EUA espionaram 35 líderes mundiais, diz jornal

Casos descobertos até aqui - que envolveram a presidente Dilma Rousseff, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o governo da França - podem ser apenas a ponta do iceberg

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24 OUT 201320h20

Documentos da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA, na sigla em inglês) revelados pelo ex-agente secreto Edward Snowden indicam que pelo menos 35 líderes mundiais foram espionados pelos norte-americanos ao longo dos anos 2000. Casos descobertos até aqui - que envolveram a presidente Dilma Rousseff, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o governo da França - podem ser apenas a ponta do iceberg do escândalo de espionagem.

Os nomes desses líderes políticos não constam do documento publicado hoje pelo jornal britânico The Guardian. Segundo o relatório, de 27 de outubro de 2006 e identificado pelo número S203A, autoridades do Pentágono, do Departamento de Estado e da Casa Branca eram "encorajados a compartilhar suas agendas para que a agência pudesse acrescentar responsáveis políticos estrangeiros de primeiro plano ao seu sistema de vigilância". Traduzindo: membros do governo informavam números de celular de seus interlocutores estrangeiros para que eles passassem a ser espionados.

De acordo com a mesma nota, uma única autoridade norte-americana teria fornecido "200 números de telefone de 35 líderes internacionais". Isso "permitiu acesso a informações que deram outros números interessantes, solicitados a seguir", o que sugere que outros políticos passaram a ser monitorados. Por outro lado, as ligações monitoradas teriam "aportado poucas informações" à NSA.

As revelações do Guardian sucedem à revelação de que o celular da chanceler Angela Merkel foi grampeado pelo serviço secreto norte-americano. O caso provocou reação da líder alemã, que na quarta-feira telefonou para Barack Obama e cobrou explicações. Hoje, ao chegar em Bruxelas para a reunião de cúpula da União Europeia (UE), Merkel voltou ao tema. "Espionagem entre amigos não se faz", recriminou. "Os fatos são os fatos. Não podemos aceitar, seja de quem for, a espionagem sistemática."

A presidente Dilma Rousseff é uma dos 35 líderes mundiais foram espionados pelos norte-americanos (Foto: Divulgação)

Na segunda e na terça-feira, o governo de François Hollande, na França, descobriu algo semelhante. Documentos de Snowden obtidos pelo jornal Le Monde indicaram que órgãos governamentais em Paris e embaixadas no exterior, grandes empresas privadas e cidadãos foram alvo de monitoramento. No ano passado, escutas telefônicas já haviam sido localizadas no Palácio do Eliseu. Na quarta-feira, por outro lado, a presidência francesa foi mais flexível, dizendo querer "enquadrar" a espionagem norte-americana, mas compartilhando as demais informações entre os serviços secretos dos dois países.

Hoje, Merkel e Hollande insistiram em Bruxelas que medidas devem ser adotadas em escala continental para impedir que informações sensíveis sejam obtidas pela NSA. Com isso, a espionagem roubou a cena da imigração e tornou-se o tema preponderante da cúpula UE, que se encerra amanhã. Uma das propostas a serem analisadas nesse sentido é a que obriga os gigantes da internet, como Google, Yahoo, Facebook, Apple ou Microsoft - todas norte-americanas -, a não acessar certos dados de vida privada ou, ao menos, a não transmiti-los a serviços de espionagem.

Multas de € 100 milhões, ou de até 5% do faturamento das grandes companhias, seriam aplicadas às que desobedecessem a legislação. Grã-Bretanha, Irlanda e Holanda manifestaram reticências, mas hoje Merkel foi enfática. "Medidas são necessárias, e não se pode imaginá-las isoladamente. São necessárias medidas europeias", defendeu.