Laboratório da Unisanta analisará amostras de água coletada próxima ao incêndio

Pesquisadores do laboratório de Ecotoxicologia alertam sobre a necessidade de se monitorar também a médio e a longo prazo os peixes a serem consumidos pela população

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10 ABR 201512h31

Pesquisadores alertam sobre a necessidade de se monitorar também a médio e a longo prazo os peixes a serem consumidos pela população, e sobre a exigência, pelas autoridades, de tanques mais seguros também nas empresas de menor porte.

A mortalidade de peixes no estuário de Santos devido ao incêndio na Alemoa evidencia, a curto prazo, o efeito agudo dessa poluição, mas é preciso estudar os efeitos crônicos a médio e a longo prazo relacionados com esses produtos químicos em sedimentos e organismos marinhos, bem como os riscos potenciais que o consumo de peixes e de frutos do mar aparentemente saudáveis pode causar à população, no futuro.

O alerta é de pesquisadores da Universidade Santa Cecília (Unisanta), orientadores do Programa de Mestrado em Sustentabilidade de Ecossistemas Costeiros e Marinhos da Instituição. A Unisanta não vai analisar os peixes, mas as condições da água e sedimentos, como vem fazendo há décadas no Laboratório de Ecotoxicologia, atendendo às demandas da comunidade, indústrias e órgãos públicos.

Esse laboratório é acreditado pela Certificação de Qualidade Internacional seguindo as normas da ISO 17.025, do Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) e da ISO 9002 (International Organization for Standardization) para a realização de testes de toxicidade com embriões de ouriços-do-mar obtidos pela fertilização in vitro. Se a amostra (água, elutriados e sedimentos) estiver contaminada, os embriões poderão sofrer anomalias em seu desenvolvimento durante o período de experimentação. Elutriados se referem à re-suspensão de sedimentos que podem aflorar com atividades como aprofundamento de canais.

A explicação é do professor doutor Aldo Ramos Santos, coordenador do Laboratório de Ecotoxicologia e orientador do Mestrado em Engenharia Mecânica. O dr. Ramos Santos também orienta dissertações interdisciplinares com o Mestrado de Ecologia, este coordenado pelo professor doutor Fábio Giordano.

A mortalidade de peixes devido ao incêndio na Alemoa evidencia, a curto prazo, o efeito agudo dessa poluição (Foto: Divulgação)

Outros poluentes perigosos

“Não se sabe exatamente que outros tipos de poluentes estão sendo despejados no mar, razão pela qual é recomendado monitorar as condições ambientais do estuário continuamente, a médio e longo prazo também”, afirma o professor doutor Augusto Cesar, um dos orientadores do Mestrado de Ecologia da Instituição.

“Fala-se em queima incompleta de combustíveis (álcool e gasolina) e partículas dissolvidas no ar e no mar, , o que significa a presença de hidrocarbonetos, moléculas de difícil degradação, que se acumulam no tecido adiposo (gordura) dos peixes e podem incorporar nos tecidos e nos sedimentos”, acrescenta o pesquisador. Outros aditivos poluentes devem estar chegando ao estuário, como líquidos geradores de espumas empregadas para apagar o fogo. Desconhece-se qual o risco deles, pois ainda não temos informação sobre a composição química desses produtos.

Os biólogos mestres Fernando Sanzi Cortez e Fábio Hermes Pusceddu, do Laboratório de Ecotoxicologia da Unisanta, afirmam que os retardantes de chamas utilizados no combate a incêndios podem ser até mais nocivos do que os combustíveis lançados no meio marinho. A equipe do laboratório aguarda, ainda nesta semana, a chegada de amostras da água coletadas por Ongs da região, para iniciar os testes e estudos.

Entre os peixes mortos há os alevinos, os jovens que, em muitas espécies, não têm capacidade de se evadir para o alto mar. Mas, pelas fotos divulgadas pela imprensa pode-se perceber exemplares de adultos mortos, entre eles, garoupas e robalos, de grande valor comercial. Alguns fazem parte da lista de espécies ameaçadas de extinção.

O mangue e o estuário constituem berçários fundamentais para a vida marinha, explica Augusto Cesar. Portanto, deve-se levar em consideração que a maioria destas espécies que se criam no estuário podem não morrer de imediato, ganharem o alto mar, e os efeitos cumulativos passarão a serem sentidos mais tarde, tanto nos animais como nos homens que se alimentarem delas.

“A Unisanta está em contato com outras universidades para um esforço conjunto, a fim de realizar os estudos necessários”, acrescenta Ramos Santos.

A Universidade tem um histórico de diversos estudos no estuário de Santos, dede 2004, inclusive em pontos próximos à Alemoa, onde havia o antigo lixão da Codesp, hoje extinto. Essas e outras pesquisas realizadas há décadas pelo Laboratório de Pesquisas Biológicas do Acervo Zoológico da Unisanta, este coordenado pelo biólogo mestre Matheus Rotundo, podem contribuir para mostrar a situação dos peixes e do meio ambiente do estuário, antes do incêndio.

Tanques inseguros

Ramos Santos destaca a necessidade dos órgãos públicos exigir mais condições de segurança das pequenas empresas e depósitos que estocam combustíveis e outros produtos tóxicos, a exemplo do que é feito nas grandes indústrias. Ele tem larga experiência nesse assunto, pois trabalhou durante anos na Petrobras e estuda a questão há muito tempo.

Nas grandes indústrias, as espumas e outros produtos usados no combate a incêndios são despejados em tubulações acopladas a uma válvula, que podem atingir o tanque em chamas sem necessidade de se utilizar mangueiras, que espalham a espuma no ar. Os líquidos que escoam para as bacias de contenção são drenados para uma câmera de espera ou outros tanques, onde são resfriados e/ou neutralizados. O combate ao incêndio é, desse modo, mais eficaz, rápido e seguro. Basta abrir e fechar válvulas.