Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) concluiu que pessoas acima de 60 anos estão passando “tempo demais” no celular. O excesso de conectividade, feitos por meio de vídeos, jogos, receitas e conversas em aplicativos, acendeu o alerta de pesquisadores e especialistas em saúde mental.
A pesquisa analisou o tempo de tela de 50 mil idosos em 20 estudos pelo mundo, incluindo um recorte de 11 mil brasileiros. O resultado mostrou que o uso excessivo do aparelho está associado a transtornos como ansiedade, insônia e nomofobia, termo usado para definir o medo de ficar desconectado ou sem acesso à internet.
Segundo a pesquisadora Renata Maria Silva Santos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da UFMG, o fenômeno da dependência digital se manifesta de forma expressiva na terceira idade.
“É um desconforto generalizado, um medo de ficar desconectado do celular, seja por falta de bateria, por falta de internet”, explicou a especialista em entrevista ao “Jornal Nacional”.
Esse comportamento é facilmente ilustrado no dia a dia. A aposentada Marlene Mattos Fernandes, por exemplo, relata como o aparelho consome as horas sem que ela perceba: “Você começa às sete horas e daqui a pouquinho é dez horas e você não fez nada. Tudo é feito pelo celular. Eu uso demais”.
Os riscos além da dependência
Os prejuízos do uso desenfreado de telas vão além da saúde mental. O estudo aponta que os idosos ficam vulneráveis a golpes digitais e à disseminação de fake news, além de sofrerem impacto na qualidade do sono.
“O desenvolvimento de dependência, maior dificuldade para lidar com fake news, exposição grande aos riscos de golpe. A gente não tem ali a definição de um tempo saudável, como a gente tem ali até os adolescentes”, comentou Renata.
O cansaço ocorre com a aposentada Ivone, de 80 anos, que passa as noites jogando nas telas e sente o impacto no dia seguinte. “É informação muito, tudo muito”, desabafa ela sobre o cansaço e a enxurrada de estímulos.
“Ela acorda cedo, mas fica horas no celular e perde o horário da hidroginástica. Mas ela está ativa no grupo da ginástica, mas não fisicamente”, acrescentou Alexandra da Silva, filha da idosa.
O celular não é o vilão da história
Apesar dos alertas necessários, os pesquisadores ressaltam que a tecnologia não deve ser demonizada. O impacto do aparelho depende da forma como o tempo de tela é administrado.
Quando utilizado para acessar conteúdos educativos, manter o contato com familiares ou exercitar o cérebro com novos aprendizados, o celular vira uma ferramenta de estímulo cognitivo e bem-estar emocional.
Ainda em entrevista ao JN, a professora aposentada Iara Pereira contou que aderiu ao equilíbrio saudável em sua rotina: “Para ver vídeo, estudar macramê, estudar crochê, estudar tricô… então uso muito celular. Tanto é que eu tenho um tablet e um notebook”.
Para os pesquisadores, a chave do sucesso está em promover o letramento digital dessa geração. Como os idosos viveram a maior parte de suas vidas no mundo analógico, eles precisam de suporte e educação digital para aprender a navegar na internet de forma segura, equilibrando a conectividade com o descanso e mitigando os excessos do universo online.
“Em termos de desenvolver estratégias. A família precisa voltar mais o olhar para vulnerabilidade dessas pessoas, porque elas precisam de atenção. A gente precisa melhorar esse cuidado, esse aporte mesmo de letramento do mundo digital para essa idade”, complementou a terapeuta ocupacional.






