Especialista fala sobre 'Maria Fumaça' para a região

André Galdino garante que a reativação da linha férrea trará benefícios como geração de renda e emprego, apoio a gastronomia, hotelaria e entretenimento da região

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15 JAN 2018Por Caroline Souza12h10
Para o geografo e historiador André Galdino, o trem turístico é viável e possível, mas precisa de análises técnica e financeira, a fim de decidir qual modelo mais adequadoFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Quem tem mais de 30 anos deve se lembrar da antiga linha férrea que ligava Santos a Juquiá (Cajati). Hoje, boa parte encontra-se abandonada, com exceção do trecho do VLT. Mas essa realidade pode estar prestes a mudar. O deputado João Paulo Tavares Papa e os prefeitos das cidades de Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe, Itariri e Pedro de Toledo vão se reunir neste começo de ano para discutir os próximos passos do projeto que visa implantar uma “Maria Fumaça” na linha do trem entre esses municípios.

A reportagem do Diário do Litoral conversou com o geógrafo, historiador, técnico em transporte ferroviário, e especialista em Mobilidade Urbana e Gestão de Ferrovias e Metrôs, André Galdino, sobre a história da ferrovia e o projeto da “Maria Fumaça”.

Para ele, o trem turístico é viável e possível, mas precisa de análises técnica e financeira, a fim de decidir qual modelo mais adequado. “Acredito que seja um importante projeto e com um potencial turístico-cultural muito grande a ser aproveitado e desenvolvido”, explica.

O especialista garante que a reativação da linha férrea trará benefícios como geração de renda e emprego, apoio a gastronomia, hotelaria e entretenimento da região, que possui um potencial mal explorado.

“É triste ver o abandono que há entre a área continental de São Vicente e Juquiá e Cajati. As antigas estações foram abandonadas com o fim das operações. Poucas estão em bom estado e com função, muitas estão invadidas e sendo usadas como moradia”, relata, com tristeza, o ­especialista.

O cenário que vemos hoje é muito diferente daquele de décadas passadas. O ramal ferroviário, construído pelos ingleses da Southern São Paulo Railway Co. em 1914, foi de grande importância na ocupação e desenvolvimento do Litoral Sul e do Vale do Ribeira. Isso porque a região era separada pelo Rio Itanhaém e a ponte melhorou a travessia para os moradores até Juquiá, num percurso de 179 km, além de levar a produção de frutas do Vale do Ribeira - principalmente banana - e de areias e minerais de Cajati - utilizados na produção de fertilizantes - até o Porto.

“Outro ponto eram as pessoas que viajavam para Santos para comprar, ir a consultas médicas, estudar e até trabalhar. Muitas localidades se devolveram com a ferrovia”, relembra André Galdino, que também é membro da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária.

A Southern São Paulo Railway Co. foi responsável pela linha até 1927, depois passou a ser parte da Estrada de Ferro Sorocabana, quebrando o monopólio que existia no acesso ferroviário ao Porto de Santos.

Entre 1971 e 1990, a Fepasa passou a ser a nova concessionária. Atualmente, encontra-se sob concessão da Rumo.

Após 83 anos, em 1997, o transporte de passageiros foi suspenso, pois não interessava à Concessionária. Já os trens de cargas continuaram passando até o início de 2003, quando a linha férrea foi desativada e o cenário passou a ser de abandono.

Projeto “Maria Fumaça”

Em maio de 2017, os prefeitos encontraram-se no Consórcio de Desenvolvimento Intermunicipal do Vale do Ribeira e Litoral Sul (Codivar), onde foi proposta a reativação de 66 km de ferrovia, para implantação de Trem Turístico movido por uma locomotiva antiga, a chamada “Maria Fumaça”.

 

“A região vive uma oportunidade muito rica no tema de transporte sobre trilhos porque tem uma ferrovia sob concessão da Rumo, que não está mais operando e que já manifestou o interesse de devolver à União esse ramal”, explicou o deputado João Paulo Papa, ­idealizador do projeto.

Papa reforçou que, por conta da aprovação da Medida Provisória 752/2016 - convertida para a lei 13.448/2017 - há a possibilidade de prorrogação e relicitação de contratos de concessão federal. Segundo ele, a nova lei favorece ao órgão concedente promover alterações no contrato e desmembrar parte do domínio para que as prefeituras possam implantar o transporte ferroviário de passageiros.

O prefeito de Itanhaém e presidente do Codivar, Marco Aurélio Gomes, reforçou que a ideia é trazer um trem para fomentar o turismo da região. O percurso seria de Mongaguá até Pedro de Toledo.

O que já foi feito?

Em julho de 2017, prefeitos e representantes dos municípios associados ao Codivar visitaram a cidade de Guararema, no interior paulista, para conhecer o passeio turístico da “Maria Fumaça”.

“O trem de Guararema foi um projeto que deu muito certo. Na visita, todos os prefeitos se mostraram muito interessados”, relembra Marco ­Aurélio.

Para dar continuidade ao projeto também foram solicitados levantamentos para a Agência Metropolitana da Baixada Santista (AGEM) e para a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

De acordo com o prefeito Marco Aurélio, os municípios estão fazendo inventários das estações e de como está a malha ferroviária em cada cidade. Esses inventários devem ser apresentados e discutidos em reunião futura.

“O próximo passo é a autorização para dar início aos trabalhos propriamente ditos. Vamos solicitar que o governo federal nos conceda a linha férrea”, explica.

Memória do trem

Quem quiser conhecer a memória ferroviária pode visitar a exposição sobre a Linha Santos - Juquiá (Cajati), que fica aberta à visitação na Estação da Cidadania, na Ana Costa, em Santos, onde também funciona o núcleo de memória ­ferroviária.

Galdino já realizou quatro exposições. Esta última, exposta na Estação da Cidadania, fez parte de um projeto patrocinado pelo SESC Santos, denominado Ramal Caiçara.

VLT

O especialista também defende o uso da ferrovia como transporte de passageiros.

“Neste formato, o trem teria uma melhor viabilidade no trecho metropolitano entre o Samaritá, em São Vicente, e Peruíbe. Porém, é preciso recuperar toda a infraestrutura, que está em péssimo estado de conservação, além de reaver estações e pátios”, esclarece.

No último dia 04, o vice-governador do Estado, Márcio França, assinou documento que autoriza a publicação do edital de contratação dos projetos para recuperação e ampliação da ponte sobre o canal Barreiros, com a promessa de expandir o VLT no trecho Barreiros - Samaritá.

Atualmente, a ponte suporta apenas o tráfego de veículos automotores. Mas, apesar das más condições atuais, a estrutura não está condenada.

O projeto executivo está orçado em R$ 2,3 milhões. As composições passarão na linha férrea desativada rente à ponte, atendendo à área continental de São Vicente.