Um anfíbio gigante, capaz de emitir um som parecido com o mugido de um boi e devorar praticamente qualquer animal que caiba em sua boca, está mobilizando as autoridades ambientais em Santa Catarina.
A rã-touro-americana (Aquarana catesbeiana), considerada uma das espécies invasoras mais problemáticas do mundo, voltou a acender o alerta após ser encontrada em Florianópolis.
A espécie foi registrada no bairro Ratones, no Norte da Ilha, onde equipes da Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram) já capturaram 11 exemplares durante operações realizadas entre novembro de 2025 e março de 2026.
A presença do animal foi confirmada em pelo menos três propriedades da região.
O problema, segundo especialistas, vai muito além do barulho.
O anfíbio que come quase tudo
Originária da América do Norte, a rã-touro é considerada um predador extremamente eficiente e sua dieta inclui insetos, peixes, outras rãs, lagartos, serpentes, aves e até pequenos mamíferos.
Com até 20 centímetros de comprimento e peso que pode ultrapassar meio quilo, ela figura entre as maiores espécies de anfíbios do planeta.
Em alguns casos, os girinos podem atingir impressionantes 17 centímetros antes da metamorfose.
Predadora de hábitos noturnos, a espécie costuma permanecer imóvel à espera da presa e quando identifica uma oportunidade, utiliza suas fortes patas traseiras para atacar rapidamente.
Os riscos para a biodiversidade
A principal ameaça está no impacto sobre a biodiversidade local, visto que a rã-touro possui uma dieta generalista e pode predar anfíbios, répteis, aves e pequenos mamíferos nativos.
Além disso, ela compete por alimento e abrigo com espécies locais, ocupando nichos ecológicos importantes.
Transmissão de doenças graves
Outro fator preocupante é a transmissão de doenças pois a rã-touro pode atuar como hospedeira de agentes patogênicos associados ao declínio de populações de anfíbios em diversas partes do mundo.
Entre eles, destacam-se o fungo responsável pela quitridiomicose e o ranavírus, causador da ranavirose.
Por isso, os exemplares capturados em Florianópolis estão sendo analisados por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
O som que parece um mugido
O nome popular não é por acaso visto que, durante o período reprodutivo, os machos emitem uma vocalização grave e ressonante que lembra o mugido de um touro.
O som pode ser ouvido tanto durante o dia quanto à noite e costuma chamar a atenção de moradores que não conhecem a espécie.
Além de ser incomum, essa vocalização pode interferir na comunicação de espécies nativas que dependem dos sons da natureza para reprodução, defesa ou localização de parceiros.
Como a rã-touro chegou ao Brasil?
A história da invasora começou há quase um século quando a espécie foi introduzida no Brasil em 1935 para criação comercial destinada ao consumo de carne.
Com o fechamento de diversos ranários ao longo das décadas, muitos animais escaparam ou foram soltos na natureza.
Pesquisas apontam que hoje existem populações estabelecidas em diversas regiões do país.
Estudos genéticos mostram que os animais encontrados livres na natureza continuam mantendo ligação com populações criadas em cativeiro, o que indica que fugas e solturas ainda contribuem para a dispersão da espécie.
Operação de detecção precoce
Diante do risco ambiental, uma estratégia de “detecção precoce e resposta rápida” foi adotada pela Floram, considerada a forma mais eficiente de impedir que a espécie se espalhe.
As equipes realizam monitoramento noturno, inspeções em lagoas e áreas alagadas, buscas visuais e auditivas, além da captura dos animais encontrados.
O trabalho conta com o apoio da UFSC, Ibama, ICMBio e órgãos ambientais estaduais.
As autoridades reforçam que os moradores não devem tentar capturar ou matar os animais por conta própria, já que a espécie pode ser confundida com anfíbios nativos protegidos por lei.
A orientação é apenas comunicar o avistamento aos órgãos ambientais.
Uma ameaça que vai além de Florianópolis
Embora o foco atual esteja em Ratones, especialistas alertam que o caso é apenas mais um capítulo de um problema que se espalha pelo país há décadas.
Graças à sua alta capacidade de adaptação, reprodução acelerada e alimentação extremamente diversificada, a rã-touro é considerada uma das espécies invasoras mais difíceis de controlar.
Em Santa Catarina, ela já integra a Categoria 1 da lista oficial de espécies exóticas invasoras, o nível mais alto de atenção para o manejo ambiental.
Para os especialistas, impedir que o anfíbio se estabeleça definitivamente em novas áreas é essencial para evitar impactos que podem levar anos ou até décadas para serem revertidos.





