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Após queda, Dilma trata disputa entre PT e PSDB em MG como 'luta decisiva'

Dilma lidera a corrida para o Senado com 26%, segundo pesquisa Datafolha divulgada no último dia 6.

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15 SET 2018Por Folhapress23h29
Dilma lidera as pesquisas para o Senado por Minas Gerais.Foto: Fotos Públicas

No salão de um clube em Belo Horizonte, na noite de segunda (10), a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) sobe ao palco para discursar a centenas de mulheres num evento organizado pela sua campanha ao Senado de Minas Gerais.

Incomodada por ter ao seu lado apenas as principais deputadas, ela ordena ao cerimonial que todas as candidatas mulheres, do PT e do PC do B, sejam chamadas ao palanque. A ordem gera burburinho sobre como fazer todo mundo caber ali.

"Eu quero todas. Fim de papo", insiste Dilma em seu estilo "duro". "A mídia dizia que eu era uma mulher dura; se fosse um homem, seria firme", afirmou ao público em uma fala sobre o machismo no impeachment.

"E, como eles não têm o menor compromisso com a lógica, eu era também uma mulher frágil", completou, arrancando risadas em uma das tiradas que repete em eventos de campanha.

Naquela noite, a ex-presidente lançou mão de outras marcas registradas, como digressões em discursos de mais de meia hora e gafes -errou três vezes o nome da ex-BBB Mara Telles (PC do B), candidata a deputada.

Dilma lidera a corrida para o Senado com 26%, segundo pesquisa Datafolha divulgada no último dia 6. Uma das duas vagas em disputa na Casa é a do senador Aécio Neves (PSDB), ex-governador do estado que perdeu para a petista em Minas na eleição presidencial de 2014 e, desgastado por denúncias de corrupção, desistiu da reeleição neste ano para tentar a Câmara.

Aécio e seu sucessor, Antonio Anastasia (PSDB), que está em primeiro na corrida para o governo de Minas segundo o Datafolha, são sempre mencionados por Dilma como parte do impeachment.

A estratégia de nacionalizar a campanha num estado prioritário do ponto de vista eleitoral também serve a Fernando Pimentel (PT), que tenta a reeleição ao governo.

"Nós vamos, aqui em Minas, combater esse golpe que tem dois dos principais protagonistas. Um que perdeu a eleição, outro que destruiu o orçamento e entregou ao Pimentel um governo falido. Aqui vai se travar a luta decisiva. Porque, se nós não ganharmos aqui, nós perderemos o Brasil", disse a ex-presidente em agosto.

Embora ajude a trazer votos, Dilma é um entrave político para o PT mineiro pelo perfil autoritário. A Pimentel, amigo de militância estudantil contra a ditadura em BH, mandou que escolhesse entre ela ou MDB em sua coligação. Quis, de todo jeito, tirar Miguel Corrêa (PT), candidato ao Senado, de sua chapa depois do envolvimento na compra de influenciadores digitais.

A reclamação chegou a Fernando Haddad (PT), agora candidato a presidente.

A substituição do ex-presidente Lula nas urnas foi um revés para Dilma, que não tem afinidade com Haddad e já foi criticada por ele. Mas os dois estiveram juntos em ato em BH e o petista começou a ser mencionado nas propagandas da ex-presidente -há um jingle que os une.

A Justiça Eleitoral ainda não aprovou a candidatura da petista, que foi contestada por dez pessoas diferentes, incluindo a filha de Eduardo Cunha (MDB). Eles argumentam que o impeachment deixou Dilma inelegível, mas a votação separada na época manteve seus direitos políticos. O caso pode chegar aos tribunais superiores.

A ex-presidente não planejava voltar a pedir votos, mas atendeu a um pleito de Lula, um dia antes de sua prisão, em abril, para que se candidatasse em seu estado natal.

"O Lula me chama, eu estava vendo com ele como a gente fazia para ir ao sindicato dos metalúrgicos, e diz: 'Dilminha, vá pra Minas'. [...] Nessa situação, ninguém tem direito de voltar pra casa e cuidar da vida, por mais velho que você seja."

Embora a preocupação seja permanente, houve apenas um episódio de hostilidade até agora. Numa manhã de domingo, Dilma foi xingada na lagoa da Pampulha, novo cenário de seus passeios de bicicleta, feitos antes em Brasília e em Porto Alegre.

Tenta colar a imagem de mineira, explicando que saiu do estado por perseguição da ditadura. Já disse que Minas "é um estado que não é coxinha em sua alma", mas a frase de efeito que arranca aplausos é: "Um golpe me tirou, o outro me trouxe de volta".

Dilma passou a morar com a mãe de 95 anos em sua casa nos arredores da Pampulha no fim de junho, quando assumiu a candidatura. Na ocasião, afirmou que não iria "dar mole para a imprensa" -ao chegar e sair de eventos, ela evita jornalistas.

Do Fiat Freemont ao palanque e no caminho de volta, é cercada pelos quatro seguranças do Planalto a que tem direito e, muitas vezes, tem reforço de outros contratados ou de voluntários do MST. Os militantes também a rodeiam na batalha por uma foto. No fim do dia de celebridade, reclama de dores e hematomas pelos puxões e apertos que recebe.

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