“Foi preciso desafiar a morte”: fotógrafa escalou mais de 4 mil metros e enfrentou -28°C para registrar fenômeno raríssimo no céu

A fotógrafa Angel Fuchs enfrentou temperaturas de até -28°C, dormiu em condições severas e escalou mais de 4 mil metros para registrar um fenômeno raro

A imagem mostra um impressionante "arco duplo" da Via Láctea sobre as montanhas cobertas de neve próximas ao icônico Matterhorn, um dos picos mais famosos da Europa.

A imagem mostra um impressionante "arco duplo" da Via Láctea sobre as montanhas cobertas de neve próximas ao icônico Matterhorn, um dos picos mais famosos da Europa.

Uma expedição extrema aos Alpes Suíços rendeu uma das fotos astronômicas mais impressionantes recentemente.

A fotógrafa francesa Angel Fuchs enfrentou temperaturas de até -28°C, dormiu em condições severas de alta montanha e escalou mais de 4 mil metros de altitude para registrar um fenômeno raro envolvendo a Via Láctea, resultando em uma fotografia tão extraordinária que acabou recebendo reconhecimento internacional da NASA.

A imagem mostra um impressionante “arco duplo” da Via Láctea sobre as montanhas cobertas de neve próximas ao icônico Matterhorn, um dos picos mais famosos da Europa.

A fotografia foi feita em março de 2025, a cerca de 4.200 metros de altitude, durante uma curta janela de condições favoráveis no pico Dent d’Hérens, nos Alpes, a cerca de 4.200 metros de altitude.

Apesar da fotografia pareça mostrar duas galáxias cruzando o céu, a explicação por trás dela é ainda mais fascinante.

O que é o fenômeno Duplo Arco?

Na realidade, a Via Láctea forma uma faixa contínua ao redor do céu terrestre. O efeito visual do chamado “arco duplo” surge quando os fotógrafos capturam um panorama completo de 360 graus e posteriormente o projetam em uma imagem plana.

Essa técnica cria uma distorção visual que transforma o único arco da galáxia em duas gigantescas curvas luminosas que parecem abraçar o horizonte e enquadrar as montanhas.

Devido à quase completa interação entre variáveis astronômicas e meteorológicas, esse fenômeno é muito difícil de obter.

A Lua deve estar na fase correta para que a foto seja tirada, o céu deve estar totalmente claro, o horizonte deve ser de até 360 graus, e a poluição luminosa deve estar praticamente ausente, pois a luz artificial pode perturbar qualquer resultado.

Sobrevivência no gelo

Além dos desafios técnicos, a missão colocou a fotógrafa em condições climáticas severas.

Durante a expedição, Angel Fuchs teve que usar equipamentos desenvolvidos para montanhismo em alta altitude, como botas especiais com crampons, roupas feitas de múltiplas camadas térmicas e um saco de dormir capaz de suportar temperaturas próximas a -30°C.

O frio intenso não só ameaçou a segurança da fotógrafa, mas também o equipamento eletrônico.

Segundo ela, uma das câmeras apresentou um problema raro durante os testes realizados nas noites anteriores à captura definitiva.

Após registrar uma sequência completa de imagens por mais de uma hora, o equipamento simplesmente não salvou os arquivos no cartão de memória, uma falha conhecida em dispositivos submetidos a temperaturas extremas.

O brilho raro do Gegenschein

Quando analisava o material após a expedição, Fuchs descobriu que havia registrado algo ainda mais incomum. Além do arco duplo da Via Láctea, a imagem revelou a presença do chamado “Gegenschein”, um brilho extremamente tênue observado no céu noturno.

Esse fenômeno, que os entusiastas da astronomia raramente presenciam, ocorre quando partículas de poeira espalhadas por todo o Sistema Solar refletem a luz solar exatamente no ponto oposto à sua posição no céu.

O Gegenschein é tão discreto que raramente aparece em imagens, tornando o registro ainda mais valioso para a comunidade astronômica.

Engenharia Fotográfica

A foto final também não foi feita com apenas um clique.

Para obter o resultado, a astrofotógrafa foi forçado a capturar mais de 260 exposições diferentes que foram posteriormente combinadas através de um delicado procedimento de edição digital.

Cada aspecto do céu, estrelas e solo foi meticulosamente arranjado para replicar com precisão exatamente o que foi visto à noite na montanha.

Essa técnica é comum na astrofotografia profissional, área que busca registrar objetos extremamente tênues e distantes que muitas vezes são invisíveis ao olho humano.

Reconhecimento global da NASA

O esforço acabou sendo recompensado mais de um ano depois. Em abril de 2026, a NASA selecionou a imagem como “Astronomy Picture of the Day” (APOD), ou Foto Astronômica do Dia, uma das maiores honrarias para fotógrafos do céu noturno.

O programa é acompanhado diariamente por milhões de pessoas em todo o mundo e destaca imagens consideradas excepcionais tanto pela beleza quanto pelo valor científico.

Para Angel Fuchs, que já teve que viajar por regiões remotas dos Andes, Pirineus e Dolomitas para encontrar os melhores céus do planeta, o sucesso marca um dos pontos altos de sua carreira.

O resultado final é uma fotografia que une ciência, técnica e resistência física para mostrar uma visão cósmica que poucas pessoas tiveram a chance de experimentar pessoalmente.