, mas diz sentir falta de trabalhar menos exposta.

“A corretagem exigia outro tipo de postura. Ser dona do próprio negócio têm vantagens, mas ao mesmo tempo, quem é ambulante fica exposto ao sol, calor, chuva, situações que eu não gosto”, justifica. Sem explicar o motivo, informou antes do fim da entrevista que está passando o ponto. 

Mais à frente, Ruan Carlos de Souza almoçava em uma típica marmita de alumínio sentado sobre uma mureta que, no contexto, fazia o papel de uma cadeira, e permitia usufruir um pouco da sombra de uma árvore. Dono de dois carrinhos - um de eletrônicos, outro de roupas e acessórios - Ruan diz estar acostumado a estas condições de trabalho, já que comanda o negócio há mais de 20 anos. 

“Eu não dependo de carteira assinada não, mas muita gente depende, então essa crise me atrapalhou porque há uns nove meses estou vendendo pouco. Quem tá desempregado não gasta”, ­acredita. 

Os dois fazem parte dos dados divulgados em janeiro passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostraram que o número de pessoas que trabalham por conta própria ou em vagas sem carteira assinada superou o daqueles que têm um emprego formal pela primeira vez em 2017. Já o índice de desemprego no Brasil subiu para 12,2% no trimestre até janeiro. 

Informalidade alta

Apesar da queda da taxa de desocupação na comparação com o mesmo trimestre do ano passado, o número de empregados com carteira assinada continua em baixa, recuando 1,7%. 

O número de empregados sem carteira subiu 5,6%, e o de trabalhadores por conta própria, 4,4%. Essas categorias sustentaram o crescimento da população ocupada, que aumentou em 1,8 milhão de pessoas (2,1%).

“Por causa da crise econômica, o mercado não consegue impulsionar a criação de postos de trabalho de qualidade. Todo esse crescimento de 1,8 milhão de pessoas está apoiado em uma plataforma informal de trabalho”, disse Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Desemprego

Apesar de se manter estável em relação ao trimestre anterior (agosto a outubro), a taxa veio acima do previsto pelos analistas. A mediana das previsões em pesquisa da agência Reuters era de que ficaria em 12% no período.

Em relação ao mesmo trimestre do ano passado, quando registrou 12,6%, a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) mostrou que a taxa de desocupação ficou 0,4 ponto percentual menor.

Após alcançar 13,6% no trimestre de fevereiro a abril, o desemprego vinha acumulando quedas nos índices de maio a julho (12,8%) e de agosto a outubro (12,2%).
“O índice vinha caindo, mas agora houve essa estabilidade, interrompendo as duas baixas. É um movimento característico de janeiro, quando esse indicador tende a estabilizar ou até a subir”, explicou Cimar.

Novas formas de trabalhar trazem oportunidades

Ao mesmo tempo em que a informalidade não oferece as mesmas garantias trabalhistas que as conquistadas pela Consolidação das Leis do Trabalho, traz consigo novas oportunidades para quem quer empreender. 

Simone Avelino, 50 anos, foi professora em São Paulo durante 17. Após a morte do marido, saiu da cidade para morar em Peruíbe. “Passei um tempo lá colocando minha vida no lugar. Comecei a trabalhar como representante de uma distribuidora de bananas e passei a conhecer o ramo da alimentação”, explica.

A decisão do filho mais velho de cursar Engenharia em Santos foi o pontapé para a vinda dela ao município. Além da mudança de casa, Simone abriu o Paulistana Empório, no Gonzaga. 

“Há oito meses toco a loja ao lado dos meus filhos e não sinto vontade de voltar a ser funcionária de alguém. Não posso negar que estou cansada porque quando se é dono do próprio negócio, o trabalho triplica. Eu que vejo estoque, preços, saída das mercadorias, além de ouvir o cliente e tentar sempre que possível, ­agradá-lo”, declara.

A informalidade, para ela, é encarada com bom humor e aprendizado. O filho mais velho conta que nunca trabalhou para os outros e que, se puder, será empreendedor ­sempre. 

Trabalhar por conta própria foi também a opção de Mouaiad Al Charfaoui, um refugiado sírio que saiu de Damasco, capital do País, para o Brasil, território que ele considera diferente de todos os outros que já conheceu. 

“É verdade que as pessoas daqui não são frias, são descomplicadas na hora de fazer amizade, sorridentes. Nem todo mundo é bom, eu sei, mas encontrei pessoas boas no meu caminho por aqui”. 

Mido (apelido) trabalhou por quatro anos em São Paulo vendendo comida árabe. Com a piora do cenário econômico, o negócio fechou em 2015.

Desde o fim do ano passado, Mido decidiu se estabelecer em Santos. “Santos foi a primeira praia que conheci. Vim passar um feriado em setembro e aluguei este espaço”, conta.

O Salaam Shawarma & Lanches Árabes (Salaam significa paz), fica no Gonzaga é a sua únicafonte de renda. Sozinho  à frente do negócio, o trabalho informal foi o setor que, junto com o país, ofereceu uma nova forma de viver.