Saúde de Guarujá deixa de fazer 600 atendimentos no trimestre

Equipes fazem reuniões mensais nas UBSs, Usafas e CAPSs para discutir melhorias no atendimento à população no horário em deveriam estar atendendo

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20 ABR 201510h37

A rede básica de saúde de Guarujá deixou de fazer aproximadamente 600 atendimentos à população no último trimestre devido às reuniões mensais realizadas no horário de atendimento ao público nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Unidades de Saúde da Família (Usafas) e Centro de Atendimento Psicossocial (CAPSs). O levantamento feito pelo Diário do Litoral considera somente os dias úteis, no período de janeiro a março, comparando com os números de atendimentos mensais em horário normal de funcionamento das unidades fornecidos pela Divisão de Atenção Básica da Secretaria Municipal de Saúde.

Segundo a Divisão de Atenção Básica, são realizados por mês aproximadamente 11 mil atendimentos nas UBSs, 23,5 mil nas Usafas e 6,5 mil nos CAPSs.

O número de 600 atendimentos a menos corresponde a 0,5% dos atendimentos realizados no trimestre, mas considerando ainda os finais de semana e feriados prolongados no período, quanto tempo um munícipe de Guarujá espera pelo dia marcado da consulta, exames ou primeira visita domiciliar de uma equipe de saúde, após o agendamento na rede de atenção básica? Esta pergunta não foi respondida pelo secretário municipal de Saúde, Rui de Paiva, e nem pela diretora de Atenção Básica, Paula Escudeiro, presentes à entrevista.

De acordo com os informes da Prefeitura enviados à imprensa, o objetivo dessas reuniões de trabalho “com as equipes de funcionários é discutir melhorias no atendimento à população”, nas UBSs, nas Usafas e nos CAPSs.

Questionado sobre o que são essas “melhorias” e se houve avanços, considerando que as reuniões de avaliação são mensais, o secretário afirmou que as reuniões nas Usafas são para discutir o trabalho da equipe junto aos casos atendidos e determinar a estratégia de atendimento caso a caso, mais personalizado e humanizado. “As reuniões que se dão nessas unidades principalmente CAPS e Usafas são previstas dentro do atendimento às especialidades de saúde mental e atenção básica (respectivamente). Discutimos casos, situações, novidades. É uma reunião rotineira de pensar o trabalho e discutir um problema eventual que tenha”, afirmou Rui de Paiva.

O secretário explicou que no caso das Usafas, a Saúde trabalha com números de atendimentos mensais. “Verificamos consultas, visitas domiciliares, avaliação por categoria profissional, seja agente, técnico, enfermeiro ou médico, nós temos mínimos para que isso se cumpra que é o considerado adequado. Tudo isso está dentro do plano da unidade para cada mês, incluídos os horários de reunião”, disse Paiva.

Mas, apesar desse planejamento, o secretário revelou qual é, na avaliação dele, a maior barreira no atendimento de atenção básica e porque as reuniões são importantes. “A grande dificuldade da estratégia de saúde da família é que os profissionais que vêm trabalhar nas Usafas,vêm com a cabeça da UBS, você transformar essa cultura profissional é uma grande dificuldade aqui e em todo o lugar. Então, essa reflexão da equipe é fundamental. Por isso, a gente gostaria de que as reuniões fossem cada vez mais aprofundadas”, justificou.
Mas Rui de Paiva disse também que “a Atenção Básica não depende de ficar aberta o tempo inteiro, mas de um atendimento que consiga resultados de promoção, prevenção e também de cura, de tratamentos. Ali que são atendidas enfermidades que são as mais comuns numa população como a nossa. Precisa-se mudar a concepção de que número de consultas, números de comprimidos tomados, injeções aplicadas é igual saúde da população”, afirmou.

“Se você me perguntar do que adoecem e morrem as pessoas na cidade, na região, no Estado e no País, são doenças cardiocirculatórias, neoplasias, acidentes e violências, nessa ordem, com algumas vezes, acidentes e violências passando à frente de neoplasias e cânceres. São as causas de óbito mais comuns. E as causas de internações mais comuns são cardiovascular — estou falando de derrame, infarto do coração — e descompensação de doenças crônicas — diabetes e hipertensão são as mais comuns. Disparado, isso é o cardápio mais frequente de acontecimentos. Boa parte desses problemas são evitados ou postergados na vida por atitudes que tem muito a ver com o comportamento do próprio indivíduo e menos a ver com o comportamento do serviço de saúde. Isso é uma conclusão antiga, não minha”, afirmou Paiva.

As unidades fecham durante algumas horas uma vez por mês (Foto: Luiz Torres/DL)

Usafa

“A ideia é que a Unidade de Saúde da Família seja a porta de entrada realmente, atenda as necessidades daquele território dela, o que inclui algumas consultas não eletivas. Por exemplo, a pessoa que passou mal vai ter o primeiro atendimento ali, uma avaliação, se for o caso, para um encaminamento ou não”, explicou Paiva.

Porém, no trimestre que passou, segundo os informes enviados pela Prefeitura, algumas Usafas fecharam no mesmo dia e no mesmo horário. As Usafas, segundo o secretário, atendem um território que abrange mais de um bairro. No dia 31 de março, por exemplo, três Usafas fecharam no mesmo horário para reuniões dos funcionários, são elas Santa Cruz dos Navegantes, Cidade Atlântica e Vila Zilda. No dia 26, fecharam mais cedo Vila Áurea e Perequê.

