Casal transforma saudade de casa em negócio de sucesso que leva o tempero nordestino para São Paulo

Após consolidar participação em 11 restaurantes, empresários apostam em projeto autoral que resgata memórias, afeto e a essência da cultura nordestina na capital paulista

Dois nordestinos que deixaram suas famílias em busca de oportunidades em São Paulo acabaram construindo muito mais do que uma carreira de sucesso. Isabella Fernandes/DL

Dois nordestinos que deixaram suas famílias em busca de oportunidades em São Paulo acabaram construindo muito mais do que uma carreira de sucesso. Eles criaram um projeto que traduz identidade, memória e pertencimento.

Essa é a história de Elisângela Abade Barreto Martins, 48, e Wagner Wanderley Martins, 53, casal que hoje participa de 11 restaurantes, mas encontrou no Virgulino, casa nordestina inaugurada em 2023, uma realização pessoal. Pais de Clara Martins, eles veem no restaurante um projeto com significado.

A trajetória do casal nordestino em São Paulo

Naturais do Nordeste, ela baiana, ele mineiro do Norte de Minas, região com forte influência baiana, os dois se conheceram já em São Paulo, para onde vieram ainda jovens em busca de oportunidades e estudo. Elisângela chegou em 1997, aos 20 anos. Wagner havia desembarcado antes, aos 18, e já trilhava caminho na área da gastronomia.

Antes do Virgulino, o casal já tinha consolidado experiência com culinária japonesa. Wagner trabalhou durante anos no setor até abrir, em 2013, o restaurante Toshiro, em Moema, ao lado de outros sócios. O sucesso abriu portas para novos negócios, expandindo a atuação até chegar aos 11 restaurantes.

Apesar da trajetória sólida, faltava algo

“Chegou um momento em que a gente queria algo que tivesse mais a ver com a gente, com as nossas raízes, com a nossa cultura”, conta Elisângela.

Foi dessa vontade que nasceu o Virgulino. O nome, inspirado em uma das figuras mais emblemáticas e controversas do Nordeste, foi escolhido justamente por sua força simbólica.

A proposta do restaurante vai além da gastronomia. A ideia era criar um espaço que representasse o Nordeste sem estereótipos, não apenas pela comida, mas também pelo ambiente.

“A gente queria quebrar um pouco aquele estigma de que basta ter comida boa. Pensamos em um espaço confortável, climatizado, que também valorizasse a experiência”, explica.

Essência do Virgulino

O cuidado com os detalhes aparece na decoração, feita pela própria Elisângela, sem ajuda de arquiteto. O ambiente mistura elementos afetivos e culturais, muitos deles trazidos por amigos ou vindos diretamente do Nordeste.

Um dos destaques é um cantinho dedicado à avó de Elisângela, de 102 anos, que inspirou boa parte da proposta do restaurante.

“Pra mim, comida tem muito a ver com afeto. As lembranças que eu tenho são da minha avó reunindo a família. Eu quis trazer isso pra cá”, diz.

Clientes no centro

Localizado no bairro de Santa Cecília, o restaurante rapidamente conquistou o público. A região, conhecida pela diversidade e o cenário gastronômico, abraçou a proposta.

“Quando a gente anunciou que seria um restaurante nordestino, o pessoal já ficou curioso. E depois abraçou mesmo”, relembra.

O público aceitou muito bem o local. É frequentado tanto por nordestinos, que encontram ali um pedaço de casa, quanto por estrangeiros interessados em conhecer a culinária da região. No começo de 2026, turistas suecos estiveram no local e experimentaram diferentes pratos do cardápio.

A relação próxima com os clientes também é um dos pilares do sucesso. O casal faz questão de circular pelo salão, ouvir sugestões e adaptar o cardápio de acordo com o público. “Nosso maior patrimônio é o cliente. Muitas coisas que a gente tem hoje vieram de sugestões deles”, diz.

Cardápio adaptado para o paulista

Sem perder a essência dos sabores nordestinos, o casal optou por uma culinária mais leve, com menos sal e gordura, pensando no paladar do paulista.

Durante a semana, a casa oferece buffet, atraindo trabalhadores da região. Já aos fins de semana, o serviço é à la carte.

Entre os destaques do cardápio estão o baião de dois, carro-chefe da casa, e a picanha de sol, um dos pratos mais pedidos. Para as entradas, fazem sucesso o acarajé e o dadinho de tapioca.

O restaurante também acompanha as mudanças de comportamento do público e passou a incluir opções veganas, como moqueca de banana-da-terra e baião vegano.

Nas bebidas, a estrela é a caipirinha de caju com rapadura, feita com cachaça artesanal da própria marca do restaurante.

Grande realização

Mesmo com outros restaurantes bem-sucedidos, é no Virgulino que o casal se sente mais conectado. “Aqui é onde a gente mais fica. Tem uma ligação diferente, porque tem muito da gente”, afirma Elisângela.

O restaurante nordestino veio da saudade e do orgulho que Elisângela e Wagner sentem. “É um pedaço da nossa história aqui. Um pedaço da Bahia em São Paulo”, finaliza Elisângela.