Zoólogo afirma que contaminação dos manguezais vai piorar

"Se formos ao manguezal e fizermos testes sanguíneos nesses animais com certeza já terá alteração”, destacou o professor da Unesp

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07 ABR 201512h04

“Poluir é fácil e rápido. A descontaminação demora muito tempo e é cara. A tendência é piorar. Falta investimento em estudo e monitoramento”. A afirmação é do professor de Zoologia dos Invertebrados da Unesp Campus Litoral Paulista, Marcelo Pinheiro. O coordenador do estudo que revelou a contaminação dos caranguejos-uçá por metais pesados, em manguezais da Baixada Santista, acredita que a situação ambiental da Região ficará pior após incidente no terminal da Ultracargo, na Alemoa, em Santos. O incêndio provocou a contaminação da água do canal do estuário e pode ser a causa da morte de milhares.

“O problema maior é a contaminação. A falta de oxigênio (que provocou a mortandade) é decorrente da mistura do produto químico misturado na água do estuário para resfriar os tanques. Não tenho conhecimento se houve tratamento ou barreira para que eles não fossem lançados. O volume é de bilhões de litros de água”, explicou o professor. “Existem inúmeros fatores que promoveram a mortandade dos peixes, pois são componentes químicos de vários tipos. Primeiro morrem os animais aquáticos que utilizam a água para sobreviver. O efeito depois será visto em toda fauna e flora”, explicou o professor.

Segundo o pesquisador, os animais herbívoros — que se alimentam da vegetação — como o caranguejo-uçá, por exemplo, também sofrerão as consequências da poluição. “Os caranguejos são mais resistentes aos poluentes, mas se a vegetação absorver a contaminação eles vão comer e, futuramente, poderemos verificar mortandade e também a escassez de algumas espécies. Se formos ao manguezal e fizermos testes sanguíneos nesses animais com certeza já terá alteração”, destacou Pinheiro.

O professor da Unesp, que coordena em âmbito federal um grupo de pesquisa sobre crustáceos, alerta para o reforço das ações de descontaminação, pouco realizadas. “Falta investimento em estudo e monitoramento. A Cetesb faz o monitoramento das regiões, mas não adianta só monitorar tem que detectar o problema e o que vai se fazer para reparar. Dá para despoluir, mas é muito caro. O Ministério Público deve se preocupar com a situação e as empresas responsáveis pela poluição devem receber multas pesadas e o dinheiro investido na recuperação do meio ambiente degradado”, destacou.

O grupo comandado por Pinheiro apresentou em organizações como a ONU propostas direcionadas para vários manguezais do litoral brasileiro. “O maior problema do meio ambiente está relacionado por contaminação promovida por fatores antrópicos (que resulta da ação do homem). Temos visto que várias espécies têm entrado em extinção devido a essa situação”, explicou. Na Baixada Santista, a maior influência antrópica se deu pela instalação do polo industrial, em Cubatão, o Porto de Santos.

Pesquisador acredita que a situação ambiental da Região ficará pior após incidente no terminal da Ultracargo (Foto: Divulgação)

Entre as soluções apontadas pelo professor como solução para a identificação de anormalidades e prevenção de problemas futuros, como o surgimento de doenças e consequências ao homem, está à utilização de biomarcadores, método utilizado no estudo que detectou a contaminação dos caranguejos-uçás por metais pesados. “É possível monitorar os componentes celulares e genéticos das espécies. Com isso, é possível detectar mutações genéticas, como foi encontrado nos caraguejos”, destacou.

O estudo coordenado por Pinheiro revelou a contaminação por metais pesados — mercúrio, cádmio, chumbo e cobre — em amostras de água, sedimentos e caranguejos-uçá em áreas de manguezais dos municípios de São Vicente, Cubatão, Bertioga, Iguape e Cananeia. Apenas a região próxima à Estação Ecológica de Jureia-Itatins, em Peruíbe, está livre do problema. O projeto durou três anos (2010-2012) e avaliou seis áreas de manguezais.

Informação

Pinheiro ressaltou a importância de manter a população informada sobre a poluição. “É um problema grave. Não precisa deixar a população em pânico, mas as autoridades precisam deixar claro que o problema de contaminação existe e é prejudicial. Essa explosão demonstrou que há um problema grave de falta de segurança”. A recomendação é não consumir os pescados encontrados mortos e evitar a captura e o consumo de animais marinhos das regiões atingidas.

Cetesb

Um relatório preliminar da Ultracargo, encaminhado à Cetesb, indica que o incêndio provocou a contaminação da água do canal do estuário. O documento, divulgado no último domingo, também aponta alteração na qualidade do ar. Segundo o gerente da Agência Ambiental da Cetesb em Santos, Cesar Eduardo Padovan Valente, “a água usada para conter as chamas foi despejada no estuário pelo sistema de escoamento da Ultracargo contaminada com combustível, provocando alteração da temperatura e saturação do oxigênio, provavelmente causando a morte dos peixes”. Entre os animais mortos estão bagres, garoupas e espécies com até 70 centímetros de comprimento.

Pinheiro ressaltou a importância de manter a população informada sobre a poluiçã (Foto: Divulgação)

Instituto Ecofaxina fará estudo paralelo

Prevendo o surgimento de peixes mortos nos manguezais de Cubatão, o Instituto Ecofaxina realizou ação no mangue que fica às margens da Vila dos Pescadores, no último domingo. Além da mortandade de várias espécies, a entidade sem fins lucrativos, que atua na limpeza e conservação dos ecossistemas da Região, encontrou pescadores desolados. Um cenário angustiador.

“Estamos em contato com os pescadores que estão sem saber o que fazer. Hoje a nossa maior preocupação é com sustento daquelas famílias que tem como a pesca a sua única fonte de renda. A preocupação é se eles vão conseguir algum tipo de indenização, pois vai demorar muito para que a situação se normalize, uma vez que houve interferência nos ciclos ecológicos, inclusive em organismos que estão em fase de desenvolvimento”, destacou o biológo William Rodriguez Schepis, idealizador diretor-presidente do Ecofaxina.

Hoje, voluntários do Instituto retornarão ao mangue da Vila dos Pescadores. O objetivo é recolher amostras de peixes e de água para análise. “Temos a parceria de universidade da Região e o objetivo é elaborar um estudo de biotóxologia, paralelo ao dos órgãos oficiais, que sirva de parâmetro. Recentemente recebemos os resultados de estudo que apontam altos níveis de contaminação do Rio do Bugre, que margeia as comunidade do Sambaiatuba, em São Vicente, Dique da Vila Gilda, em Santos. O estudo é anterior ao incêndio”, ressaltou Schepiz.

O biólogo destacou que, desde 2009, a entidade propõe à Prefeitura de Santos, projeto de monitoramento e recuperação de áreas degradadas na Cidade. “O intuito é conseguir um espaço entre na Zona Noroeste, entre o canal da Avenida Hugo Maia e o local onde ocorreu o incêndio, no ano passado, próximo a Vila Telma, para que a iniciativa tenha início. A ideia é promover ações permanentes nas áreas degradadas, utilizando jovens da própria comunidade”.

Na próxima quinta-feira, a entidade terá reunião com a Secretaria de Municipal de Meio Ambiente para tratar do possível termo de cooperação. “Esperamos que a partir desse episódio (o incêndio) as prefeituras comecem a enxergar a importância da preservação e recuperação dos manguezais”.