A chegada da seleção da África do Sul ao Estádio Azteca para a abertura da Copa do Mundo de 2026 roubou a cena antes mesmo de a bola rolar.
Liderados pelo goleiro Ronwen Williams, os jogadores desembarcaram cantando e dançando, transformando o momento em um dos assuntos mais comentados das redes sociais. Os vídeos rapidamente viralizaram e fizeram muitos torcedores se perguntarem sobre a origem daquela celebração coletiva.
O que para muitos parecia apenas uma demonstração de animação antes da partida, porém, representa uma tradição profundamente enraizada na cultura sul-africana.
Muito além de uma dança
Segundo entrevista concedida ao ge durante a Copa do Mundo de Clubes de 2025, o técnico sul-africano Steve Komphela explicou que os cantos fazem parte do chamado eGwijo, também conhecido como Gwijo. Essa é uma prática tradicional baseada em um sistema de chamado e resposta presente há gerações na sociedade do país.
Nos últimos anos, a tradição ganhou espaço dentro do esporte, especialmente no rugby e no futebol. Por isso, tornou-se uma marca registrada de equipes sul-africanas em grandes competições.
No caso dos atletas, os cânticos costumam acompanhar diferentes momentos da preparação, desde o vestiário até a entrada em campo.
Um ritual de união
Em entrevista ao ge, Komphela afirmou que os cantos representam muito mais do que uma forma de motivação antes das partidas.
Segundo o treinador, cada música possui um significado diferente. Algumas fazem referência à proteção divina, outras falam sobre orientação, superação ou pessoas queridas.
O objetivo, porém, permanece o mesmo: unir o grupo antes do início do jogo.
“O esporte nada mais é do que um reflexo microscópico da cultura da sociedade. Portanto, refletimos o nosso povo”, explicou Komphela ao ge.
De acordo com o técnico, os cantos funcionam como um chamado coletivo para que todos compartilhem o mesmo propósito antes da partida.
Cultura que atravessa gerações
A tradição não nasceu dentro dos estádios. Segundo Komphela, o sistema de chamado e resposta faz parte do cotidiano de diversas comunidades africanas há muito tempo. Ele é utilizado em momentos de celebração, dificuldade, espiritualidade e convivência social.
O treinador também destacou que manifestações semelhantes podem ser encontradas em diferentes momentos da história. Como exemplo, citou a canção “Wade in the Water”, associada à ativista norte-americana Harriet Tubman durante o período da escravidão nos Estados Unidos.
Na interpretação apresentada por Komphela ao ge, a música funcionava como uma forma de comunicação para orientar escravizados em fuga. Isso ocorria sem despertar suspeitas de seus perseguidores.
Para ele, esse tipo de comunicação por meio da música ajuda a explicar por que o canto continua tão presente em diferentes culturas. Além disso, continua especialmente presente na sociedade sul-africana.
O símbolo da África do Sul na Copa
A viralização dos vídeos durante a Copa do Mundo de 2026 transformou a seleção sul-africana em uma das atrações extracampo do torneio.
Nas redes sociais, muitos torcedores destacaram a energia transmitida pelos jogadores. Eles também associaram as cenas às lembranças da Copa do Mundo de 2010, realizada na própria África do Sul.
Enquanto isso, para os atletas, a tradição continua tendo o mesmo significado de décadas atrás. Assim, fortalece a união do grupo antes dos desafios dentro de campo.
Em entrevista ao ge, Steve Komphela resumiu a importância do eGwijo ao afirmar que a prática não surge como uma estratégia ensaiada. Ou seja, não é uma obrigação dos jogadores.
“Não vem da mente. Vem do coração”, declarou o treinador.