Mas, o secretário defende que as reuniões não prejudicam o atendimento, mesmo sendo as Usafas unidades de atendimento também de casos urgentes. “Esse tempo que é tomado para fazer reuniões não é ele que é o problema que resulta em falta de consultas. As equipes precisam refletir sobre o seu trabalho. Essa situação de você por uma equipe de saúde refém do agendamento é a situação que a gente vivencia na estratégia da UBS, não da Usafa. A UBS, originalmente, não tem essa visão de uma equipe que vá atuar extra muros. A questão é: esse número de agendamentos resultou em algum benefício para a saúde da população? Não basta ter consulta, precisa ver que tipo de consulta tem, que tipo de problemas o usuário leva para a consulta e que tipo de resolutividade tem aquela consulta. Tudo isso são parâmetros”, afirmou.

“As reuniões fazem parte do atendimento de atenção básica, independente se é Guarujá, Santos, isso é protocolo do Ministério da Saúde. A gente fecha a unidade para discutir caso, gestão da unidade, projeto terapêutico do paciente no caso do CAPSs. Isso não interfere na gestão da unidade nem dos agendamentos porque isso não é programado de um dia para o outro, mas para o ano inteiro. Os pacientes não ficam sem atendimento, até o horário das três horas (15 horas) eles são atendidos”, justificou a diretora de Atenção Básica Paula Escudeiro.

Questionada sobre o horário normal de atendimento ao público ser até as 17 horas, Paula respondeu apenas que afirmar que a unidade fecha para atendimento à população é um “erro de redação” da nota enviada pela assessoria de imprensa, mesmo após ter confirmado que a unidade fecha. “Durante a reunião, a porta fica aberta para alguma dúvida, medicação, sempre tem alguém para atender”, disse Paula.

Em seguida, o secretário confirma mais uma vez que a unidade fecha durante as reuniões: “ninguém está negando que a unidade fecha para o atendimento ao público”, contradizendo a chefe da Diretoria de Atenção Básica.

Segundo Paula Escudeiro, a rede de atenção básica conta com 10 UBSs, 11 Usafas, 4 CAPs e 750 profissionais de saúde distribuídos entre essas unidades.

Em 2014, Guarujá tinha uma população estimada de 308.989 habitantes, segundo a última atualização do IBGE. Destes, 80% são SUS dependentes, ou seja, dependem da rede pública de saúde. 

Unidades de saúde que fecharam para reuniões no trimestre, segundo o que foi divulgado pela Prefeitura

Em março, nove unidades de saúde fecharam mais cedo, deixando de atender a população por 25 horas. São elas, seis Unidades de Saúde da Família (Usafas), uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e dois Centros de Atenção Psicossocial.

Três Usafas dos bairros de Santa Cruz dos Navegantes, Cidade Atlântica e Vila Zilda fecharam às 15 horas na última terça-feira, dia 31. Na sexta-feira, dia 27, a UBS da Vila Edna e a Usafa do Sítio Conceicãozinha também encerram o expediente duas horas antes. No dia anterior, quinta-feira, dia 26, as Usafas da Vila Áurea e do Perequê juntas eliminaram 5 horas do horário de atendimento ao público.

O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS III) ficou fechado durante toda a manhã, na quarta-feira, dia 18, atendendo ao público somente a partir das 13 horas. Já o Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas (Caps AD II) só funcionou das 13 às 17 horas no dia 4, uma quarta-feira.

O horário normal de atendimento ao público na rede de atenção básica de saúde é das 8 às 17 horas, exceto a UBS da Vila Edna, que abre às 7 horas.

Fevereiro

No mês de fevereiro, oito unidades alteraram horário de expediente. Destas, somente a Usafa de Santa Cruz dos Navegantes que fechou às 15 horas, na terça-feira, dia 24, para reunião administrativa da equipe, retomou o atendimento à população das 17 às 19 horas. Esta foi a única unidade onde houve reposição de horário de atendimento no trimestre.

Na sexta-feira, dia 27, o atendimento à população ficou prejudicado em três unidades, UBS Vila Edna, e Usafas dos bairros Perequê e Vila Zilda.

Na quinta-feira, dia 12, o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) III, no Jardim Boa Esperança, teve expediente somente das 12 às 17 horas.

As Usafas do Jardim dos Pássaros e do Jardim Progresso e a UBS do Santa Rosa  atenderam a população somente das 8 às 15 horas, na terça-feira, dia 10, com o objetivo de discutir melhorias no atendimento.

Janeiro

Em janeiro, sete unidades encerraram o expediente mais cedo, sendo cinco na última semana do mês. São elas Usafas da Vila Zilda e Jardim Brasil, no dia 30; Usafas da Vila Àurea e do Sítio Conceiçãozinha, no dia 29; e Usafa do Jardim Conceiçãozinha, no dia 28.

A UBS da Vila Rã teve expediente parcial na quarta-feira, dia 14, atendendo a população somente das 7 às 13 horas.

Já a Usafa do Jardim dos Pássaros funcionou somente das 8 às 14h, na terça-feira, dia 6.