Aos 16 anos, Enzo Ricardo Lugli Machado já conquistou um dos principais títulos da categoria de base do fisiculturismo paulista. Morador de Cubatão, o atleta venceu recentemente o Paulista Bodybuilder Júnior e agora mira objetivos ainda maiores dentro do esporte.
Entre eles está a disputa do Mr. Olympia, principal competição de fisiculturismo do planeta. Mais do que participar do evento, Enzo sonha em alcançar a elite da modalidade em um curto espaço de tempo e acredita que pode estar no palco da competição antes mesmo de completar 20 anos.
“Eu já me vejo daqui a quatro anos disputando o Mr. Olympia”, afirma.
Interesse pelo esporte começou durante a pandemia
O contato com o fisiculturismo aconteceu durante a pandemia, quando o jovem passou a consumir conteúdos relacionados à musculação e a grandes nomes da modalidade nas redes sociais.
Entre as principais inspirações estava Arnold Schwarzenegger, considerado um dos maiores nomes da história do esporte.
Na época, sem idade para frequentar uma academia, Enzo começou a praticar exercícios em casa utilizando vídeos encontrados na internet e equipamentos improvisados.
A dedicação chamou atenção até dentro da própria família. Quando completou 12 anos, ao ser questionado pela mãe sobre qual presente gostaria de ganhar, fez um pedido pouco comum para alguém da sua idade.
“Quando completei 12 anos, minha mãe perguntou o que eu queria de presente. Ela perguntou se eu queria sair para comer em algum lugar ou ganhar alguma coisa. Eu pedi uma consulta com uma nutricionista e uma barra para instalar no quarto. Foi assim que tudo começou.”
Além disso, também solicitou ao irmão uma barra de exercícios para iniciar os primeiros treinamentos de forma mais estruturada.
Musculação como refúgio
Antes de pensar em competir, a musculação teve outro papel importante na vida do atleta.
Durante a infância, Enzo enfrentou problemas de autoestima e episódios de ansiedade. Segundo ele, os treinos passaram a funcionar como uma válvula de escape para lidar com as dificuldades emocionais.
“Eu via a musculação como um refúgio mental mesmo. Eu ia para a academia com o objetivo de me tranquilizar, passar um tempo sem pensar em muita coisa e sem deixar a ansiedade me consumir. Conforme fui gostando do processo, vendo o que meu corpo era capaz de fazer, aquilo que começou como uma necessidade acabou se transformando em um sonho.”
Com o passar dos anos, a atividade deixou de ser apenas uma forma de transformação física e passou a ser encarada como um projeto de vida.
Mesmo antes da primeira competição, o jovem mergulhou em estudos sobre treinamento, alimentação, preparação física e fisiculturismo profissional.
“Eu não podia subir no palco ainda, mas podia estudar. Passei muito tempo aprendendo sobre o esporte para estar pronto quando chegasse a hora.”
Mudança para Cubatão impulsionou a carreira
A trajetória competitiva ganhou força após a mudança para Cubatão. Foi na cidade que Enzo conheceu a equipe da Academia Oficina Fit e iniciou os trabalhos com o treinador Diego, responsável por acompanhar sua preparação para os campeonatos. Segundo o atleta, a adaptação foi imediata.
“Assim que eu cheguei em Cubatão, conheci o Diego e o Cravo. Eles praticamente me adotaram. Desde o primeiro contato, a gente começou uma preparação e eu finalmente consegui ingressar no fisiculturismo. Foi um misto de coisas que se encaixou perfeitamente.”
A parceria resultou em uma rápida evolução e culminou na conquista do título do Paulista Bodybuilder Júnior, resultado que abriu portas para novos desafios em nível nacional e internacional.
Rotina dividida entre estudo, trabalho e academia
Por trás dos resultados existe uma rotina intensa. Durante a semana, Enzo frequenta o ensino médio técnico e trabalha como jovem aprendiz em Santos. Morando em Cubatão, precisa enfrentar diariamente o deslocamento entre as duas cidades.
Ao fim do expediente, segue direto para a academia, onde realiza os treinos de musculação e as sessões de cardio. Nos fins de semana, trabalha como barman em eventos para complementar a renda e ajudar nos custos da carreira esportiva.
“Eu estudo de manhã, trabalho à tarde e ainda preciso pegar o transporte para voltar para Cubatão. Muitas vezes chego na academia no horário de pico, depois de um dia inteiro fora de casa. Mesmo assim, eu não perco a vontade de treinar. O ambiente da academia ajuda muito porque todo mundo vive o esporte de verdade. Um acaba puxando o outro.”
Mesmo cercado por festas e bebidas durante o trabalho, o atleta garante que o foco nos objetivos fala mais alto.
“Independentemente do lugar, eu sei qual é o meu objetivo. Se eu quisesse errar, poderia errar em qualquer lugar. O que faz diferença é o foco que eu tenho no que quero construir.”
