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DL Cultura: ‘Negrinha’ propõe reflexão sobre preconceito racial

Espetáculo encerrou apresentações da 59ª edição do Festival Santista de Teatro nesta semana

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10 SET 2017Por Rafaella Martinez11h02
Executada por três atores e oito músicos, a narrativa é encenada ao ar livre, com iluminação feita pela luz de velasFoto: Sander Newton/Diário do Litoral

Um coro cantado por artistas na área externa da Cadeia Velha evoca sobre a necessidade de falar sobre política, ocupar a praça pública e promover resistência popular. Assim começa ‘Negrinha’, espetáculo da Cia do Imaginário que encerrou a programação teatral da 59ª edição do Festival Santista de Teatro nesta semana.

“Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados”. Assim começa o conto de Monteiro Lobato, que narra a trajetória de uma criança nascida na senzala e que viveu a infância escondida na cozinha, pois a patroa não gostava de criança.

Em cena, três atrizes dão voz e vida à pequena órfã. Com fôlego, encenam a violência praticada contra a menina, bem como toda a poesia do mágico encontro com a boneca de cabelos loiros que lhe deu uma alma.

Refletindo sobre temas como escravidão, preconceito, direitos humanos, infância e dignidade, a Oficina do Imaginário leva o público a uma atmosfera atemporal, através de sons, cores, sabores, aromas e texturas. Executada por três atrizes e oito músicos, a narrativa é encenada ao ar livre, com iluminação feita apenas pela luz das velas. Há uma interação sensorial dos atores e dos músicos com a plateia, trazendo o conto para uma reflexão atual, sempre através do campo lúdico.

É difícil definir qual o destaque de ‘Negrinha’: se é a atuação das atrizes que se revezam no papel principal; a estética do espetáculo, conduzido à luz de velas e em um clima intimista ou a trilha sonora, cantada e tocada ao vivo.

“Que a noite de hoje não seja o final do FESTA 59 e sim o começo da construção do FESTA 60 e que a Cadeia Velha lotada nos lembre que ela precisa continuar sendo um espaço de criação e fruição e não de encarceramento da arte”, destacou a diretora Paula D’Albuquerque no encerramento do espetáculo.

História

Em 1920, Monteiro Lobato (1882-1948) publicava o conto Negrinha no livro do mesmo nome. O espetáculo teatral é um “reconto” da obra de Lobato, onde, apesar do texto preservado, as composições plástica e sonora levam a uma ressignificação de conceitos.

Discutir a representação do negro na obra de Monteiro Lobato, além de contribuir para um conhecimento maior do escritor brasileiro, pode renovar os olhares com que se olham os sempre delicados laços que enlaçam literatura e sociedade, história e literatura, literatura e política e similares binômios.

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