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RUÍNAS

Restauração do Escolástica Rosa começa no 'fim do mês', diz Nupec

Patrimônio histórico tombado foi inaugurado em 1908 à beira-mar e formou gerações de santistas, mas está abandonado, tomado pelo mato e em ruínas

Nilson Regalado

Publicado em 23/04/2024 às 07:05

Atualizado em 23/04/2024 às 09:49

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A obra está orçada em R$ 50 milhões e deverá durar três anos / Diário do Litoral

O presidente do Núcleo de Pesquisa e Estudo em Chondrichthyes (Nupec), Manoel Gonzalez, anunciou ontem que a restauração do Instituto Dona Escolástica Rosa vai começar “no final do mês”. A obra está orçada em R$ 50 milhões e deverá durar três anos. Gonzalez é o atual locatário do conjunto arquitetônico com 17 mil metros quadrados e disse que, inicialmente, o restauro vai se concentrar no prédio principal, que fica de frente para o mar. Mais: o presidente do Nupec afirmou que todo o serviço será bancado “com recursos próprios”.

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Arqueólogo e ligado também à Totvm Urbs Investimentos, Gonzalez chegou a pedir o apoio da Secretaria de Estado do Turismo há exatos 15 meses, mas as verbas não vieram. Inaugurado em 1908, o Escolástica Rosa pertence à Santa Casa e formou gerações de santistas, mas agoniza, abandonado, tomado pelo mato e em ruínas, como relatou na segunda (22), com exclusividade, o Diário do Litoral.

“Vamos começar o restauro no final deste mês, começo de maio”, resumiu Gonzalez, em rápida conversa telefônica com o Diário na manhã de ontem. “O Ministério Público já está avisado (do início das obras), a Prefeitura também”, completou o presidente do Nupec.

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O conjunto arquitetônico é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa).

Porém, cinco dois oito imóveis não têm sequer telhado, restando apenas as paredes impregnadas de história.
Os prédios das antigas oficinas onde foram ministrados os primeiros cursos técnicos do Brasil viraram esqueletos a céu aberto. A fiação foi toda furtada. E o piso das antigas salas de aula foi destruído.

De pé e cobertos por telhas restam apenas o prédio principal, de frente para o mar, e a antiga casa do diretor, que abrigava a família do responsável pelo complexo educacional.

A antiga Capela de São João Bosco ainda vela pelo legado projetado por João Octávio dos Santos, intacta.

LEGADO DO FILHO DE ESCRAVA.

Filho bastardo da escrava Escholástica Rosa com o herdeiro de uma família da elite santista, João Octávio é o típico ‘self made man’. Enriqueceu durante o século 18 plantando bananas e formou um império de imóveis e propriedades em Santos.

Sem herdeiros, no leito de morte, João Octávio deixou dinheiro suficiente para erguer o Instituto em homenagem à memória de sua mãe. O complexo chegou a oferecer educação em tempo integral e um lar a órfãos e filhos de famílias pobres de Santos, além de alimentação, vestimenta, formação profissional e assistência médica.

E o filho bastardo da escrava deixou mais 74 imóveis espalhados pela Cidade para custear todo a manutenção do conjunto arquitetônico projetado pelo famoso arquiteto Ramos de Azevedo e construído sob a batuta de Júlio Conceição. A administração e os bens foram doados por João Octávio à Santa Casa de Santos, de quem havia sido provedor ao longo do século 18.

“Sinto demais onde chegou, mas se os órgãos de patrimônio e a Prefeitura tivessem sido mais rápidos, já teríamos iniciado a obra”, justificou o presidente do Nupec.

“E (o Escolástica Rosa) será reaberto com grande devolução à sociedade. Esse é nosso objetivo”, concluiu Gonzalez, que é arqueólogo e pretende transformar o prédio principal em espaço para educação, exposições e lazer. O projeto de restauração também contempla atividades comerciais capazes de garantir a sustentabilidade do complexo.

SONHO DE ARQUITETO.

Responsável pelo projeto e ligado ao conjunto arquitetônico por sua memória afetiva, o arquiteto Gustavo de Araújo Nunes espera concretizar o sonho de ver no complexo uma escola técnica especializada na restauração de imóveis tombados. O objetivo é formar jovens interessados em aprender as técnicas de preservação da rica memória arquitetônica de Santos. 

Líder de uma equipe formada por quatro arquitetos, Gustavo de Araújo Nunes elaborou um dossiê com 36 plantas detalhadas de todo o conjunto arquitetônico até concluir o projeto de restauro.

E foi justamente esse detalhamento da “linha do tempo” que destravou as autorizações para o restauro no Condepasa e no Condephaat, processo que se arrastava havia seis anos, antes da chegada de sua equipe.
“Tive que pegar na unha. Em seis meses, refizemos 100% do material técnico, com desenhos, plantas, detalhes dos ornamentos, coleta da estratigrafia, levantamento dos adornos e da condição das argamassas, ensaios químicos e de granulometria”, resumiu o arquiteto.

“Foram cinco meses com levantamentos e outros quatro meses só para editar o material”, explicou Nunes. No total, o projeto contempla aproximadamente sete mil metros quadrados de área a ser restaurada inicialmente.
E todo esse detalhamento se justifica pelo fato de que o Escolástica Rosa é o segundo maior sítio em termos de restauro do patrimônio histórico tombado no Estado, só atrás de outro projeto envolvendo sete quadras de um conjunto arquitetônico na região central da Capital.

“O Escolástica Rosa tem uma arquitetura fantástica, uma história fantástica. Ele é importante e relevante sob todos os aspectos. Tenho que dar o resultado para o empreendimento com qualidade e fidelidade ao projeto de restauro”, salienta o arquiteto.

Elementos “espúrios”, que não faziam parte do projeto elaborado pelo famoso arquiteto Ramos de Azevedo, deverão ser eliminados a fim de resgatar a originalidade do conjunto arquitetônico. Esse é o caso de colunas e muros que impedem a livre circulação pelo espaço, bem como a quadra de esportes ao lado do muro que separa o conjunto da Igreja Sagrado Coração de Jesus.

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