Calor extremo castiga a Alemanha, estoura asfalto de estradas e acende alerta para verão escaldante no Brasil

Onda de calor que já atinge 24 países na Europa derruba recordes históricos e expõe limites da infraestrutura às mudanças climáticas

Asfalto se parte com calor de 41,3°C na Alemanha e motoristas observam estragos na Autobahn

Asfalto se parte com calor de 41,3°C na Alemanha e motoristas observam estragos na Autobahn - Imagem ilustrativa gerada com o auxílio de IA / Diário do Litoral

A Alemanha registrou 41,3°C nesta semana, o maior calor já medido no país. O recorde fez trechos das Autobahn, as famosas vias expressas alemãs, literalmente se partirem sob o asfalto. Mais de 20 veículos foram danificados em Brandemburgo, com prejuízo estimado em 100 mil euros aos motoristas. Duas pessoas ficaram feridas. O caso é o símbolo mais impactante da onda de calor que já atinge 24 países na Europa e que, segundo cientistas, é a mais severa de todos os tempos no continente.

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No fim de maio, o Diário do Litoral já noticiava que um domo de calor estava colocando países europeus em chamas, com Portugal, Espanha, França e Reino Unido registrando temperaturas entre 38°C e 40°C fora de época. O que era alerta se confirmou: o calor extremo se intensificou e atingiu níveis históricos em junho.

O vídeo a seguir mostra semáforos praticamente derretidos na Europa.

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O que a ciência está dizendo

Estudo publicado nesta sexta-feira (26) pelo World Weather Attribution (WWA), consórcio liderado pelo Imperial College de Londres, concluiu que este evento seria “virtualmente impossível” há 50 anos. As mudanças climáticas tornaram dias de temperatura recorde 500 vezes mais prováveis na região. A análise compara o planeta atual, com 1,4°C de aquecimento global em relação aos níveis pré-industriais, com aquele que testemunhou ondas de calor marcantes em 2003 e 1976. Há 23 anos, a ocorrência de noites tropicais como as desta semana seria 100 vezes menos provável.

Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o corpo humano está sob pressão térmica 24 horas por dia. As chamadas noites tropicais, quando os termômetros não ficam abaixo de 20°C, impedem a recuperação física durante o sono. Isso eleva o risco de fadiga, doenças cardiovasculares e mortes, especialmente entre idosos e crianças.

Os números da crise

Na França, a temperatura média nacional atingiu 30°C, e 54 departamentos estão em alerta vermelho. A cidade de Pulluau, no oeste do país, chegou a 43,8°C. Duas usinas nucleares foram desligadas porque a água dos rios usada para refrigerar os reatores estava quente demais. Na Espanha, 212 mortes podem estar ligadas à onda de calor, segundo autoridades locais. O litoral norte do país, normalmente ameno, bateu 43,7°C.

No Reino Unido, o Met Office emitiu alerta vermelho e registrou 36,4°C, novo recorde para junho. Paris proibiu a venda de bebidas alcoólicas nos períodos mais quentes do dia, medida preventiva diante de serviços de saúde saturados. Na Itália, o pico de ar condicionado provocou apagões em Milão e Turim. A Bélgica viu o preço da eletricidade superar € 1 por kWh no fim da tarde.

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Por que as estradas estão estourando

O calor faz o asfalto amolecer e se expandir, provocando rachaduras e deformidades na pista. Os danos acontecem quando a temperatura do asfalto chega a cerca de 60°C, o que ocorre facilmente em dias ensolarados como os que a Alemanha enfrenta. Ainda mais perigosos são os chamados “blow ups”, quando o concreto se expande e levanta a pista subitamente. O risco aumenta quando os termômetros passam dos 30°C.

Para conter os estragos, as autoridades alemãs mobilizaram caminhões normalmente usados para remover gelo no inverno. Agora, no verão, eles despejam água fria sobre o asfalto. Na Baviera, foi necessário impor limites de velocidade de 120 km/h para carros e 80 km/h para motos, uma ironia para um estado que sempre se opôs a restrições desse tipo.

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O alerta para o Brasil

A Europa funciona como um laboratório involuntário de adaptação ao calor extremo, e o que acontece por lá acende um alerta para o Brasil. Estudo inédito em escala nacional estima que 120 mil mortes entre 2000 e 2019 podem ser atribuídas a ondas de calor no país, com idosos representando 8 em cada 10 vítimas. A projeção é que a proporção de mortes relacionadas ao calor na América Latina pode mais que dobrar entre 2045 e 2054.

O pesquisador Nelson Gouveia, da USP, alerta que 75% das cidades brasileiras ainda não usam dados de forma estruturada para enfrentar temperaturas extremas. Enquanto bairros nobres desfrutam de microclimas amenos, as periferias e favelas enfrentam o extremo oposto. A falta de áreas verdes, sombra e parques aumenta a exposição ao calor, especialmente nas regiões mais vulneráveis.

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O que esperar dos próximos meses

A onda de calor deve se espalhar pelas próximas duas semanas pela Europa Ocidental, Central e do Sul, com foco nos Bálcãs. O secretário executivo da ONU para Mudanças Climáticas, Simon Stiell, afirmou que esta é uma “marca clara da crise climática” e que, enquanto a humanidade continuar queimando carvão, petróleo e gás, as ondas de calor extremas só tendem a piorar.

Para a Baixada Santista, o cenário de calor extremo na Europa serve como um alerta direto. Com a aproximação do El Niño e as temperaturas globais em alta, a região precisa se preparar para eventos climáticos mais intensos. O Diário do Litoral mostrou em maio que os primeiros sinais de um super El Niño já apareciam no oceano, com anomalias de temperatura na região Niño 3.4. A combinação entre o aquecimento global e a intensificação do El Niño pode tornar eventos extremos como o da Europa cada vez mais frequentes também por aqui.