Memória, humor e ansiedade: O caminho dentro do seu corpo que pode explicar seus esquecimentos repentinos

Estudos recentes sobre o chamado “eixo intestino-cérebro” levantam novas hipóteses sobre como a microbiota intestinal pode influenciar memória, humor, ansiedade e o funcionamento do cérebro ao longo da vida

Seus problemas de esquecimentos pode ter um inimio invísivel e bem debaixo do seu nariz / Imagem gerada por IA

No dia a dia, pequenos esquecimentos costumam ser tratados apenas como consequência do cansaço, da ansiedade ou da rotina acelerada, principalmente em uma época marcada pelo excesso de estímulos, notificações e preocupações constantes. Tirar o lixo, trocar os lençóis da cama ou até lembrar de uma tarefa simples que estava planejada há semanas pode se transformar em um desafio frustrante para muitas pessoas.

Embora esses lapsos de memória sejam frequentemente associados ao estresse ou ao envelhecimento, cientistas passaram os últimos anos investigando uma ligação pouco conhecida dentro do corpo humano que pode influenciar não apenas a memória, mas também o humor, a ansiedade e até a forma como o cérebro reage ao desgaste do tempo.

Apesar de parecerem sistemas completamente independentes, intestino e cérebro mantêm uma comunicação contínua por meio de impulsos nervosos, hormônios, substâncias químicas produzidas pela microbiota intestinal e mecanismos ligados ao sistema imunológico, formando aquilo que pesquisadores chamam de “eixo intestino-cérebro”.

O que é o eixo cérebro-intestino?

Sabe aquela sensação de “frio na barriga” antes de uma apresentação importante, durante uma montanha-russa ou em momentos de nervosismo intenso? Essas reações são alguns dos exemplos mais conhecidos da ligação entre cérebro e intestino, dois sistemas que mantêm uma comunicação constante dentro do corpo humano.

Essa conexão acontece através do chamado sistema nervoso entérico, localizado no trato gastrointestinal, e do sistema nervoso central, responsável pelas funções cerebrais. Juntos, eles formam uma espécie de via de mão dupla capaz de transmitir sinais químicos, hormonais, imunológicos e neurológicos entre intestino e cérebro.

Nos últimos anos, cientistas passaram a estudar essa relação com mais atenção após pesquisas sugerirem que alterações na microbiota intestinal podem influenciar humor, ansiedade, memória, comportamento e até respostas inflamatórias do organismo.

Na prática, o corpo humano dá sinais dessa conexão o tempo todo. Quando vemos uma comida apetitosa e começamos a salivar antes mesmo da primeira mordida, por exemplo, o cérebro já está preparando o sistema digestivo para receber o alimento. Em situações de estresse ou ansiedade, porém, essa mesma comunicação pode acelerar ou desacelerar o funcionamento intestinal, provocando desconfortos que vão muito além da digestão.

Como o intestino influencia o cérebro?

Para entender como intestino e cérebro conseguem trocar informações constantemente, cientistas apontam três elementos como fundamentais nessa comunicação: o sistema nervoso entérico, o nervo vago e a microbiota intestinal. Juntos, eles ajudam a regular sensações ligadas ao humor, ao estresse, à ansiedade e até à memória.

O sistema nervoso entérico é uma extensa rede de neurônios localizada no trato gastrointestinal e frequentemente chamada de “segundo cérebro”. Ele é responsável por controlar funções digestivas, mas também consegue enviar sinais ao cérebro sobre o estado do organismo, participando de respostas emocionais e fisiológicas involuntárias.

Já o nervo vago funciona como uma espécie de ponte direta entre intestino e cérebro. Considerado um dos nervos mais importantes do corpo humano, ele transporta informações em ambas as direções, permitindo que alterações emocionais afetem o intestino e que mudanças intestinais também influenciem o funcionamento cerebral.

A microbiota intestinal, formada por trilhões de micro-organismos que vivem no intestino, completa esse sistema de comunicação. Essas bactérias participam da produção de substâncias químicas importantes para o organismo, incluindo compostos ligados à serotonina, neurotransmissor associado ao humor, ao bem-estar e à regulação emocional.

O que os cientistas descobriram até agora?

O interesse da ciência pela relação entre intestino e cérebro cresceu significativamente nos últimos anos, principalmente após pesquisas começarem a associar alterações na microbiota intestinal a mudanças cognitivas, emocionais e comportamentais. Estudos recentes passaram a investigar como bactérias presentes no intestino podem influenciar processos ligados à memória, ao humor, à ansiedade e até ao envelhecimento cerebral.

Uma das pesquisas que mais chamou atenção da comunidade científica analisou os impactos de alterações na microbiota intestinal em animais de laboratório. Durante os experimentos, cientistas observaram que mudanças nesse ecossistema de micro-organismos foram acompanhadas por pior desempenho em testes de memória e aumento de processos inflamatórios relacionados ao cérebro, reforçando a hipótese de que o eixo intestino-cérebro exerce um papel importante no funcionamento cognitivo.

Apesar dos avanços, especialistas afirmam que ainda não é possível dizer que bactérias intestinais causem diretamente perda de memória em humanos. O consenso atual é que essa comunicação constante entre intestino e cérebro pode influenciar diferentes funções do organismo, tornando a microbiota intestinal uma das áreas mais estudadas da ciência quando o assunto envolve saúde mental, comportamento e cognição.

Como fortalecer o eixo cérebro-intestino

Embora cientistas ainda investiguem até onde vai a influência da microbiota intestinal sobre o cérebro humano, estudos recentes já apontam que alguns hábitos podem contribuir diretamente para o equilíbrio dessa comunicação entre intestino e cérebro. 

Alimentação rica em fibras, frutas, vegetais e alimentos fermentados, por exemplo, aparecem frequentemente associada à diversidade da microbiota intestinal, considerada essencial para o bom funcionamento do organismo.

Especialistas também destacam que fatores como qualidade do sono, prática regular de atividade física, hidratação adequada e controle do estresse exercem impacto importante sobre o chamado eixo intestino-cérebro. 

Em contrapartida, rotinas marcadas pelo consumo excessivo de ultraprocessados, privação de sono, sedentarismo e ansiedade constante podem alterar o equilíbrio intestinal e afetar processos ligados ao humor, à memória e ao funcionamento cognitivo.