Frase do dia da Psicologia: “A verdade só pode ser dita nas malhas da ficção”

Descubra como a psicanálise e a poesia de Renato Russo explicam a forma como o cérebro edita a realidade para tentar esconder nossos maiores medos

Pessoa reflexiva escrevendo em um caderno, ilustrando como construímos as nossas narrativas e a verdade segundo Lacan

Não podemos mudar os fatos do passado, mas temos o poder de escolher como vamos contá-los a nós mesmos / Imagem ilustrativa gerada por IA

Vivemos em uma era obcecada por fatos concretos, provas e objetividade. Acreditamos que a verdade é algo cristalino, como uma equação matemática ou a gravação de uma câmera de segurança. No entanto, o psicanalista francês Jacques Lacan jogou por terra essa ilusão de controle com uma de suas frases mais célebres e intrigantes: “A verdade só pode ser dita nas malhas da ficção”.

Longe de ser um incentivo à mentira, essa máxima é um raio-x de como a mente humana funciona. Para a psicanálise, é impossível acessarmos a realidade nua e crua. Para suportar o peso da existência, dos traumas e dos nossos desejos, nós somos obrigados a transformar a nossa vida em uma história. E toda história, inevitavelmente, carrega boas doses de ficção.

O roteirista invisível: Como a linguagem edita os fatos

Quando Lacan fala sobre a verdade segundo Lacan estar presa na ficção, ele está apontando para o limite das palavras. O simples ato de abrir a boca para contar como foi o seu dia já exige que você selecione informações, mude a entonação e escolha um ponto de vista.

A nossa memória não é um arquivo de computador perfeito, moldada pelas nossas emoções. É por isso que dois irmãos que cresceram na mesma casa podem relatar infâncias completamente diferentes na terapia. Um lembrará das brincadeiras no quintal; o outro, das brigas dos pais na sala. Quem está mentindo? Nenhum dos dois. A verdade emocional de cada um precisou de um “recorte”, de uma narrativa subjetiva (uma ficção) para ser expressa.

O perigo (e a cura) das histórias que contamos

O grande impacto dessa teoria no nosso comportamento diário é percebermos os papéis que nos damos no teatro das nossas relações. A forma como você narra o seu último término de namoro ou a sua demissão diz muito sobre o seu inconsciente.

Você se coloca sempre como a vítima indefesa de pessoas terríveis? Ou talvez como o herói injustiçado? A psicanálise entende que, nas entrelinhas dessa “ficção” que você conta para os seus amigos na mesa do bar, esconde-se a sua verdade mais profunda: os seus medos de rejeição, a sua necessidade de controle ou a sua dificuldade de assumir responsabilidades. A verdade não está no fato exato, está em como você escolheu montá-lo.

“Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”: Onde Lacan encontra Renato Russo

Existe uma ponte fascinante entre a teoria francesa de Lacan sobre a “verdade como ficção” e a cultura pop brasileira. Na música Quase Sem Querer, da banda Legião Urbana, o cantor e compositor Renato Russo eternizou o verso: “Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”. Ouça abaixo:

Como isso se conecta à psicanálise? Se Lacan diz que nós construímos a nossa realidade através de narrativas (ficções), o grande perigo apontado por Renato Russo é quando escolhemos uma ficção baseada na negação.

Mentir para os outros é um erro ético, mas mentir para si mesmo — fingindo que um relacionamento falido está bem, ou que um trabalho exaustivo é gratificante — é um ato de autossabotagem psicológica.

A pior mentira, segundo a junção dessas duas visões, é aquela que o nosso inconsciente compra para evitar a dor de encarar a realidade. O sintoma (seja a ansiedade, a insônia ou a angústia) é a forma que o corpo encontra de gritar a verdade que a sua mente tenta abafar.

A cura, portanto, seja no divã de Lacan ou na poesia da Legião Urbana, começa no momento corajoso em que paramos de mentir para o nosso próprio reflexo no espelho e passamos a reescrever uma ficção mais honesta sobre nós mesmos.

Exemplo prático: Reescrevendo o próprio roteiro

O lado mais libertador dessa filosofia é: se a nossa realidade é estruturada como uma ficção, nós temos o poder de editar o roteiro.

Imagine que você cresceu ouvindo (e repetindo para si mesmo) a história de que é “péssimo com relacionamentos” porque seus pais se separaram. Essa é a ficção que sustenta a sua verdade atual, fazendo você se autossabotar a cada novo encontro.

Quando você vai à terapia ou pratica o autoconhecimento, você não apaga os fatos do passado, mas ganha a chance de narrá-los de outra forma. Você deixa de ser o “eterno azarado no amor” e passa a ser o “adulto que aprendeu a reconhecer os próprios limites”. Ao alterar a ficção, você transforma a sua verdade interior, abrindo espaço para um futuro muito mais leve.