100 anos: Dona Emília coleciona um século de histórias em São Vicente

Moradora do Residencial Casablanca, no Centro da cidade, ganhou festa decorada por centenas de girassóis

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15 AGO 2019Por Luiza de Oliveira08h00
Católica assídua, ela não dispensa palavras para falar de Deus e afirma ter sido sempre muito bem atendida pelo criadorFoto: Nair Bueno/DL

Com um sorriso singelo no rosto, girassóis na cabeça e uma simpatia que impressiona, Dona Emília completou 100 primaveras no último dia 8, em São Vicente. Sentada em meio a decoração festiva e murmurando baixinho aqui e ali,a senhora encantava e era encantada por todos.

A data de 1919, na qual o principal meio de comunicação era o jornal e só se existiam 57 países, pode passar despercebida diante da história e das memórias de quem se arriscou pesquisá-la.  Entretanto, neste mesmo ano, mais precisamente no dia 8 de agosto, nascia Emília Furlaneta Colferai.

Natural do Bariri, no interior do estado de São Paulo, Emília casou-se cedo, com 18 anos. Aos 19, dava à luz seu primeiro e único filho, Jarbas Colferai, hoje com 81 anos. Fruto de seu casamento com Lucildo Colferai, Jarbas, nascido em São Paulo, conta que ele e a família se mudaram para o município de São Vicente aos seus oito anos de idade. 

Católica assídua, Dona Emília não dispensa palavras para falar de Deus. Com a voz embargada pela longa trajetória e as mãos entrelaçadas, afirma com convicção ter sido sempre muito bem atendida pelo criador. Entre vários desejos e pedidos de ajuda, a senhorinha de olhar sereno, hoje, se contenta com súplicas cotidianas, de proteção e saúde.

Fascinada pela comemoração preparada para si na tarde daquela quinta-feira, Dona Emília sorriu quando perguntada sobre seus familiares. Com a árvore genealógica muito bem traçada e a casa cheia deles, Emília é irmã de sete, avó de três, bisavó de cinco e tataravó de três. 

Visitada frequentemente pela família, seu filho, Jarbas, conta que residir no Residencial Casablanca, em São Vicente, foi sua opção. "Ela afirmava que não queria dar trabalho para ninguém", explica.  

Coordenada por Rita Xavier, enfermeira e proprietária do local, a clínica e creche visa promover a reinserção desses idosos na sociedade, com o planejamento de excursões, atividades recreativas e eventos no geral. Entre as atividades, Rita conta que uma das favoritas de Dona Emília é a cão terapia. Residente desde 2008, ela é uma das mais antigas idosas do local. Atualmente, o residencial conta com três unidades, entre elas um hotel, o primeiro da Baixada Santista com tal propósito. 

Dona Emília vivenciou cada pedacinho destes 100 anos. Com os pés já cansados pela trajetória, ela passou pelas rebeliões fundamentais da república, viu a Era Vargas chegar, presenciou o início e o fim da Guerra Fria, assim como a Segunda Guerra Mundial. Assistiu pelas telas até então escassas das TVs o Brasil virar de cabeça para baixo com o Golpe Militar de 1964. Viu o país atingir sua ascensão hippie, com flores nas madeixas e trajes coloridos. Contemplou o sol nascer e se pôr tantas vezes que acabou por adquirir o seu próprio brilho. E, Dona Emília, haja brilho.