Casos de racismo na Rússia crescem e geram polêmica a 3 anos da Copa do Mundo

Relatório da rede Fare, organização que combate o racismo no futebol europeu, e da Sova Center, revelou mais de 200 casos de comportamento discriminatório ligados ao futebol

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12 ABR 201512h09

Foi tão contundente quanto comer a banana jogada pelos racistas. Quando Hulk, atacante do russo Zenit St.Petersburg, viu a torcida do rival, o Torpedo Moscou, imitar macacos, esperou para dar o troco. Na hora do seu gol, colocou a mão no ouvido, em formato de concha, como quem faz esforço para ouvir, e mandou beijinhos para os rivais. O marfinense Yaya Touré não teve o mesmo sangue frio. Após viver uma situação semelhante em viagem do Manchester City a Moscou, o melhor jogador africano defendeu um boicote: os negros não jogariam mais lá. Nem na Copa do Mundo de 2018.

Embora seja difícil de ser concretizada, a ideia causou calafrios no presidente da Fifa, Joseph Blatter, que decidiu abrir guerra ao racismo. Em sua última manifestação, ele afirmou que ainda existe muito a fazer. A discussão sobre cronogramas das obras na Rússia ficou em segundo plano. Faltando três anos para o Mundial, a lição de casa dos russos é convencer o mundo de que não haverá racismo em 2018.

O problema é real. Relatório da rede Fare, organização que combate o racismo no futebol europeu, e da Sova Center, ONG russa que pesquisa casos de nacionalismo e racismo, revelou mais de 200 casos de comportamento discriminatório ligado ao futebol na Rússia nas duas últimas temporadas. “O que você pode fazer nessas situações além de reagir com um sorriso? Se eu trato os torcedores com respeito, talvez receba o mesmo em troca”, disse Hulk. “O futebol deve unir as pessoas, não dividi-las”, completou.

Esse não foi o único episódio vivido por Hulk. Logo que foi contratado, uma das facções organizadas da torcida, conhecida como Landscrona, divulgou um manifesto declarando sua oposição à contratação de jogadores negros. Hoje o paraibano é o artilheiro do torneio com 11 gols, mas ainda convive com as injúrias raciais dos rivais.

Antes de Hulk, o ex-lateral-esquerdo Roberto Carlos, hoje técnico na Turquia, também foi discriminado. Em 2011, um torcedor jogou uma banana no campo, perto do campeão do mundo em 2002. Ele defendia o Anzhi em partida contra o Krylia Sovetov, em Samara. O brasileiro abandonou o jogo.

O atacante Vagner Love, hoje no Corinthians e que atuou no CSKA Moscou, afirma que os torcedores do Zenit St.Petersburg, o time de Hulk, sempre foram os mais radicais. “Infelizmente em São Petersburgo esses casos de racismo são comuns. Eles ficam fazendo barulho de macaco quando jogadores negros pegam na bola” disse o corintiano, que nunca foi vítima de injúria racial quando esteve lá, entre 2004 e 2013.

Com a proximidade do Mundial, a questão ultrapassa as vastas fronteiras russas. “Prejudica nossa imagem. As federações internacionais estão atentas a isso e dizem que estamos nos preparando para o Mundial, mas se perguntam sobre o que pode acontecer”, alertou o ministro dos Esportes, Vitaly Mutko, que também lidera o Comitê Organizador da Copa 2018, ao site esportivo russo R-Sport.

Na prática

A primeira medida prática foi a criação de um inspetor antirracismo, burocrata que faz parte da diretoria de segurança da União de Futebol da Rússia, a CBF de lá. Alexei Tolkachev ainda não começou a trabalhar porque as autoridades estão revisando as leis para definir quais serão os seus poderes. Ele vai nomear um grupo de trabalho para começar a supervisionar as partidas.

Por enquanto, o que a Rússia faz para combater o racismo é café pequeno. Pelas ofensas contra Hulk, o Torpedo Moscou teve de jogar duas partidas sem torcida. Além disso, multa de 300 mil rublos (R$ 16 mil). Foi a terceira vez que o time sofreu esse tipo de sanção. Sempre pelo mesmo problema.

O professor Angelo Segrillo, que leciona História da Rússia no curso de graduação da Universidade de São Paulo (USP), afirma que a Copa do Mundo será quase um estado de exceção, o que diminui o risco de injúrias raciais. “Estamos falando de racismo em campeonatos comuns. Na Copa do Mundo, a história é diferente, como a gente viu aqui no Brasil. As entradas são mais caras e o controle será muito maior. Além do racismo, eles têm uma preocupação acentuada com o terrorismo. Atualmente não existem câmeras para identificar quem joga as bananas, mas na Copa será diferente”, disse o autor do livro “Os russos”. “As sanções que estão sendo impostas desde 2012 e o rigor na segurança podem surtir efeito”, completou o historiador.