Há 50 anos, navio-prisão Raul Soares era desativado

Ele serviu de cárcere flutuante para sindicalistas e ficou no porto de 24 de abril a 23 de outubro de 1964

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23 OUT 201411h06

Hoje faz 50 anos que o navio-prisão  Raul Soares foi desativado no Porto de Santos, encerrando um capítulo sombrio da história do País, escrito com torturas e repressão a presos políticos e sindicalistas da Baixada Santista.

Em 1964, o Raul Soares serviu de navio-prisão, mas em seu interior não havia lei e nem respeito à dignidade humana. A sua presença num banco de areia, no Porto de Santos, próximo à Ilha Barnabé, era uma ameaça e afronta aos santistas. A embarcação, com seu casco negro e sua enorme chaminé fumegante, chegou rebocado, pois não tinha mais forças para navegar.
Não trazia carga e nem iria receber qualquer tipo de mercadoria, a não ser presos políticos, todos sem um processo legal e sem direito a nada. Segundo consta, no total, foram quase 500 presos políticos que passaram pelo navio que foi adaptado para receber 600 prisioneiros. Direitos aos habeas corpus jamais foram respeitados. As ordens de soltura também não eram atendidas.

Segundo relatos de sobreviventes, que constam em reportagens e livros sobre o navio-presídio, fazia parte da tripulação o tenente da Polícia Marítima, de prenome Ariovaldo, que pelos relatos, era o mais violento dos carcereiros. As ordens de soltura passavam por ele, mas consta que, de imediato, ele providenciava a abertura de um novo inquérito para impedir a saída do preso. Tortura psicológica A ordem dentro do navio era uma só: a tortura psicológica.

Navio-prisão  Raul Soares é o símbolo da repressão ao sindicalismo de Santos (Foto: Divulgação)

Tortura psicológica

À noite os presos ouviam que um rebocador deixaria o Raul Soares durante a madrugada em alto mar. Os presos, que recebiam habeas-corpus, eram detidos novamente assim que pisavam no cais; outros eram repetidamente trocados das celas próximas às caldeiras para as junto ao frigorífico do navio - chamado choque térmico - que deixou muitos deles doentes e que pode ter levado alguns desses prisioneiros à morte.

O Raul Soares foi construído em 1900, pela empresa alemã Hamburg-Sud e batizado de Cap. Verde. Sua função era transportar imigrantes da Europa para a América do Sul. Pesava mais de 5.000 toneladas e tinha capacidade para 587 passageiros. Vendido em 1919 para a Grã-Bretanha, passou a denominar-se “Madeira”, em 1922. Em 1925, comprado pelo Lloyd Brasileiro, passou a ser chamado de Raul Soares. em homenagem a político que governou Minas  Gerais.

O navio foi responsável pela condução de muitos migrantes do Norte e Nordeste do país para o Porto de Santos. Na década de 60, o navio era um velho de 64 anos e não tinha mais forças para navegar. Já inativo, o Raul Soares no cais da Ilha de Mocanguê, no Rio de Janeiro, foi rebocado pela embarcação Tridente, da Marinha, chegando no dia 24.

Com uma semana, começou a sua função de navio-prisão, recebendo os primeiros prisioneiros políticos, sob a acusação de subversão, por se oporem ao governo militar que havia deposto o então presidente da República, João Goulart, em 31 de março. Em 23 de outubro, a embarcação foi desativada como prisão flutuante, retornando ao Rio de Janeiro, na manhã do dia 2 de novembro de 1964, onde foi desmontado e suas peças vendidas como sucatas.

Calabouços foram batizados ironicamente com nomes de famosas boates de Santos

Os calabouços do navio eram três, batizados, ironicamente, pelos próprios presos, com nomes de boates da Boca do Lixo de Santos, os tradicionais inferninhos, bastante famosos na época, ou seja:

1- El Marroco, era um salão totalmente metálico, ao lado da caldeira, sem nenhuma ventilação, onde a temperatura passava dos 50 graus, não possuía iluminação. Ainda assim era o melhor.

2- O Night And Day, era uma pequena sala onde o preso ficava com água gelada até o joelho.

3- O Casablanca, era onde eram despejadas as fezes dos presos. Eram usados para quebrar a resistência dos prisioneiros políticos. A maioria dos presos do Raul Soares passou, ao menos, por uma dessas três salas. Consta nos fatos narrados pelos sindicalistas que ficaram trancafiados no navio, que foi onde o ex-líder operário, Manoel de Almeida, contraiu a doença que o matou dois meses depois.

E foi por lá que outro preso: Waldemar Guerra, se transformou no mais resistente, permanecendo 16 dias num deles, sem comer. Sem banheiro Segundo ainda os relatos dos presos, não havia banheiro nas celas improvisadas. A conversa era proibida e nas poucas vezes em que foi possível a montagem de um sistema qualquer de comunicação (cartas, bilhetes), a descoberta era punida com a proibição dos arejamentos e das idas ao imundo banheiro coletivo.

Uma história para nunca ser esquecida

O Diário do Litoral fez duas séries de reportagens sobre o navio-prisão. Em 2012, Democracia à Deriva resgatou esta história e ouviu personagens que são os sobreviventes do navio. Neste ano, no cinquentenário do navio-prisão, a série Cárcere Flutuante: os 50 anos da repressão ao sindicalismo, foi em busca de novos personagens. As reportagens foram enviadas às entidades de direitos humanos internacionais.

Os médicos Thomas Maack, preso do navio, que se exilou em Nova Iorque, nos Estados Unidos e Luiz Hildebrando (que faleceu no mês passado) e que se exilou em Paris, deram seu relato nas reportagens do DL.

Foram entrevistados também os sindicalistas portuários Argeu Anacleto e Ademar dos Santos, Ademarzinho, que relatam o drama de suas prisões e o confinamento no navio.
 

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