Artigo - Conscientizar para não retroagir

Com o fim do lockdown e a reabertura escalonada das atividades em geral, a cautela é a palavra de ordem

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24 ABR 2021Por Artigo10h10
Lucas Suman, médico cardiologistaLucas Suman, médico cardiologistaFoto: DIVULGAÇÃO

Por Lucas Suman

Depois de duas amargas semanas com comércios fechados, restrição de circulação entre as cidades e número crescente de mortes na segunda grande onda de Covid-19, as cidades da Baixada Santista começam a promover uma reabertura gradual, nos moldes da chamada fase de transição da quarentena, definida pelo Governo do Estado.

É inegável que o lockdown produziu efeitos positivos, principalmente no controle da ocupação dos leitos reservados à covid-19. Porém, é igualmente fato que submeteu a população a uma duríssima prova de resistência, à qual parte dos comércio sucumbiu, suprimindo postos de trabalho e levando um grande número de famílias a depender única e exclusivamente da solidariedade alheia para colocar comida na mesa.

O mesmo pode-se dizer do fechamento total das igrejas e templos religiosos, que foram proibidos de realizar seus cultos, missas e práticas espirituais justamente num momento agudo da pandemia, no qual o consolo da alma passa a ser essencial às pessoas tanto quanto o tratamento do corpo físico.

Foi uma importante lição. E como ensinam os mestres de História nas salas de aula, é preciso saber fazer a leitura dos fatos para não repetir os mesmos erros. Com o fim do lockdown e a reabertura escalonada das atividades em geral já regulamentada pela maioria dos municípios, a cautela é a palavra de ordem. 

A sociedade civil organizada já conhece as agruras de uma fase mais restritiva. E só depende dela própria evitar uma reedição, se autoprotegendo, zelando pelo próximo e evitando os excessos. Se cada um fizer sua parte, não será preciso enfrentar os efeitos das decisões drásticas emergenciais dos governantes.

Levantamento de março feito pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) mostrou que 52% das internações em unidades de terapia intensiva foram de pessoas com até 40 anos. Isso significa dizer, segundo a entidade, que não há mais que se falar em grupo de risco, mas, sim, em comportamento de risco. 

Em outras palavras, práticas como o bom e velho happy hour no barzinho do momento passam a ser tão ou mais significativas no contexto do controle da curva epidêmica que as comorbidades dos idosos, por exemplo.

Diante disso, explica-se o fato de os governantes estarem antecipando a imunização de grupos profissionais altamente expostos a riscos diariamente, como os da segurança pública e do magistério, entre outros. No atual momento pandêmico, é uma decisão coerente levar a imunização a faixas etárias mais jovens, desde que não interfira, também, na vacinação dos idosos, que nas últimas semanas desacelerou de maneira altamente significativa no Brasil, por falta de doses. Esse é o maior problema que enfrentamos hoje no enfrentamento à pandemia, e que precisa de correção urgentemente.

Por ora, não há outro remédio para manter longe o fantasma de um novo lockdown. Dos governantes, espera-se a busca incessante por mais insumos médicos e, acima de tudo, vacinas. Da sociedade civil, nada  mais que organização, consciência e espírito de coletividade. Afinal, estamos todos no mesmo barco.

Lucas Suman, médico cardiologista