BC mira em 2015 tentando evitar contaminação do fraco resultado de 2014

O controle inflacionário talvez seja o exemplo mais palpável dessa dificuldade

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28 DEZ 201413h19

O ano de 2014 demorou para começar e terminou logo, na opinião do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. "As medidas que temos tomado já são para 2015", justificou o presidente, instado por um pequeno grupo de jornalistas a falar sobre perspectivas para o ano que vem. A avaliação é de que este foi um período que deixará poucas memórias positivas. Na conversa recente, o presidente chegou a lembrar até do traumático placar de 7 a 1 amargado pelo Brasil no jogo contra a Alemanha durante a Copa do Mundo. A questão é que 2015 tampouco será um ano fácil.

O controle inflacionário talvez seja o exemplo mais palpável dessa dificuldade. Cravar a inflação no centro da meta de 4,5%, já admitiu o presidente do BC, só em 2016. O problema é que nos primeiros quatro anos de sua gestão, a inflação sempre fechou o ano bastante alta (5,91%, 6,50%, 5,84% e 5,91%) e fica complicado tentar convencer o mercado de que a situação será diferente daqui para a frente.

É verdade que o BC agora conta com a promessa de que a política fiscal será mais restritiva, o que tende a ajudar nas ações de política monetária, mas os diretores da instituição terão de fazer ajustes finos nos juros mês a mês se não quiserem perder a mão.

Tombini tenta escolher expressões positivas sempre que é questionado sobre o que esperar dos próximos meses. Afirmou que o Brasil tem se preparado e que, em 2015, navegará com certa tranquilidade. Renovado à frente da autarquia no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, ele sabe que as marés do próximo ano não serão tão mansas assim.

BC mira em 2015 tentando evitar contaminação do fraco resultado de 2014 (Foto: Divulgação)

Chegou a alertar que a inflação em 2015 no acumulado de 12 meses tende a ser mais elevada do que a atual - que beira o teto da meta de 6,5% e chegou a ultrapassá-lo em alguns meses deste ano. "Não deveria ser tomado como surpresa", salientou.

De um lado, a inflação pesa. De outro, a economia não deslancha. Por isso, qualquer derrapada mais à esquerda ou à direita em 2015 pode ser fatal. O ano que vem, já se sabe, será de reajustes de tarifas que ficaram represadas ao longo deste ano. O dólar em ascensão desde o início das eleições piora o quadro para a alta dos preços.

A elevação da moeda americana fez o BC se render em relação à continuidade dos leilões de swap cambial. Antes mesmo do fim do ano, depois de jogar pistas contraditórias para estudar a reação do mercado, a decisão de Tombini foi a de continuar com a oferta extra de ração diária em 2015. O programa, iniciado em agosto do ano passado, poderia se encerrado em dezembro de 2014 se assim o presidente e sua equipe entendessem conveniente. Os parâmetros para 2015, no entanto, apenas serão conhecidos nos próximos dias

O fato é que o BC se tornou refém de sua "bondade com o mercado" Para alguns críticos do programa - ou da sua extensão - os agentes estão adictos, viciados nesse dinheiro certo todos os dias. Será difícil o BC se desvencilhar de sua própria "armadilha" no ano que vem. Atualmente, são o equivalente a US$ 100 bilhões em operações de swap cambial.

Não bastassem os melindres econômicos internos, ainda é preciso colocar na dura conta de 2015 a instabilidade do contexto internacional. Tombini mesmo avalia que a situação já está melhor, mas as principais regiões do globo estão em estágios diferentes de recuperação. Pode-se esperar por alguns chacoalhões aqui e ali com, claro, interferências em território doméstico.

A tradição, em épocas de fim de ano, é renovar as esperanças e contar com dias melhores no ano seguinte. Para 2015, no entanto, está difícil traçar um prognóstico mais positivo. Sabe-se que a inflação vai subir. Sabe-se que os juros terão de acompanhar essa alta e não se sabe para onde o dólar vai. A única certeza é que o Brasil não tomará outro 7 a 1 da Alemanha na Copa.

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