Passos de inclusão: a experiência TamTam

ARTE. Um dos mais significativos e contundentes frutos da intervenção na Casa Anchieta resiste até hoje e é referência de integração social

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21 MAI 2017Por Rafaella Martinez10h30
A história da Ong Associação Projeto Tamtam, encerra a série especial do Diário do Litoral sobre a Saúde Mental na Baixada SantistaFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Um universo paralelo habita o segundo andar do Centro Cultural Patrícia Galvão, em Santos. De paredes externas decoradas e interior repleto de signos e significados, é naquele espaço que resiste até hoje um dos mais significativos e contundentes frutos culturais da intervenção na Casa de Saúde Anchieta: a Ong Associação Projeto Tamtam, cuja história de amor e humanização encerra a série especial do Diário do Litoral sobre a Saúde Mental na Baixada Santista.

Celebrar a saúde da eterna loucura. Prestes a completar 28 anos, o projeto iniciado na extinta Casa de Saúde Anchieta tem como objetivo promover saúde mental, prevenção as doenças, educação, acesso a arte e cultura, diversidade e inclusão social. Desde 1989, diversas histórias já foram mescladas com as do projeto. Uma das mais significativas talvez seja a do diretor Renato Di Renzo que, vindo da loucura do teatro, encontrou no antigo manicômio o cenário perfeito para curar, com arte, aqueles que foram deixados para trás pelo sistema. Ou a da psicóloga e bailarina Cláudia Alonso, que precisou ‘tirar a sapatilha e colocar os pés no chão’, para antes de ler um prontuário, ler vidas através do movimento.

Referência na luta antimanicomial e um dos primeiros grupos a lidar de forma lúdica com a inclusão social e a diversidade, a origem do TamTam vem dos passeios de bicicleta que o jovem Renato fazia em torno do Anchieta. “Um dia tu vai acabar ai”, os amigos diziam. Estavam certos.

O jovem que saiu em 1969 de Santos para estudar em São Paulo costumava rondar o Manicômio de Franco da Rocha. Ali, na companhia de um amigo, gostava de escalar os muros e fotografar os internos em suas atividades cotidianas no pátio. Dias após, retornava com as fotos reveladas e buscava pelos rostos da fotografia para deixar a pequena lembrança.

“Os rostos daquelas pessoas se iluminavam quando elas se reconheciam nas imagens. Era como se abríssemos uma janela que tinha a capacidade de resgatar tudo de bonito e que os anos de esquecimento haviam roubado”, conta o artista, que pouco tempo depois recebeu o convite para trabalhar na ‘Casa dos Horrores’ santista.

Usando a arte como instrumento de inclusão e transformação da realidade, as camas viraram cenários; as cadeiras de rodas, metrôs. Os pacientes, mais do que atores e locutores da extinta rádio TamTam, passaram a ser protagonistas de suas próprias histórias. O convívio com a arte lhes devolvia, mais do que a vida, a vontade de fazer parte da existência.

“Lembro de um dia no qual apresentei alguns quadros e livros de gravuras e um dos internos ficou olhando com uma expressão muito séria. ‘Escuta, em qual manicômio esteve internado esse tal de Picasso?’, ele indagou. Ele disse que nos momentos de crise ele via as coisas da mesma forma que as telas cubistas do pintor. Foi assim que, de pouquinho em pouquinho, fomos descobrindo artistas escondidos naquelas paredes”, afirma Di Renzo.

No TamTam de hoje, longe do passado na Casa Anchieta, mas fiel à sua origem, não existe nenhum rótulo ou estereótipo. Apenas pessoas especiais, crianças, jovens, adultos e idosos portadores de múltiplas deficiências, síndromes e/ou ‘normais’. Ao todo, mais de 180 famílias participam das diversas atividades, abertas para qualquer pessoa, dos 7 aos 75 anos.

“Aqui fazemos questão de que a familiares estejam o tempo inteiro trabalhando com seus filhos e que ambos tenham um olhar mais amplo para as carências de todos. Discutimos a sociedade, a arte e, acima de tudo, entendemos que Saúde Mental é maior do que dar um ‘diazepam’ para alguém. Todo mundo, em qualquer lugar que esteja, precisa estar regando a sua loucura”, conta o diretor, acrescentando que as portas do Tamtam estão abertas para todos.

“Vemos hoje muitas pessoas que chegam aqui que aparentemente não teriam motivo para estarem em um núcleo de trabalho de saúde mental, mas que com o convívio percebemos que são pessoas que lá no fundo lidam com a depressão,  a solidão e que anseiam por um lugar onde posam abrir o coração para falar do seu quadro ‘não legal’ em uma sociedade que insiste em trabalhar apenas a positividade excessiva. Falta tolerância para ouvir nos nossos tempos”, conta.

Futuro

Eloquente, Renato Di Renzo demonstra preocupação em seu tom de voz quando questionado sobre os planos futuros. “Eu não quero ser uma ONG que passe a vida inteira atendendo pessoas que não estão sendo assistidas em outros lugares. Isso me incomoda, pois a minha ideia é ter, em um curto espaço de tempo, uma casa onde funcionará uma fábrica de doces, onde os alunos produzam e consigam assim sua independência”, afirma.

Sem recursos, hoje, a ONG não tem como garantir o funcionamento do espaço e funciona com base em doações. Nos últimos meses, o projeto tem feito jantares e brechós para angariar fundos para manter as ações, tocadas essencialmente por voluntários.

O Renascimento e o retorno da Rádio TamTam

Um dos mais reconhecidos trabalhos artísticos desempenhados no interior do Anchieta, a Rádio Tamtam começou de forma modesta e foi notícia em diversos veículos de comunicação nacionais e estrangeiros na década de 90. Dentre os projetos para 2017 está a reconstrução da Rádio TamTam, a partir de um edital para web rádio.

“Em 1990, ganhamos um aparelho de som 3 em 1, fornecido pela Prefeitura. Trinta e duas caixas de som foram espalhadas pelo hospital psiquiátrico e começamos a fazer um programa para circular apenas dentro do Anchieta. Em um determinado dia, uma mulher perdeu a carteira durante a visita a uma familiar e foi até a rádio pedir para anunciarmos. Para nossa surpresa, quando nós anunciamos a carteira apareceu. A partir dali, entendemos que tínhamos um veículo de comunicação consistente e nossos ‘loucutores’ saíram do Anchieta para ocupar, por oito anos, três estações de rádio da cidade. A ideia foi tão positiva que, a partir dali, quase todos os serviços de saúde mental passaram a ter rádios comunitárias”, relembra Di Renzo.

O nome tam-tam significa, no dicionário, ‘instrumento de percussão, coberto de uma pele em que se bate’.

“O próprio nome passou a ser um objeto de troca. O slogan resumia a nossa ideia: um programa do tamanho da sua loucura. Nós buscávamos, mais do que dar protagonismo para essas pessoas, fazer com a arte do teatro e a magia da rádio fossem usadas como terapia e conseguimos fazer isso. Seguimos acreditando que esse é o caminho”, finaliza Di Renzo.