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Polícia

PCC aguarda ordem para agir, diz promotor que transferiu membros da facção

"Sempre existe esse risco. A gente não pode duvidar de nada. O estado está preparado", afirma Lincoln Gakiya.

Folhapress

Publicado em 16/02/2019 às 07:00

Atualizado em 16/02/2019 às 12:24

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Segundo promotor, Marcola estava extremamente bravo, xingando e vociferando na transferência / Rogério Cassimiro/Folhapress

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, responsável pelo pedido de transferência de Marco Camacho, o Marcola, e da cúpula do PCC para uma prisão federal, disse que atuou sozinho na apresentação da requisição à Justiça porque o Estado de São Paulo se omitiu.

Ainda segundo ele, houve recuo por parte do então secretário da Segurança, Mágino Alves Barbosa Filho, que convenceu o ex-governador Márcio França (PSB) a não apresentar tal solicitação.

Essa mudança se deu depois das eleições do ano passado, após França perder o pleito e João Doria (PSDB), vencedor, anunciar que faria mudanças na pasta da Segurança.

Sobre eventual represália por parte do PCC às forças de segurança após a transferência, como em 2006, o promotor afirma que sempre há chances de isso acontecer, mas que, por ora, não foi detectada nenhuma ordem do crime.

Segundo integrantes da cúpula da segurança pública de São Paulo, mesmo com uma série de mensagens distribuída nas redes sociais com suposto "salve" do PCC, nenhuma ameaça concreta foi detectada.

Os policiais afirmam, porém, que, de acordo com monitoramentos, o risco ainda não foi afastado e que vigilância continua em alta. Dizem saber que há bandidos preparados para uma ação de enfrentamento, mas que não receberam nenhuma ordem superior para isso.

Essa ordem também poderá ser para que nada seja feito, para não prejudicar Marcola, já que ele foi para o Regime Disciplinar Diferenciado com uma decisão provisória, por 60 dias.

Na última quarta-feira, o Diário do Litoral publicou que a direção do Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Mongaguá recebeu informações sobre um plano de ataques com alvos já definidos: delegacias, ônibus e agentes de segurança. As informações constam em um comunicado de um delegado de Mongaguá ao seu superior hierárquico em Santos. O Diário teve acesso à mensagem. 

*Com informações Da Reportagem

Leia a entrevista da Folha de S.Paulo:
 
PERGUNTA - Por que o senhor decidiu fazer sozinho o pedido de transferência dos presos?
LINCOLN GAKIYA -
Eu senti que houve uma omissão do Estado, porque houve uma divergência ali, depois das eleições, entre os secretários da Administração Penitenciária (Lourival Gomes) e da Segurança (Mágino Barbosa Alves Filho). Um [Lourival] era favorável, e o outro [Mágino] passou a ser contra. Eu disse que se o estado não se posicionasse, o Ministério Público entraria com o pedido. E foi o que eu fiz.

Aguardei ainda as tratativas com o governador, do então em exercício [Márcio França (PSB)] com o futuro governador [João Doria (PSDB)], se havia essa possibilidade.

Na verdade, o que envolveu a ação do Ministério Público foi a situação de [Presidente] Venceslau, que ficou inalterada. Ela permanecia a mesma, com um grande número de policiais em condições precárias. Isso também era um anseio da tropa. A própria população, a tropa, os agentes penitenciários, eles não entendiam porque a remoção não era feita. 'Por que o governador perdeu a eleição nós vamos ter que aguardar até que o próximo governador resolva isso?' Então, é bom que se diga, que em outras transferências importantes foi o Ministério Público quem pediu.

PERGUNTA - O senhor se sentiu sozinho?
LINCOLN GAKIYA
- Realmente, a sensação foi de ter ficado sozinho. Porque eu acho que o estado numa hora dessas não poderia recuar. O governador deu entrevista, inclusive, dizendo que era contra, que poderia haver uma invasão de Exército estrangeiro, que a população poderia ser atingida, e deveria haver um bom senso. E eles [os presos] comemoram, porque essa entrevista passou na TV [e nas celas há TVs].

