Artigo - Incompetência e desprezo pelo povo

É um governo que não é solidário nem mesmo na hora da dor

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27 FEV 2021Por Artigo10h10
Francisco Marcelino, jornalista, escritor e professorFrancisco Marcelino, jornalista, escritor e professorFoto: DIVULGAÇÃO

Por Francisco Marcelino

Escrevo este texto depois de o Brasil atingir um novo recorde, o de mortos num único dia: 1.582 pessoas. Talvez, após pegar o artigo para revisar, meu editor me telefone dizendo que agora temos um novo recorde de mortes. Então, nós atualizaremos o texto. No entanto, ao publicá-lo, no dia seguinte, os dados podem estar velhos, por conta de um novo recorde. Talvez, daqui a 40 dias, meu editor me peça um artigo sobre 300 mil mortes. Talvez, daqui a 3 meses, ele me peça...

A única coisa que não envelhecerá entre o momento que escrevo este texto e o da publicação é a incompetência do governo. Essa incapacidade de prever, antecipar-se a eventuais crises e gerir continuará atual daqui ao fim do mandato. Vimos de tudo nessa pandemia: estímulo à aglomeração, manifestações contra o uso de máscara, críticas à vacina do Instituto Butantã, escassez de vacinas e de seringas, a crise do oxigênio que levou muitos brasileiros à morte por asfixia. Na verdade, não é apenas incompetência. É um governo que também despreza seu povo, que não é solidário nem mesmo na hora da dor: “Todos nós iremos morrer um dia”; “Eu não sou coveiro, tá”; “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”. 

Esta semana, com um general especialista em logística no comando, o Ministério da Saúde enviou para o Amapá as vacinas do Amazonas. Numa empresa privada, o responsável poderia enfrentar uma demissão por justa causa. Afinal, além do problema sanitário no Amazonas ser maior, não sairá barato reenviar essas doses para o destino certo. Quem pagará por esse erro? Aliás, esse mesmo general não explicou porque a sua pasta não agiu para evitar o colapso do oxigênio em Manaus. 

Com as mortes por Covid-19 em alta na maioria dos estados, o presidente Jair Bolsonaro questionou o uso de máscara para se proteger contra o vírus na sua live de quinta-feira. Na semana passada, um aliado do presidente, o deputado federal Daniel Silveira, bateu boca com uma policial ao entrar sem máscara no Instituto Médico Legal durante o episódio da sua prisão. Máscara, álcool em gel, distanciamento, confinamento total ou parcial, toque de recolher, fechamento de fronteiras e isolamento de algumas regiões são as principais armas que temos para evitar o colapso do sistema de saúde enquanto a população não é imunizada. 

Certamente, na semana que vem ou até mesmo daqui cinco minutos quando eu entregar este texto, tudo aqui estará velho, porque cidades e estados fecharão parte do comércio, restringirão deslocamentos, decretarão toque de recolher. E mesmo com essas medidas, correremos ainda o risco de o sistema de saúde não dar conta.

Como falei acima, a única coisa que não ficará velha será a incompetência e o desprezo desse governo pelo seu povo.

Francisco Marcelino, jornalista, escritor e professor