A importância da família
Embora hoje seja reconhecido pelos resultados conquistados nos palcos, Enzo lembra que nem todos acreditavam que o interesse pelo fisiculturismo duraria tanto tempo.
A principal apoiadora desde o início foi a mãe, que acompanhou de perto cada etapa da evolução do filho.
“Minha mãe achou que fosse fogo de palha. Ninguém imaginava que um garoto de 11 ou 12 anos fosse levar aquilo tão a sério. Hoje ela é a pessoa que mais me apoia.”
Segundo ele, a influência do esporte também acabou refletindo dentro de casa.
O irmão voltou a treinar com mais intensidade e a mãe passou a utilizar exercícios físicos como parte do tratamento para problemas nos joelhos.
“Eu fico feliz de ter conseguido ajudar minha mãe, meu irmão e outras pessoas ao meu redor. Ver que você consegue influenciar alguém de forma positiva é muito gratificante.”
O que acontece antes de subir ao palco
Apesar da confiança demonstrada nas competições, Enzo afirma que o nervosismo faz parte da rotina de qualquer atleta.
No dia dos campeonatos, o jovem acorda às 5 horas da manhã para seguir uma série de procedimentos que incluem alimentação controlada, avaliações físicas, pintura corporal e aquecimento.
Segundo ele, o momento mais marcante acontece poucos minutos antes da apresentação.
“Quando eu estou aquecendo, começo a lembrar de tudo. Volto para o primeiro dia da preparação, lembro dos treinos, dos dias de dieta, dos momentos difíceis e de cada esforço feito para chegar ali.”
A sensação, porém, muda completamente quando chega o momento de se apresentar aos árbitros.
“Quando eu subo no palco, é como se todo o som desligasse. Não passa mais nada na minha cabeça. Só estou eu e os árbitros. O trabalho já foi feito. É praticamente uma meditação. Eu subo no palco com um sorriso no rosto porque é um dos melhores sentimentos que existem.”
A experiência foi ainda mais marcante na estreia competitiva.
“A primeira vez que competi parecia um déjà vu. Eu tinha me imaginado tantas vezes naquele palco que, quando aconteceu, parecia que eu já tinha vivido aquilo. Era como se eu estivesse replicando um sonho.”
Bolsa Atleta ajuda na preparação
Além do apoio da família e da equipe técnica, Enzo conta com o programa Bolsa Atleta, da Prefeitura de Cubatão.
O benefício auxilia nas despesas relacionadas à preparação esportiva e ao transporte para as competições.
Segundo o atleta, o incentivo é fundamental para quem busca crescer em uma modalidade que exige investimentos constantes.
“A vida do atleta é muito puxada. A maioria precisa trabalhar para continuar competindo. Ter esse apoio da Prefeitura ajuda muito e é algo que outras cidades também poderiam investir.”
Olhos voltados para o Mr. Olympia
Inspirado por nomes como Arnold Schwarzenegger, Ramon Dino e Rafael Brandão, Enzo mantém metas ambiciosas para a carreira.
O principal objetivo é alcançar a categoria Open do Mr. Olympia, considerada a mais tradicional e prestigiada do fisiculturismo mundial.
Apesar da pouca idade, o atleta afirma que não tem pressa para acelerar processos e acredita que a evolução acontece com disciplina e constância.
“Eu não tenho esse desespero que muita gente tem hoje com o imediatismo. Quero evoluir um pouco todos os dias. O fisiculturismo é um esporte de longo prazo e eu sei que tudo tem o seu tempo.”
Mais do que participar do principal campeonato do mundo, Enzo sonha em disputar posições de destaque.
“Meu principal objetivo é ser campeão do Mr. Olympia. Eu quero ser campeão da Open. É a categoria que eu sempre admirei desde que comecei a acompanhar o esporte.”
Já me vejo em Las Vegas
Ao falar sobre o futuro, Enzo não esconde a confiança nos próprios objetivos. O jovem acredita que os próximos anos serão decisivos para a evolução da carreira e já visualiza o cenário que pretende viver em um futuro próximo.
“Eu quero estar no palco do Olympia ainda com 20 e poucos anos. Eu já me vejo daqui a quatro anos em Las Vegas, com o Diego do meu lado e minha mãe na plateia gritando meu nome. Eu tenho objetivos para cada etapa da carreira, mas esse é o meu grande objetivo final.”
“Paciência e constância são dois princípios que eu carrego comigo. Eu sei que, com essas duas virtudes, consigo chegar onde eu quiser.”
Para quem há poucos anos treinava sozinho dentro do próprio quarto, o sonho pode parecer distante. Para Enzo Ricardo Lugli Machado, ele já tem endereço, data aproximada e até plateia definida.
































