Nilton Cesar Tristão - Terráqueos e a fronteira final

Relegar o populismo às gavetas do passado significa, antes de tudo, uma necessidade de acelerarmos o caminho de nossa própria evolução

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19 JUL 2021Por Artigo12h00
Nilton César Tristão, cientista políticoNilton César Tristão, cientista políticoFoto: DIVULGAÇÃO

A enciclopédia livre Wikipédia define Angela Dorothea Merkel como a “líder de facto da União Europeia, a mulher mais poderosa do mundo e a líder do mundo livre”. A chanceler alemã entre 2005 e 2021 marcou o período com a imposição do predomínio da razão e preceitos universalistas enquanto prioridades de governança e acabou desempenhando o papel de farol iluminado diante de um mundo repleto de penumbras. O sucesso de Merkel ocorreu justamente por representar a essência que caracteriza o humano contemporâneo, em outros termos, somos seres com propensões eternas de superarmos barreiras e ultrapassarmos horizontes desconhecidos.

Quem não se lembra da locução na abertura do seriado Jornada nas Estrelas (Star Trek – 1966): “O espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para a exploração de novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”. Esse será o destino do homo sapiens moderno e consequentemente teremos que fortalecer a identidade terráquea em detrimento da importância de sermos brasileiros, americanos, coreanos, indianos, chineses, russos ou de qualquer outra nacionalidade. Na prática, o desafio futuro estará no fortalecimento de consensos baseados na concórdia e postulados racionais, na medida em que abreviaremos as diferenças culturais, econômicas, religiosas e linguísticas.

Entretanto, a edificação dessa realidade acontecerá através de lutas ferozes, dores lancinantes e sofrimento exaustivo, uma vez que teremos que confrontar as dualidades e antagonismos inerentes ao nosso espírito, capaz de perpetrar ignomínias inimagináveis. No contexto da política, teremos que romper com o anacronismo populista exercido por líderes meramente carismáticos, tanto de esquerda, quanto de direita, que abraçam narrativas fantasiosas, levando as massas a desenvolverem sintomas como a perda da consciência crítica, compulsão a compartilhar temas reducionistas com veracidades alteradas (fakenews), intolerância ao contraditório, entre outras deformações de ordem cognitiva e comportamental.

Agora, tornou-se oportuno citar Suely Buriasco, que no trabalho intitulado “O perigo do comportamento de massa”, diz: “A partir do momento em que a pessoa deixa de pensar por ela mesma e passa a agir de forma a repetir, irracionalmente, atos em conjunto, o perigo é iminente. O melhor a fazer em relação à prevenção ao comportamento de massa é resistir à sedução de copiar ou acompanhar a onda, sem antes refletir sobre o que se está fazendo”. Nesse sentido, o demagogismo se reproduz enquanto doutrina ensandecida que repudia as evidências lógicas, justamente por ultrapassar constantemente os limites que definem as conquistas e avanços históricos das sociedades, tal como as instituições seculares típicas dos Estados Democráticos de Direito.

Em fevereiro de 2021, três países enviaram sondas espaciais ao planeta Marte, a saber – Emirados Árabes Unidos, China e Estados Unidos, singularizando um pequeno passo perante o cosmo de dimensões incompreensíveis. Para irmos além, o multiculturalismo associado e construído a partir da congruência científica deve ser buscado e adotado incondicionalmente. Portanto, os movimentos motorizados sobre duas rodas que repudiam a esfericidade da terra (sic) ou governos que se sustentam sobre os pilares do negacionismo e da simplicidade retórica, auferem um gigantesco atraso na concretização desta missão na condição de terráqueos. Assim, relegar o populismo às gavetas do passado, para o deleite de pesquisadores e sociólogos, significa antes de tudo, uma necessidade de acelerarmos o caminho de nossa própria evolução.

* Nilton César Tristão, cientista político