Mãe de vítima do Centenário reclama e prevê descaso com boliviano

Ana Maria Ferraz teve a filha atropelada pelo ônibus que transportava a delegação do Corinthians após a festa pelo Centenário do clube, em 2010

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27 FEV 201311h42

A funcionária pública Ana Maria Ferraz conhece bem a dor da família de Kevin Beltrán Espada. Mãe de Amanda Ferraz Geremias, atropelada pelo ônibus que transportava a delegação do Corinthians após a festa pelo Centenário em 2010, ela reclama da falta de assistência do clube e prevê que a mãe do garoto boliviano passará pela mesma situação.

Na época do acidente que vitimou Amanda, então com 21 anos, Mário Gobbi era diretor de futebol. Menos de um dia depois da morte de Kevin, quando questionado se o Corinthians prestaria algum tipo de ajuda à família do garoto boliviano, o atual presidente citou o caso da vítima do Centenário e garantiu que o clube ofereceu assistência adequada aos parentes na ocasião.

“Já fizemos isso em outros casos e não divulgamos. Quando o Corinthians fez 100 anos, uma torcedora escorregou em uma poça e foi parar embaixo da roda traseira do ônibus. Nós prestamos assistência, fazemos muito isso. O Corinthians ajuda muito pessoas por que aqui passaram ou com quem tivemos algum envolvimento que causou dano. É do nosso feitio, da nossa estirpe. Queremos fazer isso (ajudar a família de Kevin) no momento adequado”, disse Gobbi.

Pela televisão, os familiares de Amanda acompanharam as declarações do dirigente. E ficaram enfurecidos. De acordo com Ana Maria Ferraz, mãe da jovem atropelada de forma fatal com apenas 21 anos, a assistência prestada pelo Corinthians se resume a uma contribuição de R$ 1 mil, valor do qual guarda o recibo. Chorando, ela reclama da conduta do clube.

Andreia exibe foto da irmã: Amanda jogava futebol e, pela semelhança com o meia do Galo, era chamada de Ronalda (Foto: Sergio Barzaghi/ Gazeta Press)

“Quero apenas refrescar a memória deles, porque nunca fizeram nada pela família da Amanda. É um total descaso. Quero refrescar a memória do presidente. Ele sabe o que aconteceu, já que na época era diretor de futebol, e também não fez nada. Ninguém fez nada, essa é a realidade. Eles dão entrevistas e falam como se tivessem ajudado em alguma coisa. Quero que as pessoas saibam que o Corinthians não fez nada pela minha filha nem por nós”, protestou Ana Maria.

Assim que tomou conhecimento da tragédia ocorrida na Bolívia, a funcionária pública se lembrou do caso de Amanda. “Com certeza, foi na mesma hora. Comentei com minha outra filha: o Corinthians vai fazer com a família desse menino o mesmo que fez com a nossa. Eu tenho certeza de que não vão fazer muita coisa por eles, não”, previu Ana Maria.

Amanda Ferraz Geremias morreu no dia 1º de setembro de 2010. Exatamente dois anos e dois meses depois, Ana Maria perdeu mais um filho. Alexandre Ferraz Eduardo, meio-irmão da vítima do Centenário, foi assassinado por atiradores de motocicleta em novembro do ano passado, época em que a periferia de São Paulo foi assolada por uma série de execuções. Abalada, a funcionária pública se diz sem rumo.

“Não sei nem o que falar. Estou tão emocionada por ter perdido mais um filho. Queria estar perto de pessoas que possam me ajudar a fazer alguma coisa. Eu não sei o que fazer, estou sem chão. Para mim, tanto faz como tanto fez qualquer coisa. Tem horas em que me sinto um lixo de ser humano por viver em um mundo de tanta podridão como esse”, disse.

A família de Amanda, representada pelo escritório Salgado Junior Sociedade de Advogados, pleiteou uma indenização de R$ 6.524.562,00 por danos morais e materiais. A ação foi julgada improcedente em primeira instância e, em seguida, os desembargadores negaram provimento ao recurso. Ana Maria já manifestou o desejo de mudar de advogado, mas por enquanto o caso segue nas mãos do mesmo escritório.

Ricardo Salgado, representante da família, suspeita da lisura das decisões tomadas pela Justiça. “O Corinthians com certeza mexeu os seus pauzinhos e trabalhou no Poder Judiciário para derrubar esse processo. Qualquer decisão só vai ser favorável à família da Amanda no STJ (Superior Tribunal de Justiça) ou no STF (Supremo Tribunal Federal), porque acho que só lá não vai ter influência do clube”, afirmou.

Menor de 17 anos se apresentou à Justiça como responsável pela morte de Kevin Beltrán Espada (Foto: Djalma Vassão/ Gazeta Press)

De origem humilde, a família de Amanda vive em Taboão da Serra, município da Região Metropolitana de São Paulo. Magoada com a postura adotada pelo Corinthians, Ana Maria ainda tem a esperança de receber uma indenização do clube pela morte da jovem de 21 anos. Além de contribuir com o sustento da neta e do casal de filhos, ela quer que o caso sirva como exemplo.

“Hoje, com a cabeça mais tranquila, gostaria sim que me indenizassem para que outras mães não passem pelo mesmo sofrimento que estou passando. Esse dinheiro faria muito bem para a minha neta e para os meus outros dois filhos que ficaram. Minha família é corintiana, e eles deveriam ter mais consideração. O motorista matou a minha filha. Não tem como negar que o ônibus passou por cima da Amanda, mas quem somos nós para brigar com o Corinthians? Tudo isso me magoa”, lamentou Ana Maria.