Itaguaré: o encontro das águas do rio e do mar em Bertioga

Praia com biodiversidade intacta e piscinas naturais atrai turistas; local é de preservação permanente

Comentar
Compartilhar
20 FEV 2017Por Diário do Litoral11h30
Praia ainda é pouco frequentada e maior movimento é registrado aos domingos; visitantes desfrutam de piscinas naturais e podem se banhar no rio ou no marPraia ainda é pouco frequentada e maior movimento é registrado aos domingos; visitantes desfrutam de piscinas naturais e podem se banhar no rio ou no marFoto: Rodrigo Montaldi/DL

A quilometragem do carro foi zerada na Praça dos Andradas, no Centro de Santos. Em aproximadamente uma hora a Reportagem chegaria ao seu destino final: Praia do Itaguaré, em Bertioga. Foram 77 quilômetros entre as rodovias Anchieta, Cônego Domênico Rangoni e Rio-Santos (BR-101) para acessar o local, que ­chama atenção pela ­beleza e preservação. Lá é possível aproveitar o frescor de piscinas naturais e ver o encontro do rio com o mar, além de espécies nativas da restinga e da costa ­brasileira.

“É a primeira vez que venho a Itaguaré. Chegamos ontem e fomos também a Guaratuba (praia que fica ao lado). Pesquisei pela internet e vi que essa praia era preservada, boa para crianças. Um clima tranquilo, gostoso, um bom lugar para vir com a família”, disse Thiago Osler. O administrador é de São Paulo e estava acompanhando da esposa e da filha. Apesar da calmaria descrita por ele, os salva-vidas do local recomendam atenção nas pedras e na subida da maré, que aumenta o volume do rio. 

A Reportagem esteve em Itaguaré em uma quarta-feira de forte calor. A praia é mais frequentada aos domingos e estava ‘cheia’ para um dia de semana, aproximadamente 50 pessoas. A entrada se dá por uma estradinha pouco antes da ponte sobre o rio que leva o mesmo local e se encontra com o mar e logo após a Riviera de São Lourenço. O caminho é estreito e os carros estacionam enfileirados. Há opção de pagar para guardar o veículo em um dos quintais dos poucos residentes do lugar. Um posto do Corpo de Bombeiros e a placa com informações do local dão às boas vindas aos frequentadores. 

Assim que o visitante tem contato com a areia lhe salta aos olhos um cenário paradisíaco. De um lado a restinga, no meio o Rio Itaguaré, que ­forma uma piscina ­natural, logo atrás a imensidão do mar. Para o paulistano entrevistado pelo Diário do Litoral, o lugar remete às praias do Nordeste. 

“Fui para o Rio Grande do Norte e é muito parecido. Quando vi isso aqui pensei: nem parece São Paulo. Os atrativos são as piscinas naturais. Para ir para lá gastaria com a família cerca de R$ 11 mil. Aqui, dois dias, não gastei R$ 300,00 para desfrutar dos mesmos atrativos”, destacou Osler. A conta feita pelo administrador para passar o dia em Itaguaré contém lanche, água, sucos, refrigerante, pedágio e gasolina. 

Em Itaguaré não é permitida a venda de alimentos. Os visitantes precisam levar comida e bebida, além de acondicionar os resíduos e descartá-los em locais apropriados. A área integra o Parque Estadual Restinga de Bertioga.

Clique na foto abaixo e confira uma galeria de imagens desta praia paradisíaca: 

Assim que o visitante tem contato com a areia lhe salta aos olhos um cenário paradisíaco (Foto: Rodrigo Montaldi/DL)

Pesca

Uma família de Guarujá aproveita a tarde de sol na beira de uma das piscinas naturais formada pelo Rio Itaguaré. Enquanto a mãe se banha na água com o filho mais novo, o pai e outros dois filhos tentam fisgar artesanalmente algum peixe. Segundo eles, no local é possível encontrar carapebas, robalos, pernas-de-moça e corvinas.

“Comíamos ostra em um restaurante que fica lá na frente e nos falaram da praia. Isso já faz uns 20 anos. Começamos a vir. É uma praia maravilhosa que proporciona lazer amplo com rio e mar. Dá para pegar uns peixinhos também”, disse Rubens da Silva Oliveira.

Voo

O casal de quero-quero cuida dos dois filhotes próximo ao rio. Mais à frente o solitário gavião observa o movimento. Um bando de gaivotas sobrevoa o encontro das águas doce e salgada. Assim como as aves descritas, espécies comuns no ­litoral brasileiro, uma dupla de pilotos de paramotor de Praia Grande aprecia do alto as belezas de Itaguaré. “Gostamos muito do que vimos. É uma praia lindíssima e com acesso difícil. Um lugar de fato exuberante”, destacou o piloto Amarildo Marcari.

Toca do Mar e a vida alternativa

Uma pequena trilha na restinga leva até o restaurante de Marcos Aurelio Souza, o Marquinhos das Ostras. A Reportagem encontrou o filho do caiçara, que banhava-se com dois cachorros no rio. A cadela Princesa conduz a equipe do Diário do Litoral pela estradinha que termina na casa do comerciante. A placa indica: Toca do Mar. Macacos-prego pulam entre os galhos das árvores. A espécie é nativa da região.

“Essa é a rota deles. Já acostumaram com a gente. Só assoviar que eles vem. Explico para as pessoas que visitam a praia que os macacos não são meus, são da natureza, e que é preciso respeitá-los e que não podem capturar. É um bando de 30 mais ou menos. A gente conhece cada um deles”, disse Marquinhos, que cria três cães abandonados pelos antigos donos na Rodovia Rio-Santos.

Ele apresenta a esposa, Marcia Valeria Longuinho, que deixou a vida de professora no Centro de Bertioga para viver em Itaguaré. “Não tem dinheiro que pague. Essa vida é privilégio para poucos”, afirmou a mulher. Há 30 anos, Marquinhos vende ostras, cultivadas em Itaguaré, na beira da estrada. O comércio cresceu e eles também oferecem peixes. O pescado é recolhido no mar.

“Começamos em uma barraca na beira da estrada e as ostras ficavam em uma mesa. O primeiro comerciante aqui foi o meu pai. O restaurante já foi de bambu. Quem vem aqui come o peixe fresco do dia. A comida é caseira e o restaurante é simples. Para mim isso não é restaurante é o Rancho do Pescador”, disse Marquinhos, que fez questão de ressaltar sua condição de caiçara  vindo de Laguna, Santa Catarina. 

A calmaria e as belezas do lugar tem atraído muitos turistas. Mesmo com o aumento no movimento no restaurante, a esposa de Marquinhos teme que a ‘descoberta’ acabe com o lugar. “O desenvolvimento é bom, mas acaba com tudo, infelizmente. As pessoas jogam lixo na praia e não recolhem. Se trouxe o lixo tem que levar embora”, afirmou.

Questionado sobre a vida alternativa e caiçara, Marquinhos revelou: “Não tenho tudo, mas o pouco que tenho é muito para mim. Não cultivo clientes, cultivo amigos”. 

Após a despedida, a Reportagem foi conduzida pela anfitriã Princesa pelo mesmo caminho, agora rumo à praia. Ela indicou a saída de Itaguaré a equipe e depois sentou ao lado de uma dupla de salva-vidas.