Nilton Cesar Tristão - Vírus ou protozoários?

A cada nova sessão no Senado, assistimos atônito o desenrolar de fatos insólitos que parecem retirados de um conto de Mark Twain

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07 JUN 2021Por Artigo14h19
Nilton César Tristão, cientista políticoNilton César Tristão, cientista políticoFoto: DIVULGAÇÃO

Por Nilton Cesar Tristão

O depoimento da médica oncologista Nise Yamaguchi na CPI da Covid, além de promover o maior evento de vergonha alheia nesse processo de investigação parlamentar, também colaborou para o desnudamento do mundo surreal das redes sociais em que indivíduos emergem do completo anonimato, ostentando títulos pomposos de doutores especialistas por renomadas instituições acadêmicas, mas que na realidade praticam a desinformação que ilude milhares de cidadãos comuns com soluções medicamentosas inócuas e danosas a saúde do usuário, infelizmente, amparados por convicções governamentais. Porquanto, a cada nova sessão no Senado, assistimos atônito o desenrolar de fatos insólitos que parecem retirados de um conto de Mark Twain.

Entre as descobertas encontra-se a possibilidade de que Arthur Weintraub, irmão do polêmico ex-ministro da educação, coordenava uma estrutura paralela ao Ministério da Saúde com o objetivo de orientar ações de combate à pandemia. Em live realizada no dia 12/04/2020 com o Deputado Eduardo Bolsonaro, Arthur explica como foi recrutado por Jair Bolsonaro para a missão através do seguinte diálogo: “...ô magrelo, você que é porra louca, vai lá e estuda isso daí. Aí comecei a ler artigo científico, artigo que o pessoal começa a soltar...”. Ou seja, a figura presidencial designou com a intenção de elaborar estratégia de contenção sanitária que implicava a segurança de toda a nação, um advogado que jamais tinha se envolvido com temas correlatos a surtos virais.

Paralelamente, a médica infectologista Luana Araújo, recomendada para ocupar a nova Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à COVID-19, não passou de dez dias no exercício do cargo e teve o nome preterido, possivelmente por ser crítica contumaz do tratamento precoce sem a devida acurácia sistematizada e contra a prescrição de fármacos como a azitromicina, hidroxicloroquina e ivermectina. Diante de tanta insensatez, a doutora utilizou os subsequentes termos para definir os impasses que vivenciamos: “...discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente... quando disse que há um ano estávamos na vanguarda da estupidez mundial, infelizmente mantenho isso em vários aspectos, pois ainda estamos discutindo uma coisa que não tem cabimento, como se estivéssemos discutindo de que borda da terra plana pularemos...”.

Anteriormente, a CPI ouviu Mayra Pinheiro, Secretária da Gestão do Trabalho e Educação no Ministério da Saúde, conhecida sob a alcunha de “capitã cloroquina”, que produziu evidências na incorporação de teses da imunidade de rebanho, enquanto eixo de ação institucional a margem do conhecimento da opinião pública. Circunstância que proporcionou a intervenção eloquente de Otto Alencar, afirmando que apenas a vacinação pode salvar vidas de enfermidades como o sarampo, paralisia infantil, varíola e H1N1, portanto, não existia nenhum estudo sério capaz de justificar que a hidroxicloroquina poderia agir como um antiviral.

Para finalizar necessitamos citar a revelação feita pelo ex-Ministro Luiz Henrique Mandetta e o Diretor-Presidente da ANVISA, Antônio Barra Torres, de que ocorreram pressões para inserção da indicação de eficácia ao tratamento do coronavírus na bula da cloroquina. Diante de tantas evidências, caso após o encerramento dos trabalhos de averiguação do Senado Federal, fique comprovado que Manaus serviu de laboratório a céu aberto para a realização de experiências com a finalidade de testar o princípio da imunização coletiva natural ou de tratamentos não reconhecidos pela OMS, então, teremos chegado ao limiar no esgarçamento das relações de confiança entre sociedade e o poder executivo nacional.

* Nilton Cesar Tristão, Cientista Político - Opinião Pesquisa & GovNet