Desde os anos 90 você não decide nada, mas sim a ‘babá eletrônica’ do seu cérebro

Criados para organizar catálogos, os algoritmos de recomendação hoje decidem o que você vê, ouve e lê

Três pessoas. Um sofá. E uma babá eletrônica no controle do play

Três pessoas. Um sofá. E uma babá eletrônica no controle do play - Ron Lach/Pexels

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Os algoritmos de recomendação nasceram nos anos 1990 e hoje decidem tudo o que aparece na sua tela (o próximo vídeo do YouTube, a música que toca no Spotify, o anúncio que surge no meio do feed e até as notícias que você lê sem nem ter procurado). Eles analisam seu comportamento digital o tempo todo: cliques, curtidas, comentários, quanto tempo você para em cada publicação e a velocidade com que passa o dedo na tela.

Tudo isso para personalizar sua experiência (e fazer você ficar mais tempo dentro do app). Uma verdadeira babá eletrônica que trabalha no modo silencioso.

Como esses sistemas funcionam na prática

Cada movimento seu vira dado. Se você passa mais tempo vendo vídeos de culinária, o algoritmo entende que aquilo te interessa e começa a te mostrar mais conteúdo do tipo. Funciona com música, notícias, produtos, perfis (tudo).

Com a evolução da inteligência artificial, os algoritmos ficaram muito mais espertos. Hoje eles levam em conta seu horário de acesso, localização, histórico de buscas e até padrões de navegação para ajustar as sugestões em tempo real. É um sistema que aprende com você a cada clique, a ponto de, como mostrou o Diário do Litoral, agentes de IA começarem a sugerir a criação de uma rede social própria para fugir da moderação humana.

Nos anos 1990, tudo começou de forma bem mais modesta. Empresas de comércio eletrônico usavam dados simples (como histórico de compras) para sugerir produtos. O que era básico virou uma máquina preditiva poderosa (capaz de adivinhar o que você quer antes mesmo de você saber).

O impacto no seu dia a dia digital

Essa tecnologia mudou completamente a forma como descobrimos conteúdo. Em vez de sair procurando ativamente, a maioria das pessoas consome o que o algoritmo empurra na frente delas.

É por isso que duas pessoas podem abrir o Instagram no mesmo horário e ver feeds totalmente diferentes. Cada feed é único, montado sob medida com base no seu próprio histórico. Você vive numa bolha feita sob encomenda (e nem percebe).

Para as empresas, o negócio é ainda mais interessante: quanto melhor o algoritmo em prever seus gostos, maior o tempo que você passa dentro da plataforma. E mais tempo significa mais anúncios vistos, mais receita gerada.

Claro que nem tudo são flores. Essa personalização toda levanta questões sérias sobre privacidade e bolhas de informação. Se o algoritmo só te mostra conteúdo alinhado com o que você já consumiu, sua exposição a ideias diferentes e visões de mundo diversas fica cada vez mais limitada.

Em 2018, o mundo já alertava: mudanças no algoritmo do Facebook poderiam favorecer a disseminação de fake news e criar bolhas de pensamento, na avaliação de especialistas.

O grande desafio hoje é equilibrar personalização com diversidade (entregar o que você gosta sem te prender numa bolha). Afinal, a mesma tecnologia que nos anos 1990 só organizava catálogos de produtos hoje exerce um poder imenso sobre o que você vê, ouve e pensa (muitas vezes sem você nem notar).