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Lenda do rock, Little Richard morre aos 87 anos

Informação foi confirmada neste sábado pelo filho do músico, Danny Penniman

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09 MAI 2020Por Folhapress13h24
Little Richard foi um dos pioneiros do rockFoto: DIVULGAÇÃO

Little Richard, um dos maiores astros da história do rock, morreu aos 87 anos. A informação foi confirmada neste sábado pelo filho adotivo do músico, Danny Penniman, à revista Rolling Stone. A causa da morte não foi revelada. O músico foi responsável por incontáveis hits ao longo da carreira, começando por "Tutti Frutti", em 1956, e passando por "Long Tall Sally", "Rip It Up" , "Lucille" e "Good Golly Miss Molly".

Little Richard não só fundou a base musical do rock'n'roll, ao acelerar e adicionar um tanto de selvageria ao rhythm and blues - ele também abriu caminho para que a nova música fosse a voz dos rebeldes, subversivos e desajustados. Ele também inspirou outras lendas da música mundial, como os Beatles, que fizeram uma versão para "Long Tall Sally", e Elton John.

Negro e bissexual, Richard incendiava plateias em que jovens negros e brancos dividiam o mesmo espaço. Ele se vestia e se maquiava como uma diva. Berrava a plenos pulmões letras de duplo sentido e embalava, com sua música frenética, uma dança considerada pornográfica na época - meados dos anos 1950, quando o assassinato sistemático de negros que desafiavam o "status quo" era uma realidade no sul dos Estados Unidos.

Nascido em 5 de dezembro de 1932, em Macon, na Geórgia, numa família de 12 irmãos, Richard Wayne Penniman cresceu em torno dos tios religiosos. Seu pai era diácono da igreja batista, o que não o impedia de traficar "moonshine" (uísque caseiro, sem passagem por barril) e manter uma taberna durante os anos da lei seca.

A carreira como músico começou a decolar após uma apresentação no Tick Tock Club, em Macon, e ganhar um show de talentos. Ele assinou o primeiro contrato com a gravadora RCA em 1951, mas o sucesso veio em 1955, quando ele assinou com a Specialty Records e lançou alguns de seus maiores hits. Ele também ficou conhecido pelo estilo extravagante, com olhos cheios de rímel e roupas de cores vivas.

Sua estreia nos palcos fora bem antes. Aos 14 anos, em 1947, abriu - sem a autorização de ninguém - o concerto de Sister Rosetta Tharpe, uma cantora de música gospel. A plateia ovacionou o menino de voz forte e aguda, e Little Richard saiu do teatro com cachê no bolso.

Aos 15 anos, Penniman foi expulso de casa pelo pai, devido aos seus modos efeminados. Foi nessa época que ganhou o apelido. Muitos nomes do R&B e Blues usavam o "Little", como Little Esther e Little Milton. Ele também estava cansado de ouvir as pessoas pronunciarem seu nome original de forma errada.

No fim dos anos 1940 e no início da década seguinte, o rapaz trabalhou com toda espécie de charlatães no "vaudeville", onde animou shows de horrores e se tornou ele mesmo uma espécie de aberração, ao tocar travestido para atrair plateias interessadas no bizarro. Também ampliou seus horizontes musicais, aprendendo a tocar piano e incorporando ao gospel o blues, o R&B e o boogie-woogie.

Foi no submundo do espetáculo restrito aos negros -o chamado "chitlin' circuit"- que Little Richard fez amizade com Billy Wright, a fonte de inspiração para seus shows extravagantes. Conhecido como o "príncipe do blues", Wright se apresentava em ternos coloridos, usava um enorme topete e bigode estreitíssimo.

O rumo da carreira de Penniman só viria a mudar em 1955, quando ele mandou uma fita demo para a gravadora Specialty, de Los Angeles. Chamado para gravar num estúdio em Nova Orleans, não empolgou o produtor Robert Blackwell até que eles, cansados das tentativas infrutíferas, saíram para beber juntos.

