Pref 13 e 14

Espetáculo coloca dramaturgia japonesa em cena na Baixada

Peça ‘Nós, os outros ilesos’ mescla teatro, dança e performance em adaptação da obra de Toshiki Okada

Comentar
Compartilhar
11 AGO 2017Por Da Reportagem19h00
Primeira montagem de um texto de Toshiki Okada (1973) no Brasil será apresentada no Teatro do Kaos, em Cubatão, hoje e no Estúdio Tescom, em Santos, no domingoFoto: Divulgação

Nós, os outros ilesos é a primeira montagem de um texto de Toshiki Okada (1973) no Brasil. O autor é dramaturgo e escritor, diretor do grupo Chelfitsch, um dos mais importantes do Japão. A primeira tradução para o português de uma de suas peças foi realizada por Rita Kohl e dirigida por Carolina Mendonça. Em cena, os atores Fernanda Raquel, Lúcia Bronstein, Rodrigo Andreolli e Rodrigo Bolzan se revezam entre personagens e narradores, borrando esses papéis todo o tempo. A montagem fará apresentações no Teatro do Kaos, em Cubatão, hoje e no ­Estúdio Tescom, em ­Santos, no próximo domingo (13).

A peça ‘Nós, os outros ilesos’ dá continuidade à pesquisa de Carolina Mendonça, que atua entre o teatro, a dança e a performance. O último trabalho da diretora, ‘Tragédia, uma tragédia’, que estreou no SESC Pompéia em 2014, circulou pelo Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba e interior de São Paulo, tendo recebido inúmeras críticas.

A equipe que se uniu para a criação de ‘Nós, os outros ilesos’ tem parceria antiga. O criador de som Miguel Caldas tem colaborado com Carolina desde 2011 e o artista visual Theo Craveiro também participou de ‘Tragédia, uma tragédia’. Assim como os atores Rodrigo Andreolli e o premiado Rodrigo Bolzan, ganhador do Shell em 2012, que vem colaborando com a Cia. Brasileira já há alguns anos. Juntam-se a eles agora Fernanda Raquel e Lúcia Bronstein, que já realizou trabalhos de destaque no cinema e na televisão.

A obra de Toshiki Okada, marcada às vezes por uma linguagem extremamente coloquial e outras por um estranhamento da norma gramatical, nos dá a oportunidade de conhecer um pouco da dramaturgia contemporânea japonesa, tão rara em nossos palcos. A peça foi escrita em 2010, logo após as eleições que mudaram o rumo político no Japão, colocando em cena questionamentos acerca da felicidade e seus modelos, além da dificuldade de abertura ao outro, diferentes de nós – outras pessoas, outras culturas, outros modos de existência. Um certo lugar, um certo homem. Nada é muito preciso, para que a única certeza seja a impossibilidade de uma única perspectiva.

‘Nós, os outros ilesos’ retrata as apreensões da classe média, às vésperas de uma importante eleição, ao retratar um casal, que está prestes a se mudar para um apartamento em um arranha-céu recém-construído. A história é muito simples, porém mais importante que a trama é a maneira como ela é entremeada por pensamentos e dúvidas acerca dos modelos de vida que geralmente se impõem. Um marido, uma esposa, uma amiga, um homem desconhecido e outro ferido. Personagens sem muito contorno, que fazem emergir questões fundamentais em nossos dias, como o imperativo da ideia de felicidade, o medo diante do desconhecido, a precariedade das relações sociais e a ansiedade em relação ao futuro.

As ações são mais descritas que realizadas, nos forçando, de uma maneira um pouco nonsense, a nos colocarmos no lugar do outro. Essa abordagem convoca a uma proximidade com o público que se traduz também espacialmente. ‘Nós, os outros ilesos’ propõe uma experiência de imersão em um ambiente no qual todos estamos juntos, nos fazendo questionar sobre quem somos nós e quem são os outros.

O projeto de montagem da peça surgiu da pesquisa de Fernanda Raquel, que vem estudando as artes cênicas japonesas desde 2006. O espetáculo, contemplado pelo Proac 01/2016, inaugura o teatro de Toshiki Okada em palcos ­brasileiros.

Colunas

Contraponto