Os bastidores das grandes turnês mundiais costumam esconder histórias curiosas de intimidade e conexão cultural. Uma das mais marcantes envolve o maior ícone do pop mundial, Michael Jackson, e uma cozinheira nascida na cidade de Curvelo, no interior de Minas Gerais.
Conhecido internacionalmente por manter hábitos alimentares extremamente restritos e seletivos, chegando a recusar pratos em hotéis e recepções pelo mundo, o cantor encontrou o equilíbrio de sua dieta nas mãos talentosas de Raymunda Vila Real, que ficou conhecida nos Estados Unidos pelo apelido de Dona Remy.
A trajetória da profissional com as panelas começou ainda na infância, aos 8 anos de idade, ajudando a mãe a confeccionar refeições para dezenas de trabalhadores em um refeitório.
Com o passar das décadas, o seu tempero conquistou espaço em residências de grandes empresários, fazendeiros e importantes políticos brasileiros, chegando a cozinhar para os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros.
O apelido que a acompanharia pelo resto da vida surgiu justamente por sugestão de um dos financiadores da campanha de Kubitschek, Sebastião Pais de Almeida, que defendeu que ela adotasse um codinome com sonoridade francesa para atuar como uma verdadeira chef.
Na década de 1960, o músico Sérgio Mendes, que emergia no cenário norte-americano, convidou a mineira para morar e trabalhar nos Estados Unidos, abrindo as portas de Hollywood para o sabor brasileiro.
O jantar estratégico na casa de Quincy Jones
Em solo americano, a culinária de Dona Remy impressionou astros do cinema e da música, como Harrison Ford, Dick Van Dyke e B.B. King.
No entanto, a grande reviravolta ocorreu quando ela preparou um jantar na residência do lendário produtor musical Quincy Jones, responsável pelos maiores sucessos da carreira de Michael Jackson.
Sabendo que o Rei do Pop era vegetariano e se recusava a comer na maioria dos lugares que frequentava, Quincy propôs o desafio para a mineira tentar reverter aquela situação.
Para surpreender o jovem artista, que na época realizava os ajustes finais de seus discos, a cozinheira decidiu apostar na gastronomia tradicional brasileira, mas com uma estratégia inteligente. Ela elaborou receitas leves, naturais e adaptadas, incluindo arroz, couve, farofa e feijão preto.
A grande estrela do cardápio foi uma feijoada reinventada, na qual a mineira reduziu drasticamente as gorduras e selecionou ingredientes suaves, mantendo o sabor característico, mas respeitando o estilo de vida do artista.
O resultado foi imediato e surpreendente, pois o cantor aprovou a experiência e comeu quatro pratos cheios, consolidando uma relação de profunda confiança com a brasileira.
O chamado na histórica Victory Tour
Dessa forma, o vínculo entre os dois se estendeu para os palcos e se tornou fundamental durante a realização da histórica Victory Tour, em 1984.
No auge das apresentações, Michael Jackson passou a enfrentar sérios problemas digestivos e, por insatisfação e desconfiança, simplesmente parou de consumir os alimentos oferecidos pelas equipes dos hotéis e da produção local.
A situação atingiu um ponto crítico quando o artista se recusou a subir ao palco sem se sentir bem fisicamente, fazendo um pedido direto para que trouxessem Dona Remy até o seu camarim.
A equipe de produção organizou uma verdadeira corrida contra o tempo para localizar a mineira e levá-la até a turnê.
Assim que chegou, a brasileira assumiu a responsabilidade total sobre a cozinha por cerca de oito semanas, acompanhando as viagens e cuidando do bem-estar diário do cantor.
Com a preparação de refeições equilibradas e adequadas às necessidades dele, as crises digestivas sumiram rapidamente e o astro pôde retomar a sua rotina normal de shows.
Dona Remy tornou-se uma figura de conforto emocional em meio à pressão vivida pelo cantor.
Ela sabia exatamente como incentivá-lo a comer, respeitando as suas limitações. A profissional manteve o acompanhamento rotineiro ao músico entre os anos de 1981 e 1984, decidindo se aposentar pouco tempo depois.
Mesmo após deixar os compromissos fixos, ela fez visitas periódicas ao amigo nos dois anos seguintes, inclusive para cozinhar para ele e para a atriz Elizabeth Taylor no período em que o cantor se recuperava de uma queimadura grave no couro cabeludo.
Fixando residência em Los Angeles, a mineira retornou ao Brasil em 2009 para conceder entrevistas após o falecimento do astro e faleceu em agosto de 2020, deixando seu nome marcado nos bastidores da história da música mundial.





