Greve revela precariedade das creches e escolas de Santos

Cozinheiras afirmam que nas escolas e creches mantidas pela Prefeitura falta de esponja à açúcar

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07 JUN 2016Por Carlos Ratton09h30
Cozinheiras denunciam a precariedade das instalações, sucateamento dos equipamentos, falta de insumos para higiene e, ainda, atrasos de gêneros alimentícios (FCozinheiras denunciam a precariedade das instalações, sucateamento dos equipamentos, falta de insumos para higiene e, ainda, atrasos de gêneros alimentícios (FFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Muito mais do que direitos e 16,6% de aumento salarial, a greve das cozinheiras, merendeiras e ajudantes de cozinha das creches e escolas do Município e do Estado, deflagrada ontem, mostra uma realidade pouco conhecida da maioria das mães e pais que mantém seus filhos sob os cuidados da Administração: a precariedade das instalações, o sucateamento dos equipamentos, a falta de insumos para higiene e, ainda, atrasos constantes de gêneros alimentícios. 

Ontem, na manifestação realizada em frente ao Paço Municipal de Santos, com apoio do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Santos (Sindserv), a Reportagem conversou com algumas cozinheiras que, pedindo para não serem identificadas por conta de represálias, revelaram situações extremamente graves. 

“As condições da trabalho são péssimas em todos os sentidos. Os fogões, pias e balcões de trabalho são impróprios e estão sucateados. Há escolas com sérios problemas de esgoto aflorando na cozinha. Falta funcionários (escolas com 1.500 alunos e apenas três cozinheiros) e também material para lavagem de louça e esterilização de utensílios. Falta esponja e detergente. Já mandaram a gente lavar com sabão em pó. É comum a má qualidade dos mantimentos. Muitas vezes falta o básico, como leite, óleo, açúcar e outros”, informa uma profissional que trabalha em uma das 80 escolas da Cidade. 

As merendeiras também questionam o desgaste físico a qual são submetidas, obrigando-as a levantar e carregar peso diariamente. “Ganhamos pouco mais de R$ 1.300,00 e estamos reivindicando reajuste e alteração no nível. Mas é fundamental que a Prefeitura olhe para a categoria. Faz anos que não olham a cozinha como o coração da escola. Cada criança tem uma particularidade ligada à saúde e nossa responsabilidade é muito grande. Um erro nosso pode causar uma alergia e levar uma criança à morte. Não posso lavar uma mamadeira com multiuso”, completa.

Creche

Uma das cozinheiras que trabalham em creches disse que as cerca de 120 crianças atendidas, principalmente as que são assistidas no chamado lactário (até nove meses de vida), precisam ter utensílios e alimentos separados das demais. “A geladeira está quebrada há um ano. Somos obrigadas a juntar mantimentos especiais com os outros de crianças maiores. Estamos seis meses sem detergente. Estamos fazendo ‘vaquinhas’ para comprar e muitas vezes usamos dinheiro da APM (Associação de Pais e Mestres). Uma nutricionista doou dinheiro para comprar detergente. Outro dia, fui na loja de R$ 1,99 para comprar quatro pacotes esponja para lavar a louça. Existe um pequeno alçapão na cozinha da minha creche em que caem bichos do teto. A Direção já está cansada de reclamar na Prefeitura”, conta.

Cinco Batatas

A cozinheira finaliza dando um exemplo lamentável. “Eu já fui obrigada a fazer sopa para 80 crianças com quatro batatas, duas cenouras e um chuchu. Coloquei macarrão e engrossei com uma ‘flocada’ usada para em purê de batata. Uma outra vez, foi um quilo e meio de feijão para a mesma quantidade de crianças”, relata, alertando que a maioria da população desconhece os diversos papéis desempenhados pelas cozinheiras além de fazer comida, que envolve estoque, acondicionamento e cuidados higiênicos, entre outros.

Em frente ao Paço, manifestantes afirmam que mais de 70 unidades aderiram à greve é mantida mesmo com liminar

Segundo as cozinheiras, as crianças de 76 unidades que já aderiram à greve estão comendo papinha pronta com arroz à grega. O diretor do Sindserv, Cássio Canhoto, disse que o fato lamentável na situação é que a Administração Paulo Alexandre Barbosa não quer diálogo com a categoria. “Uma verdadeira covardia. Prefere entrar na Justiça do que sentar para negociar com os servidores, que estão lutando de forma legítima, pois seguiu todos os ritos impostos pela legislação”. 

Além do reajuste, a pauta reivindica redução na carga horária para 30 horas semanais (sem diminuição salarial); mudança de nível salarial; e revogação imediata do edital de Pregão Eletrônico (publicado no Diário Oficial no dia 19 de maio último, que abre a contratação de empresa terceirizada para fazer as refeições dos usuários da Saúde. 

No domingo, a Prefeitura conseguiu uma liminar (decisão provisória) na Justiça impondo o retorno imediato ao trabalho, alertando que a greve é ilegal, definindo multa de R$ 50 por dia ao Sindserv por desobediência.

Secretaria nega denúncias

Procurada, a Secretaria de Educação de não há possibilidade de responder os questionamentos com a devida exatidão por conta da não identificação das unidades, mas garante que afirmações como a falta de alimentos e de produtos de higiene não procedem. No caso da falta de detergentes, nenhuma escola precisa fazer “vaquinha”, porque existe um repasse municipal de R$ 4,00 (quatro reais) por aluno, mensalmente, para que as unidades utilizem em pequenas emergências. 

Quanto aos alimentos, eles são os mesmos oferecidos em todas as unidades e a Seduc garante que zela pela qualidade do que é oferecido para as crianças da rede municipal de ensino. Lembrando que todas as escolas possuem nutricionistas que acompanham o dia a dia da alimentação dos nossos alunos.