Lá dentro da P2 [Penitenciária 2 de Presidente Venceslau], eu fui avisado que eles comemoram. Disseram: "Tá vendo? nem o governador quer mandar a gente". Aí, ficam só em cima do promotor, e começam a criar aquela coisa pessoal. Não é algo pessoal, é o Ministério Público. Se não fosse eu, seria outro. Na verdade, eu fiquei sozinho nessa. E, agora, tem gente surfando na onda.

PERGUNTA - Quem deixou o senhor sozinho? Quem recuou no acordo?
LINCOLN GAKIYA
- Quem recuou foi o secretário de Segurança.

PERGUNTA - Por que ele fez isso?
LINCOLN GAKIYA
- Não posso te falar, ele é quem deve responder.

PERGUNTA - O que vai acontecer com o PCC com Marcola distante?
LINCOLN GAKIYA -
Eu não tenho dúvidas que haverá uma reacomodação, e que novos líderes serão indicados, ainda pelo Marcola. A questão é que entre esses 15 grandes que estavam nesse plano de fuga, estavam aqueles que o Marcola e outros líderes supunham que iriam. Então, nessa leva de 15 [presos], e mais os sete lá que já estavam definidos na [operação] Echelon, que estavam no RDD [Regime Disciplinar Diferenciado], a gente levou quase todo mundo da confiança deles, numa cacetada só.

Os relatos que me foram passados, por pessoas que tiveram contato com eles no aeroporto, era de surpresa [por parte dos criminosos]. Surpresa inclusive em ver quais os presos que estariam com eles nessa remoção. Eles não esperavam. Até esperavam que fosse o Marcola e mais meia dúzia, e quando chegaram lá havia 15, e pessoas que certamente estavam no rol de confiança dele, e que ele [Marcola] iria deixar como responsável enquanto ele estivesse ausente. Não pode deixar qualquer um para não perder o poder também.

PERGUNTA - Há pessoas que dizem que o Marcola, por causa do episódio mal resolvido da morte de Gegê do Mangue e do Paca, não estaria achando tão ruim assim ser mandado para um presídio federal. Isso é verdade ou lenda?
LINCOLN GAKIYA -
É lenda. Ele saiu extremamente bravo, xingando, vociferando, enfim, ele estava absolutamente insatisfeito com a remoção. Porque, como eu disse, ele vai perder a visita íntima, vai perder uma refeição diferenciada, vai perder uma série de regalias que ele tinha, que ele não vai ter lá. E há o risco de perder poder. Outros chefes do PCC que foram para o sistema federal estão alijados do comando, fazem parte do comando, mas não participam das decisões.

PERGUNTA - É possível uma represália?
LINCOLN GAKIYA -
Sempre existe esse risco. A gente não pode duvidar de nada. O estado está preparado. Como eu disse: o efeito surpresa mesmo seria quando nós planejávamos isso lá em outubro. Quando eles nem suspeitavam de que esse plano havia sido descoberto. Mas isso caiu por terra. Eles tiveram tempo de se preparar, etc. Acho que o que atrapalhou [para os criminosos] foi a remoção desses 15 integrantes, deu uma atrapalhada, porque alguns desses achavam que poderiam ficar e distribuir alguns "salves" [ordens para os comparsas].

Hoje, como está o sistema, está tranquilo. Estão todos trancados, óbvio, por questão de segurança, no estado todo, mas não teve nada de "olha, vamos quebrar, bater as coisas". Nada disso. Na rua, o que falam, é que estão todos no pente, mas não sabem o que fazer. Mas não tem ninguém que fala: 'Vamos para cima, vamos arrebentar a polícia'. Ninguém vai tomar essa atitude, até porque pode prejudicar o Marcola. Porque ele foi para lá com uma decisão provisória de RDD de 60 dias.

PERGUNTA - O que é estar no pente?
LINCOLN GAKIYA
- Eles estão prontos para agir, para obedecer qualquer ordem, mas ela não vem. A gente entende também que a polícia está a postos, não é como 2006, que foi pego aí, praticamente de surpresa. Hoje tem um efetivo muito grande na rua. Alguém teria, do lado de fora, que assumir essa ordem. Mas, e se não for desejo do Marcola?

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