Na última quarta-feira (24), a Venezuela foi atingida por dois terremotos de magnitude superior a 7 em menos de 40 segundos. Enquanto o solo tremia e prédios desabavam em Caracas, milhares de pessoas receberam nos celulares um aviso antes mesmo de sentir o chão balançar. O responsável é o Android Earthquake Alerts System, tecnologia do Google que transforma smartphones em uma gigantesca rede de detecção sísmica.
Moradores de diversas cidades venezuelanas relataram nas redes sociais que o alerta no celular chegou cerca de 30 segundos antes do tremor mais forte. Tempo suficiente para interromper atividades, sair de edifícios e buscar abrigo. Em muitos casos, as pessoas já estavam em áreas abertas quando as ondas mais destrutivas chegaram.
O sistema não prevê terremotos com antecedência. Mas consegue detectar o início de um abalo quase instantaneamente e emitir alertas antes da chegada das ondas mais perigosas. A explicação está na física: as informações transmitidas pela internet viajam em velocidade muito superior à propagação das ondas sísmicas.
Como o celular detecta o tremor antes de você sentir
O segredo está no acelerômetro, aquele sensor que faz a tela do celular girar quando você vira o aparelho. Quando o telefone está parado sobre uma superfície, o mesmo sensor consegue registrar vibrações características de um terremoto.
Milhares de celulares enviam essas informações anonimamente para os servidores do Google ao mesmo tempo. Um único aparelho não confirma nada, pois a vibração de um caminhão ou de uma máquina pesada poderia gerar um alarme falso. Mas quando centenas ou milhares de dispositivos na mesma área registram o mesmo padrão, o sistema confirma o terremoto em poucos segundos.
A partir daí, os algoritmos estimam a magnitude, calculam a localização aproximada do epicentro e identificam quais regiões ainda serão atingidas. Os alertas são disparados imediatamente para os celulares nas áreas de risco.
A diferença entre ondas P e ondas S que salva vidas
Quando um terremoto começa, as primeiras vibrações a se propagar são as ondas P, ou primárias. Elas viajam mais rápido pelo interior da Terra mas são relativamente fracas, muitas vezes nem são percebidas pelas pessoas nem causam danos.
Depois vêm as ondas S, ou secundárias. Mais lentas porém muito mais intensas, são elas as responsáveis pela maior parte dos danos estruturais e pelo risco para quem está dentro de edifícios vulneráveis.
É exatamente essa diferença de velocidade que torna o alerta possível. O sistema detecta a passagem das ondas P e avisa a população antes da chegada das ondas S. O intervalo varia de poucos segundos a algumas dezenas de segundos. Pode parecer pouco, mas durante uma emergência sísmica faz toda a diferença.
Como ativar o alerta de terremoto no seu celular
No Brasil, o sistema do Google também está disponível. Para receber os alertas, o usuário precisa manter o celular conectado à internet, seja por Wi-Fi ou rede móvel, manter a localização ativada e habilitar a função “Alertas de Terremoto” nas configurações do Android. Em modelos mais recentes, o recurso já vem ativado desde a configuração inicial.
O Google envia dois tipos de notificação. A “BeAware” é para terremotos de menor intensidade e aparece como um alerta convencional na tela. Já a “TakeAction” ocupa a tela inteira do aparelho com um aviso sonoro de emergência para eventos mais severos, acompanhada de orientações básicas de segurança.
As recomendações seguem protocolos internacionais: abaixar-se, proteger-se sob um móvel resistente e permanecer nessa posição até os tremores cessarem completamente. Especialistas destacam que abandonar um edifício nem sempre é a alternativa mais segura. A decisão depende da intensidade do terremoto, do tipo de construção e do tempo disponível.
O engenheiro do Google Marc Stogaitis, um dos idealizadores do sistema, disse nas redes sociais estar “emocionado” com as mensagens de reconhecimento após o funcionamento do recurso na Venezuela. Ele afirmou que repassaria o reconhecimento à equipe responsável pelo desenvolvimento da tecnologia e concluiu dizendo que seus pensamentos estão voltados a todas as pessoas afetadas no país.
A estratégia do Google tem vantagens importantes. A instalação de estações sismográficas convencionais exige equipamentos sofisticados e custos elevados de implantação e manutenção. Já os smartphones utilizam sensores que já fazem parte do aparelho, ampliando a cobertura sem necessidade de novas instalações físicas. Isso não significa que o sistema substitua os serviços oficiais de monitoramento, pois o objetivo é oferecer uma ferramenta adicional de proteção à população.
