Sumiço de cadáver: ‘É possível que ainda tivesse matéria no corpo’

O auxiliar de necropsia Almir Mestre, que atua na Polícia Científica, relatou ao Diário do Litoral “que há corpos que ficam inteiros”

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25 AGO 201410h13

“É possível que ainda tivesse matéria no corpo”. Esta foi a explicação do auxiliar de necropsia do Instituto Médico Legal (IML) de Santos, Almir Mestre, sobre o cadáver de Luiz Antônio dos Reis Neto, falecido há três anos e sepultado no Cemitério Municipal de Cubatão. “Tudo depende do local onde está o corpo, da temperatura e da saída de ar. Mas quem trabalha com isso sabe que é possível. Há corpos que ficam inteiros. Pode acontecer principalmente com que fica muito tempo internado na UTI”, explica Mestre.

Na semana passada, a funcionária pública Roberta Reis denunciou o desaparecimento do cadáver de seu marido. O corpo foi depositado no muro 31, sepultura 9.479, no Cemitério da cidade.

“Só tem três anos que o meu marido foi enterrado. Não é possível que não tenha matéria ainda. Ele tomava muitos remédios. O próprio médico dele, que eu consultei, afirmou que ele ainda não devia estar só nos ossos, que os remédios retardam a decomposição”, explica a viúva. Luiz Antônio, conhecido na cidade como Toninho, tratava a hepatite C havia 12 anos e um ano antes de falecer tratou com remédios fortes uma série de infecções que culminaram em sua morte.
 
O sumiço

No sábado, dia 9 de agosto, um dia antes do Dia dos Pais, Roberta foi ao cemitério para limpar a gaveta do marido, Luiz Antônio dos Reis Neto, no muro 31, na sepultura número 9.479 do Cemitério Municipal de Cubatão. A cena encontrada não foi a esperada. No túmulo do seu marido estava a foto e o nome de outra pessoa: Maria José dos Santos, de 78 anos, falecida no dia 17 de maio deste ano. Luiz morreu há três anos, no dia 5 de abril de 2011, vítima de uma infecção generalizada.

“Assim que olhei a gaveta percebi que ela tinha sido violada. O rejunte era recente e o mármore tinha sinais de que ela tinha sido aberta. Fui à administração do cemitério e eles disseram que os parentes da Maria José deviam ter se confundido. Por conta disso, tirei o que tinham colocado lá”, afirmou Roberta.

Roberta Reis já analisou documentos e faz pesquisas em busca do corpo (Foto: Matheus Tagé/DL)

Na segunda-feira, a funcionária pública resolveu investigar o que estava acontecendo e começou a receber uma sequência de fatos pouco prováveis, mas reais. O primeiro: Luiz e Maria José estavam registrados exatamente na mesma gaveta. O segundo: o corpo depositado na sepultura 9.479 era da idosa e não do marido de Roberta. A partir disto, a orientadora pedagógica iniciou a procura pelo corpo do marido e, até hoje, obteve poucas pistas sobre o paradeiro dele.

“Ninguém me avisou sobre a exumação do corpo do Luiz. Meus telefones continuam os mesmos, mas não fui informada. Também busquei em editais deste ano e nada. Não há o nome do meu marido. Agora, eles terão que dar conta do corpo dele. Primeiro eles me disseram que não sabiam onde estava, depois falaram que os ossos foram jogados no ossário geral e que eu não teria mais como encontra-lo. Como pode isso acontecer sem que ninguém saiba? A lei diz que o corpo só pode ser retirado depois de cinco anos, ele morreu há três. Quem vai responder por isso?”, desabafa Roberta.

Câmara irá requerer abertura de CEV

Amanhã, durante a sessão extraordinária da Câmara de Cubatão, os vereadores irão apresentar requerimento para propor a abertura de uma Comissão Especial de Vereadores (CEV) para apurar possíveis irregularidades na administração do Cemitério Municipal.

“A decisão de CEV é a mais certa, pois a Prefeitura abriu inquérito administrativo. Se dentro de alguns dias o Executivo não der uma resposta, iremos mudar de CEV para CEI (Comissão Especial de Inquérito)”, disse o vereador Ivan Hildebrando (PDT).

A Reportagem pediu explicações à Prefeitura de Cubatão assim que recebeu a denúncia, na semana passada. A Administração informou que um processo administrativo foi aberto para investigações possíveis irregularidades no caso e que os funcionários envolvidos teriam sido afastados. “A Administração Municipal vem mantendo contato permanente com as famílias envolvidas para colher informações e informar todas as ações subsequentes envolvendo o caso”, garantiu em nota. No entanto, a funcionária pública não confirmou que a Administração Municipal teria feito contato.
“Todas as informações que recebemos são extraoficiais e não partem da Prefeitura. Eu também estou fazendo minhas pesquisas. Analisando os meus documentos, percebi que todas as sepulturas vizinhas a do meu marido tiveram os corpos exumados no mesmo mês. Os nomes de todos estavam nos editais, menos o do meu marido”, disse Roberta.

A viúva também registrou boletim de ocorrência na Delegacia Sede da Cidade, que também já abriu inquérito para apurar os fatos ouvindo os funcionários do Cemitério.