Foi no bar que Little Richard resolveu cantar "Tutti Frutti", uma brincadeira dos tempos do vaudeville que começava com o grito "wop bop a loo bop a lop bom bom" e cuja letra dizia "tutti frutti/ good booty/ if it don't fit/ don't force it/ you can grease it/ make it easy", ou "tutti frutti/ bunda boa/ se não couber/ não force/ você pode lubrificar/ para facilitar". Blackwell sentiu ali o estalo que procurava e encomendou à compositora Dorothy Le Bostrie letras menos obscenas para a melodia.

Suavizada, "Tutti Frutti" foi gravada em só três tomadas e chegou ao mercado em novembro de 1955. Foi sucesso imediato nos Estados Unidos e no Reino Unido, atingindo o segundo lugar da parada de R&B da revista Billboard. "Long Tall Sally", o próximo single, chegaria ao topo da mesma parada no início de 1956.

Naquele ano, Little Richard ainda emplacaria hits como "Lucille", "Rip it Up", "Ready Teddy" e "Slippin' and Slidin'". O garoto negro e efeminado da Geórgia havia se tornado um ídolo do mesmo quilate de Elvis Presley.

O sucesso de Little Richard com a juventude branca fez com que as casas de espetáculo, então exclusivamente brancas ou negras, passassem a admitir as duas comunidades num mesmo evento. Havia segregação -os brancos ocupavam a plateia e os negros, a galeria-, porém ela se desfazia no decorrer do show, quando os dois públicos se amontoavam em frente ao palco.

A histeria da audiência era semelhante à vista nos shows de Elvis. Durante uma apresentação em Baltimore, a polícia precisou intervir duas vezes - para evitar que adolescentes se atirassem do alto da galeria e para remover garotas que invadiram ao palco no afã de obter retalhos da roupa de Little Richard.

No mesmo concerto, uma mulher atirou sua calcinha em direção ao palco, levando dezenas de outras a repetir o gesto. O fenômeno irritava e desconcertava a classe dominante branca. Penniman, além de negro, era um homem de gestos exagerados que usava roupas coloridas e brilhantes, além de cobrir o rosto com pó de arroz.

"Eu usava a maquiagem para que os homens brancos não pensassem que eu estava atrás das garotas brancas", disse o músico em uma entrevista de 1984 à revista americana Jet, destinada ao público afrodescendente. "Facilitava as coisas para mim e, além do mais, era colorido."

 

Little Richard nunca empunhou a bandeira gay, mesmo se definindo como "pansexual" em relatos ao biógrafo Charles White, autor de "The Life and Times of Little Richard", sem edição brasileira. De acordo com o livro, desde a puberdade o cantor se relacionava tanto com homens quanto com mulheres.

"Eu tinha namoradas - um monte de mulheres que me seguiam, viajavam comigo, ficavam comigo e dormiam comigo", disse Penniman em 2000 à revista Jet. "Eu percebi que ser chamado de bicha me trazia fama - então que eles digam o que quiserem."

Em 1957, a conversão ao cristianismo interrompeu subitamente a carreira de Little Richard. O anúncio de que abandonaria a música aconteceu no meio de uma turnê na Austrália. No voo entre Melbourne e Sydney, ele teria sentido que as turbinas do avião estavam sendo sustentadas por anjos. Voltou dez dias antes do previsto para os Estados Unidos - e o voo que o traria na agenda original caiu no oceano Pacífico.

Isso aumentou sua convicção de que deveria escutar o chamado divino. Ele se matriculou num curso de teologia no Alabama e passou a gravar só música gospel. Em 1959, se casou com Ernestine Campbell, a quem conhecera num congresso evangélico. O divórcio viria em 1963.

