A Europa está vivendo dias de calor que não combinam com o calendário. No fim de maio de 2026, Portugal, Espanha, França e Reino Unido registram temperaturas entre 38°C e 40°C. São marcas de pleno verão, não de primavera. Um cenário histórico. Mas afinal, o que está por trás desse calor fora de época?
O domo de calor que virou forno
O principal responsável tem nome: domo de calor. Funciona como uma tampa gigante de alta pressão que estacionou sobre o continente. Ela bloqueia a entrada de massas frias e mantém o ar quente preso, comprimido e cada vez mais aquecido. A Scientific American compara o fenômeno a um “forno holandês meteorológico”.
Os números impressionam. Londres ultrapassou os 35°C em maio. Algo impensável há poucos anos. Na Península Ibérica, os termômetros chegaram perto dos 40°C. A Organização Meteorológica Mundial classifica o evento como “excepcionalmente elevado” para esta época.
O calor também quebrou recordes históricos em várias cidades. E o mais impressionante é que ainda nem chegamos ao verão oficial no hemisfério norte.
A crise climática como motor oculto
Mas o domo de calor é só o gatilho imediato. O motor profundo do fenômeno é a crise climática. Peter Thorne, diretor do ICARUS Climate Research Centre, foi direto: “Sabemos sem sombra de dúvida que ondas de calor como esta se tornaram mais prováveis e mais severas devido às mudanças climáticas”.
A Europa aquece cerca de duas vezes mais rápido que a média global do planeta. Existem razões específicas para isso. A proximidade com o Ártico, região que aquece quatro vezes mais rápido, é uma delas. As alterações na corrente de jato também contribuem, fazendo com que massas de ar quente fiquem paradas por muito mais tempo.
A ONU não usou meias palavras: o principal culpado é a queima de combustíveis fósseis. O calor extremo que a Europa enfrenta agora carrega o que os cientistas chamam de “impressões digitais da crise climática”. Não há mais dúvidas sobre isso.
O verão que começa na primavera
Os dados acendem um alerta urgente. Em 2024, o calor extremo na Europa matou mais de 62 mil pessoas. O número supera em três vezes as mortes no trânsito no mesmo período. E agora o calor chegou mais cedo. Muito mais cedo.
A OMM divulgou um relatório preocupante nesta mesma semana: o calor extremo deve persistir no continente até 2030. Há alta probabilidade de novos recordes nos próximos anos. O El Niño, combinado com o aquecimento global, deve intensificar ainda mais os eventos climáticos extremos pelo planeta.
Para quem acompanha o noticiário internacional, fica uma sensação clara. A primavera europeia está virando uma extensão direta do verão. E os dados científicos confirmam que isso não é impressão passageira.
*Fontes da reportagem: CNN Internacional, Scientific American, Organização Meteorológica Mundial (OMM), BBC Mundo, CBN Globo, Público (Portugal), ClimaInfo e DW.
