Uma pequena vila litorânea no norte da Itália está enfrentando um problema inusitado e barulhento. Punta Marina, um distrito costeiro de Ravenna, na região da Emília-Romanha, viu sua população de pavões explodir nos últimos anos.
Agora, as aves se tornaram as grandes protagonistas de uma disputa que divide moradores, autoridades e defensores dos animais.
Estimativas apontam que entre 120 e 400 pavões circulam livremente pela cidade, ocupando ruas, telhados, jardins, estacionamentos e até praias.
O que antes era considerado uma simpática atração turística e um símbolo local passou a ser visto por boa parte da população como uma dor de cabeça diária.
As origens do fenômeno
A origem dessa “invasão” remonta a décadas atrás. Segundo relatos locais, os primeiros pavões teriam surgido a partir de animais mantidos por moradores ou que escaparam de uma antiga área militar abandonada próxima à praia.
Com o passar do tempo, as aves encontraram o cenário ideal para se reproduzir e expandir a população de forma expressiva.
Esse crescimento acelerado tem uma explicação biológica e urbana clara. Diferentemente do que ocorre em áreas florestais, os pavões passaram a viver em regiões urbanizadas, onde praticamente não encontram predadores naturais.
Lobos e raposas, que poderiam controlar a espécie, permanecem nos bosques vizinhos, longe das áreas residenciais.
Para completar, a hospitalidade de muitos moradores e turistas que costumavam alimentar as aves favoreceu ainda mais essa proliferação sem freios.
Barulho, sujeira e carros arranhados
As principais reclamações da comunidade envolvem o comportamento dos pavões durante a época de reprodução, que ocorre na primavera europeia.
Nessa fase, os machos emitem gritos extremamente altos e agudos para atrair fêmeas e afastar rivais. Moradores afirmam que a cantoria começa ainda na madrugada, comprometendo gravemente o descanso de quem vive na região.
Além da poluição sonora, as aves deixam fezes em calçadas, jardins e entradas de residências, gerando constantes queixas relacionadas à limpeza urbana.

Período reprodutivo e danos materiais
Outro problema recorrente e que pesa no bolso são os danos materiais, visto que os pavões costumam subir em carros estacionados e atacar seus próprios reflexos na lataria ou nos vidros.
Ao acreditarem que estão diante de um rival, eles bicam e usam as garras, arranhando veículos, telhados e até chaminés metálicas.
Especialistas explicam que esse comportamento é perfeitamente natural para a espécie pois, durante o período reprodutivo, os machos tornam-se extremamente territoriais e reagem de forma agressiva a qualquer imagem que interpretem como um concorrente direto.
Uma comunidade polarizada
Essa convivência forçada acabou dividindo Punta Marina em dois grupos com visões completamente opostas.
De um lado, existem os moradores que exigem a retirada imediata ou a transferência das aves para áreas rurais ou reservas adequadas.
Eles argumentam que a situação saiu do controle e que os impactos negativos sobre a qualidade de vida e a tranquilidade da vila aumentam a cada ano.
Por outro lado, os defensores dos animais enxergam os pavões como parte indissociável da identidade e do charme local.
Para esse grupo, as aves encantam os visitantes, impulsionam o turismo e poderiam continuar convivendo harmoniosamente com a população, desde que a prefeitura implementasse medidas de manejo adequadas e éticas, sem recorrer à remoção em massa.
Essa forte polarização ficou evidente em tentativas anteriores de controle.
Em 2022, as autoridades locais estudaram um plano para retirar parte da população de pavões, mas a iniciativa foi interrompida após uma forte onda de protestos de organizações de proteção animal e de moradores favoráveis à permanência das aves.

Estratégias de conscientização e controle
Diante do impasse e da dificuldade de remover os animais, a administração municipal passou a apostar em campanhas de conscientização.
A principal medida adotada até o momento foi orientar rigorosamente moradores e turistas a pararem de oferecer alimento às aves.
A expectativa é que, ao reduzir a oferta de comida fácil, os animais diminuam a dependência das áreas urbanas e evitem a formação de novas colônias próximas às residências.
Paralelamente, as autoridades planejam realizar um censo detalhado para determinar o número exato de aves na vila e avaliar quais estratégias de longo prazo poderão ser implementadas.
Entre as alternativas que estão sendo estudadas, figuram programas de adoção monitorada por criadores autorizados e por propriedades rurais de outras regiões da Itália.
O dilema do patrimônio vivo
Originário do sul da Ásia, especialmente da Índia e do Sri Lanka, o pavão é mundialmente admirado pela exuberante cauda colorida dos machos.
Ao longo da história, a ave foi associada à nobreza, à beleza e até à imortalidade, chegando a estampar diversas obras de arte e os famosos mosaicos históricos da própria cidade de Ravenna.
Apesar de toda essa elegância e carga cultural, especialistas alertam que a gestão de grandes populações de pavões em áreas urbanas impõe desafios muito semelhantes aos observados com pombos, javalis ou macacos em outras partes do planeta.
Sem um controle populacional ativo e sem a presença de predadores, a tendência natural é que o número de indivíduos continue subindo.
Por enquanto, Punta Marina segue dividida entre o encanto e o incômodo. Enquanto uma solução definitiva não avança, os moradores continuam acordando ao som de um dos casos mais curiosos e barulhentos de convivência entre humanos e a vida selvagem na Europa moderna.
