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Lançada em 1946, logo após a Segunda Guerra Mundial, "The Coffee Song" é um marco do entretenimento americano
Frank Sinatra já cantou sobre o café e a cidade de Santos / Ilustração gerada no Gemini
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Celebrado nesta terça-feira (14), o Dia Mundial do Café inevitavelmente nos remete a cidade de Santos, no litoral de São Paulo. Epicentro da exportação do grão no século XX através de seu porto e sede da Bolsa Oficial, a cidade moldou a economia nacional e atraiu os olhares do mundo. Esse impacto histórico e comercial foi tamanho que o município acabou "homenageado" em uma música de Frank Sinatra: a The Coffee Song, lançada em 1946 e regravada em 1961 para o álbum Ring-a-Ding-Ding!.
Lançada em 1946, logo após a Segunda Guerra Mundial, "The Coffee Song" é um marco do entretenimento americano que imortalizou uma visão bem-humorada e exagerada sobre o Brasil na voz de Frank Sinatra.
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Criada como uma canção cômica baseada em uma premissa um tanto absurda, a música brinca com a ideia de que a superprodução cafeeira no país era tão colossal que o grão havia substituído a água, o perfume e até o ketchup na rotina dos brasileiros.
Para quem não conhece, ela tem um ritmo contagiante, projetado para capitalizar sobre o fascínio pelo exotismo latino-americano que permeava a cultura dos Estados Unidos da época.
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Dentro dessa narrativa caricata, a música abre espaço para o que muitos leem como uma curiosa "homenagem" à cidade litorânea, destacando-se no seguinte trecho: "No tea or tomato juice / You'll see no potato juice / The planters down in Santos all say no, no, no" (Nada de chá ou suco de tomate / Você não verá suco de batata / Os fazendeiros lá em Santos todos dizem não, não, não).
Essa menção direta atrai a atenção por fugir dos clichês internacionais tradicionais da época, que costumavam resumir o país inteiro a selvas intocadas ou ao carnaval carioca, apontando os holofotes para o litoral paulista.
Analisando especificamente essa citação, percebe-se que há um fundo de precisão econômica notável que sustenta a brincadeira. Naquela época, Santos abrigava a Bolsa Oficial de Café e operava o maior porto exportador do grão no mundo, sendo o verdadeiro centro nevrálgico do poder econômico brasileiro.
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Quando Sinatra canta que os fazendeiros de Santos "dizem não" para o cultivo de outras safras em prol do monopólio do café, a música acerta na dinâmica da elite agrícola da época, que de fato ditava as regras do mercado global e monopolizava a economia nacional.
Por outro lado, a citação acaba reduzindo Santos, que já era uma cidade com infraestrutura portuária avançada e em pleno processo de urbanização, a um "agrupamento de fazendeiros".
A música, na verdade, ajudou a consolidar no exterior a imagem limitante do Brasil como uma "República do Café", um lugar folclórico e sem complexidade social, existindo fundamentalmente como uma engrenagem exótica para abastecer o hemisfério norte.
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Musicalmente, a faixa é charmosa e eterniza o nome de Santos na voz de um dos maiores intérpretes do século XX, o que por si só é um marco.
Entretanto, ela encapsula o Brasil a lente através da qual os Estados Unidos enxergavam: um imenso e divertido celeiro, servindo como um excelente ponto de partida para refletir sobre como a imagem do País foi construída e consumida no exterior.