Little Richard voltou ao rock'n'roll em 1962, atraído pelo mercado europeu que então consumia avidamente a música americana de alguns anos antes. Ele foi saudado por jovens talentos como os Rolling Stones e Bob Dylan. Quando tocou em Hamburgo, em 1964, a banda de abertura era os Beatles. "A gente ficava nos bastidores do Star-Club em Hamburgo assistindo a Little Richard tocar", disse John Lennon mais tarde. "Ele costumava ler a Bíblia e a gente sentava em volta só para ouvir ele falar. Eu ainda o amo e ele é um dos maiores.". 

Em 1965, emplacou na parada de R&B a balada soul "I Don't Know What You've Got (But It's Got Me)". A banda que o acompanhava, os Upsetters, tinha Billy Preston no órgão e Jimi Hendrix na guitarra.

No final dos anos 1960, Little Richard passou a se apresentar nos cassinos de Las Vegas. Na década seguinte, depois de se diplomar pastor da igreja adventista, ele enfrentou sérios problemas com cocaína. "Eu cheirava tanto que deveriam me chamar Little Cocaine", afirmou na biografia escrita por Charles White.

Nas décadas posteriores, Little Richard oscilou entre a religião, shows ocasionais e pontas no cinema e na TV –apareceu no filme "Um Vagabundo na Alta Roda", com Nick Nolte, e em episódios de "Miami Vice" e "SOS Malibu". Em 2006, celebrou a união de 20 casais numa única cerimônia de casamento.

O trabalho de Little Richard afetou praticamente tudo o que veio depois dele na música pop -artistas de estilos diversos, como o blues rock (Creedence Clearwater Revival), o soul (James Brown), o hard rock (AC/DC) e até a MPB (Raul Seixas), foram influenciados por sua música e estilo. O cantor Prince era tão parecido com Little Richard que o roqueiro veterano o queria para interpretar seu papel numa telebiografia feita para o canal NBC em 2000.  

Sua última gravação conhecida é de 2010, em um álbum tributo à cantora gospel Dottie Rambo.

Após 65 anos de carreira, o pianista e cantor anunciou em 2013 sua aposentadoria. Na época a poucos meses de completar seu 81º aniversário, problemas de saúde tornaram suas apresentações cada vez mais penosas. Em 2012, ele havia sido forçado a interromper um show no meio, dizendo à plateia: "Jesus, por favor me ajude, mal posso respirar". Ele disse na ocasião que seu legado vinha de ele quando começou a carreira, quando ainda não havia o rock.

Little Richard teve só um filho. Danny Jones, adotado com um ano durante o casamento com Ernestine Campbell. Jones trabalhou como guarda-costas do pai.

MICK JAGGER LAMENTA MORTE
O vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger, lamentou a morte do cantor no Instagram. "Estou tão triste por ouvir sobre a morte de Little Richard. Ele foi a maior inspiração do início da minha adolescência e sua música ainda tem a mesma energia elétrica bruta quando a toca agora, assim como quando tocou pela primeira vez na cena musical em meados dos anos 50."

Em sua conta no Instagram, o guitarrista Kelvin Holly, que tocou com Richard por um longo período, lamentou a morte do músico. "Descanse em paz, Richard. Essa realmente doeu. Meus pensamentos e orações estão com todos os meus companheiros de banda e fãs por todo o mundo. Richard era realmente o rei!", postou.

Bob Dylan relembrou a importância de Richard em sua vida desde pequeno, através de emocionantes tweets:

“Acabei de ouvir as notícias sobre Little Richard e estou muito triste. Ele era minha estrela brilhante e a luz que me guiava de volta quando eu era apenas um garotinho. Ele foi o espírito original que me levou a fazer tudo o que eu faço.”

“Fiz alguns shows com ele na Europa no início dos anos 90 e passei muito tempo no camarim dele. Ele sempre foi generoso, gentil e humilde. E ainda uma dinamite como intérprete e músico e você ainda podia aprender muito com ele.”

“Na presença dele, ele sempre foi o mesmo Little Richard que eu ouvi pela primeira vez e fiquei impressionado ao crescer e eu sempre fui o mesmo pequeno menino. Claro que ele viverá para sempre. Mas é como se parte da sua vida se fosse.”