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Saúde

Butantan identifica compostos que matam parasita da Doença de Chagas

Objetivo é buscar terapias alternativas; medicamento disponível não elimina protozoário, que causa problemas cardiológico e gastrointestinal

Da Reportagem

Publicado em 21/04/2024 às 18:22

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Animal pesquisado por André Tempone foi coletado no Litoral Norte de São Paulo / Divulgação/Butantan

As doenças tropicais negligenciadas (DTN) colocam em risco cerca de 1,7 bilhão de pessoas no mundo todos os anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Uma delas é a doença de Chagas, endêmica em 21 países das Américas. Seu tratamento ainda é um desafio: há somente um fármaco disponível que, apesar de melhorar o quadro, não elimina o protozoário Trypanosoma cruzi, causador da doença. Mas a ciência brasileira está cada vez mais perto de encontrar novas estratégias de terapia – e a resposta pode estar na própria natureza.

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O farmacêutico e pesquisador do Instituto Butantan André Tempone se dedica ao estudo do tema há 20 anos e identificou compostos de animais marinhos e plantas que conseguem matar o parasita. O conhecimento deve ajudar a desenvolver medicamentos mais potentes no futuro.

Uma das moléculas mais promissoras foi encontrada no coral-sol (gênero Tubastraea), espécie invasora que vem se disseminando por toda a costa brasileira desde a década de 1980 e ameaçando os corais nativos. O animal pesquisado por André foi coletado em São Sebastião, litoral norte de São Paulo.

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“Nós extraímos seus compostos químicos e fomos isolando um por um, até chegar naquele que possui atividade contra o protozoário”, conta André, que foi transferido recentemente do Instituto Adolfo Lutz – a organização, assim como o Instituto Butantan, é vinculada à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. O trabalho foi publicado em 2022 na revista ACS Omega.

O composto natural isolado foi testado em células e mostrou seletividade para o parasita, ou seja, mata somente as células infectadas e não afeta as saudáveis. Agora, em colaboração com a Universidade de Oxford, os cientistas trabalham na síntese da molécula (desenvolvimento em laboratório) para eliminar a necessidade de extraí-la do coral, e futuramente devem testá-la em animais.

“O oceano é uma farmácia”

André Tempone resume nessa ideia o foco de seu trabalho. “Essa frase, que ouvi em uma palestra quando ainda era estudante, me instigou a pesquisar a biodiversidade marinha. Coletamos corais, esponjas e bactérias de sedimento marinho para prospectar moléculas com potencial terapêutico. Agora, no Butantan, pretendo dar continuidade ao projeto e explorar compostos de venenos de animais”, afirma.

O pesquisador também faz investigações além do mar, e já descreveu, em colaboração com a Universidade Federal do ABC, uma molécula encontrada na planta brasileira canela-amarela (Nectandra barbellata) que eliminou o Trypanosoma cruzi em testes in vitro. Mas descobrir um composto natural é apenas parte do processo: é preciso torná-lo viável para circular adequadamente no organismo e surtir o efeito desejado.

“O grupo da Universidade de Oxford fez a síntese da substância e seus derivados, e já passamos de uma centena de derivados melhorados. A molécula natural circulava no sangue de animais por apenas três minutos; com as modificações, ela agora age por 21 horas”, destaca o cientista.

Problemas cardiológicos e sequelas graves

Transmitida pelo barbeiro infectado com o Trypanosoma cruzi, a doença de Chagas é silenciosa e costuma demorar para ser diagnosticada – mais de 90% dos pacientes levam anos para descobrir a infecção. O problema é que o tratamento funciona melhor no início da doença; em estágio avançado, eliminar o parasita fica muito mais difícil. Por isso, além do controle do vetor, a busca por novas terapias é fundamental.

Uma das sequelas mais graves, que acomete 30% dos infectados, é o aumento do coração e insuficiência cardíaca, decorrente de uma inflamação crônica no músculo do coração. Também podem ocorrer problemas digestivos, como dilatação do intestino e do esôfago. Essas complicações costumam levar anos para acontecer.

A fase inicial da infecção pode ser assintomática ou causar febre prolongada (mais de 7 dias), dor de cabeça, fraqueza intensa e inchaço no rosto e nas pernas. Em caso de picada do barbeiro, pode surgir uma lesão semelhante a um furúnculo, de acordo com o Ministério da Saúde.

Além da picada, o parasita também pode ser transmitido por alimentos contaminados, mais comumente caldo de cana e açaí in natura, que podem conter restos de fezes do animal. Gestantes infectadas podem transmitir ao bebê.

O risco é maior para pessoas que residem em casas de estuque, taipa, sapê, pau a pique, madeira, entre outras estruturas que permitam a proliferação de insetos em frestas. O barbeiro também pode ser encontrado na mata, escondido em ninhos de pássaros, tocas de animais, cascas de tronco de árvores, montes de lenha e embaixo de pedras.

Doenças que merecem atenção

O dia 14 de abril é reconhecido como o Dia Mundial da Doença de Chagas pela OMS, que considera a doença “silenciosa e silenciada”, assim como outras enfermidades tropicais. São 30 a 40 mil novos casos no mundo todo ano, com 12 mil mortes. Embora predominem na América Latina e na África, os tripanossomas e outros agentes causadores de doenças tropicais devem ser uma preocupação de todos, ressalta o pesquisador André Tempone. Com as mudanças climáticas e os recordes de temperatura, esses organismos podem se adaptar a outras regiões do mundo. 

“Tem Chagas nos Estados Unidos, por exemplo: no Texas, há barbeiros infectados, embora existam poucos registros de casos no país. Hoje, há 7 milhões de pessoas com a doença no mundo inteiro, que também se infectam durante viagens”, conta.

As doenças tropicais em geral causam 200 mil mortes e custam bilhões de dólares por ano a países em desenvolvimento. São consideradas negligenciadas pela falta de recursos voltados a estudos de prevenção e tratamento e a políticas públicas de controle. O problema só passou a ganhar mais notoriedade em 2015, quando foi incluído nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo a OMS, até o final de 2023, 50 países eliminaram pelo menos uma doença tropical negligenciada, e a população de risco e que necessita de intervenções diminuiu 26% entre 2010 e 2022.

No Brasil, essas doenças ainda representam um grave desafio de saúde pública. Entre as principais enfermidades estão a hanseníase, chikungunya, malária, esquistossomose, oncocersose, tracoma, doença de Chagas, leishmaniose e raiva. A maior parte se concentra nas regiões Norte e Nordeste, de acordo com o Ministério da Saúde.

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