FEMINICIDIO

Jovem usa doces para bancar os estudos

Erick Jerônimo escondeu da mãe que vendia jujubas no semáforo.

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27 MAI 2019Por LG Rodrigues09h07
O jovem afirma que seu objetivo é ser professor e depois ministrar cursos para levar a educação física a todo o Brasil.Foto: DIVULGAÇÃO

"Eu escondi da minha mãe que vendia doce no semáforo pra pagar nossas contas". É com essa frase que podemos definir a dificuldade que foi a vida do estudante Erick Jerônimo Ferreira, de 21 anos. De família humilde e com sonhos ambiciosos, o jovem superou obstáculos impostos pela própria sociedade e demonstra o tamanho gigantesco do esforço que é necessário para se ter uma condição de vida básica em nosso País, mas da qual ele se orgulha em contar.

A trajetória de Erick começou quando ele ainda estava na barriga da mãe. Nascida em Recife, a dona de casa deixou o Nordeste no fim dos anos 90 para vir até Santos a pedido do então companheiro e pai de Erick, que viria a nascer poucos meses depois dela chegar à Baixada Santista. Quando chegou em terras caiçaras, entretanto, as coisas acabaram mudando.

"Minha mãe veio do nordeste e era bem estruturada com meu pai. Ele era bem sucedido e ela veio morar aqui em Santos a pedido dele. Só que após alguns problemas familiares ele abandonou minha mãe. Como ela era dona de casa e ainda não tinha nenhuma formação, minha mãe acabou morando alguns meses na rua".

A situação da mãe de Erick comoveu conhecidos da dona de casa, que ofereceram um quarto para que ela pudesse morar. Ainda grávida, ela começou a fazer cursos para se tornar auxiliar de enfermagem e tentar conquistar alguma independência financeira.

"Minha mãe sempre me dizia: se você tiver algum sonho, vá lá e o realize. Corra atrás".

Acostumado com pouca condição e muito suor, Erick começou a trabalhar desde muito cedo e continuou com mais afinco quando começou a cursar faculdade. Ele lembra que a situação em casa era difícil, mas se estabilizou até o primeiro momento de crise econômica pela qual o Brasil passou.

"Eu me tornei o único empregado em casa porque minha mãe perdeu o emprego. Na época eu já trabalhava em uma bomboniere e estudava de noite, mas de um tempo pra cá a coisa ficou muito mais apertada e acabei começando em mais um emprego: que foi o de vender jujuba nos semáforos para pagar a faculdade".

Erick começava sua jornada durante a semana em um estágio das 7h às 8h pela manhã na Unimes. Em seguida, ele deixava o local para trabalhar no Centro de Santos em um horário que se estendia das 8h30 até 19h. Depois de terminar o expediente na bomboniere, ele voltava para estudar das 19h às 22h40 e só então estava liberado para ir pra casa descansar.

Durante o fim de semana, o trabalho não parava, já que Erick também possuía um estágio auxiliando seus professores em eventos dentro da universidade aos sábados. Depois disso, ele ia para os semáforos das ruas de Santos para vender jujubas que comprava em seu emprego na bomboniere. Tudo isso para não deixar a família desamparada e poder continuar cursando sua faculdade.

"Por três meses a minha mãe desconfiava e perguntava onde eu estava e eu não queria falar pra ela. Era sábado, domingo, feriado e eu ficava o dia inteiro na rua sem dar muito sinal de vida e ela achava que eu estava aprontando. Até que teve um dia eu cheguei em casa e mostrei pra ela um bolo de notas de R$ 2 e expliquei o que estava acontecendo e falei que a faculdade e o nosso cartão de crédito estavam pagos, assim como as contas de supermercado. Ela chorou e me abraçou".

Comovida com a atitude do filho, a mãe decidiu tirar uma foto com toda a história e publicou o relato em suas redes sociais. E foi desta maneira que a trajetória do jovem chegou até o coordenador da academia R4, que o chamou para integrar a equipe de profissionais.

EDUCAÇÃO FÍSICA

Erick trabalhou como amolador de alicates, patrulheiro do CAMPS e até vendedor de doces, mas mesmo vivendo entre um emprego e outro, o jovem nunca deixou de ser grande adepto do mundo esportivo. Após começar a fazer musculação já muito cedo, ele decidiu que seguiria carreira na educação física e foi assim que começou a cursar a faculdade na Unimes de Santos.

"Eu queria conhecer mais esse curso porque dois anos antes de sair da escola eu comecei a praticar musculação e sempre pratiquei algum esporte e por ter esse envolvimento quis fazer o curso", explica.

Atualmente, ele já tirou sua licenciatura, a qual o qualifica já para atuar como professor de educação física, mas ele pretende ir além e terminar sua segunda formação para se tornar bacharel e poder atuar em academias e em outras empresas.

"Eu estou trabalhando em conjunto com o professor Claudio Scorcine para lançar um projeto, também em parceria com profissionais da medicina, para trabalhar a hidroginástica em pacientes portadores de cefaleia, pessoas que têm muitas dores de cabeça, para tentar reduzir as crises de dores", explica.

Ele diz que seu objetivo é ser professor e depois ministrar cursos para levar a educação física a todo o Brasil. O estudante diz que nunca teve nenhum contato com seu pai e diz que sua mãe tentou marcar um encontro entre ambos, mas explica que ambos acabaram não se conhecendo mesmo assim.

"Eu não tenho vontade para ser sincero, se um dia acontecer, tudo bem, tranquilo, mas admiro muito a minha mãe e sempre que acordo eu penso nela. Quando disse a ela que queria cursar educação física, ela disse: 'Filho, faça seu melhor enquanto você ainda não tem condições de fazer melhor ainda".

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