“Jornalista deve continuar sendo de oposição”

O jornalista e advogado José Alberto Moraes Alves Blandy, último editor do jornal Cidade de Santos, visitou a redação do Diário do Litoral e falou com saudade dos tempos memoráveis de um dos jornais mais combativos de Santos.

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13 JAN 201320h52

Em 1º de julho de 1967 chegava às bancas de Santos um novo periódico com uma linguagem popular, ou como se diz no popular, sem papas na língua. Melhor dizendo, sem papas na escrita. Destinado a fazer história na imprensa santista, o jornal estreou com 102 páginas, num forte apelo publicitário do Grupo Folha da Manhã. Nascia o jornal Cidade de Santos. A segunda edição foi impressa com apenas 12 páginas.

Por 20 anos o Cidade de Santos imprimiu sua marca de jornal combativo reportando notícias de forma criativa, provocativa e bem humorada. Com humor nos textos e nas charges, o Cidade de Santos fez edições históricas. As memórias e o legado deste jornal cuja última edição data de 15 de setembro de 1987 foram resgatados em uma longa conversa na Redação do Diário do Litoral com José Alberto Moraes Alves Blandy, último editor-chefe do Cidade de Santos. 

No DL, que tem apenas 12 anos, Blandy voltou no tempo ao reencontrar antigos colegas do “Cidade”, no dia 10 de fevereiro. Blandy, o cartunista J.C Lobo, atualmente colaborador do DL, e Aguinaldo Eduardo Gomes hoje responsável pelo setor de publicidade do DL, relembraram fatos inusitados, pessoas que escreveram e ilustraram as páginas do Cidade de Santos e também àquelas que estamparam as páginas da publicação.

Blandy nasceu em Santos, tem 71 anos de idade e atuou como jornalista por 34 anos. Ele tem de contribuição ao jornalismo o que esta repórter que o entrevistou tem de vida. Iniciou na profissão aos 17 anos no jornal A Hora Santista que passou a chamar-se A Nação, em 1958. Blandy também trabalhou na agência de notícias Asa Press, no jornal Diário da Noite, e dirigiu uma empresa de transportes por um mês até chegar à sucursal da Folha de São Paulo, de Santos, em 1964. A partir daí traçava-se uma trajetória que o levaria a chefiar, num futuro próximo, a Redação do jornal Cidade de Santos.

Como um namoro de idas e vindas, foi sua participação no “Cidade”. Blandy participou da primeira e da última edição do jornal. “Eu estava na sucursal da Folha em Santos quando fundaram o Cidade de Santos, em 1º de julho de 1967. Entrei para a editoria de Polícia (do “Cidade”) e depois fui chefe de produção (pauteiro), passando em seguida à chefe de Redação. Só que houve uma greve no jornal que foi atribuída a mim e eu retornei para a Folha. Voltei em 1970 e fiquei até 1979 no cargo de editor-chefe geral da Redação. “Eu tinha autonomia total porque os dois patrões passavam mais tempo fora do país, naquele momento da Revolução de 1964”.

Os dois patrões eram os dois sócios do Grupo Folha da Manhã Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, que lançaram o desafio de consolidar um jornal combativo e alternativo em Santos, no final da década de 1960.

O Cidade de Santos tinha 16 páginas e vendia uma média de 1.500 exemplares por dia. Nos tempos áureos, o jornal chegava a marca de 12 mil a 19 mil exemplares vendidos por dia, segundo Blandy. Mas, em 1979 o Cidade de Santos quase parou as máquinas.

Blandy retornou à Folha, em São Paulo, mas por pouco tempo. Em 1980 foi enviado novamente ao “Cidade” como editor-chefe geral da Redação onde permaneceu até o fechamento do periódico em 1987. Blandy reformulou o estilo dos textos e das fotos e demitiu parte dos funcionários. “Mandei um monte de gente embora. Então metade do ‘Cidade’ gosta de mim e sabe o que eu fiz e metade quer me matar”, comentou sorrindo.

Após o fechamento do “Cidade”, Blandy trabalhou na Revista Afinal e no Diário do Comércio. Hoje, Blandy é advogado e atua na Federação dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado de São Paulo e no Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários de Santo André, São Caetano, Diadema, Mauá e Rio Grande da Serra (SINTETRA).

Por que o Cidade de Santos fechou?

Segundo Blandy, os empresários do Grupo Folha, o Caldeira e o Frias, que mantinham outros seis jornais, divergiam sobre a continuidade do Cidade de Santos. Caldeira queria continuar com o jornal, mas Frias queria fechá-lo porque não era tão rentável. Em 1987, de acordo com Blandy, Octavio Frias havia enviado alguém ao Grupo A Tribuna para negociar a venda do jornal. Ao que Caldeira descobriu e decidiu fechar o Cidade de Santos a vendê-lo para o jornal concorrente.

“Carimbeira’

Blandy fez críticas aos textos jornalísticos da atualidade que se limitam a informar os fatos, em sua maioria. “Hoje é uma carimbeira. O jornalista tem que criar, pô!”, criticou. Segundo ele, falta criatividade e humor na maioria dos textos de hoje, comparando o texto padrão de hoje ao exercício monótono de carimbar.

Poluição visual vende jornal

“O grande sucesso das vendas dessas edições era a poluição na primeira página”, afirmou Blandy, explicando que o excesso de notícias na capa foi adotado depois da observação de uma jornaleira que disse: “Branco ninguém lê, doutor!”. Antes, o “Cidade” seguia a diagramação padrão da época, cheio de “brancos”, ou seja, havia muito espaço em branco entre os textos e as fotos, o que não estimulava às vendas de um jornal de apenas 16 páginas.

Perfil do jornalista

Encerrando a entrevista, Blandy foi veemente ao responder a questão sobre como o jornalista deve atuar: “O jornalista deve continuar sendo de oposição”. Para ele, que sempre foi contestador, combativo, um observador das minúcias do cotidiano e até provocador, o jornalista deve sempre questionar e denunciar.