São Vicente tem mais de 1.300 apartamentos inacabados

Maior parte das unidades é destinada às famílias da México 70

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07 SET 201410h09

“Era uma casa muito engraçada não tinha teto não tinha nada”. Escrita em 1980, “A Casa”, de Vinícius de Moraes, retrata uma obra que nunca termina: a construção de uma moradia localizada na Rua dos Bobos, número Zero. Passadas mais de três décadas de sua composição, a música serve como pano de fundo para um cenário de 1.316 unidades habitacionais inacabadas em São Vicente. Maior parte dos imóveis é destinada às famílias do México 70, cuja remoção das palafitas permitirá a urbanização da Avenida Brasil, que fica à beira mar. Sérgio Costa, 62 anos, é um dos que esperam as chaves da nova residência.

“Na última remoção para o Rio Branco ficou faltando três barracos para chegar ao meu. Perdi tudo no último incêndio e estou morando de aluguel. Se os apartamentos tivessem prontos não precisaria passar por isso”, conta. Desempregado, ele paga o aluguel de um barraco na própria México 70 com o auxílio que recebe da prefeitura. “O negócio tá difícil. Não sei mais o que fazer. Eles falam que estão construindo e que até o final do ano a gente sai daqui. Como a gente pode acreditar se atrás do Centro de Convenções está tudo abandonado e no Rio Branco tudo parado?”, questiona.

Os conjuntos aos quais Costa se refere estão localizados no Parque Bitaru – com 416 unidades – e no Jardim Rio Branco com 600 unidades, sendo 200 já entregues às famílias removidas da México 70. Os apartamentos, que têm dois quartos, sala, cozinha e banheiro estão com as obras paralisadas há mais de um ano. Os telhados estão danificados, muitas unidades tiveram as portas e janelas arrancadas, e o mato domina as dependências do térreo.
“Eles poderiam fazer um mutirão com os próprios moradores. Tem muita gente cadastrada. Vivo com muita dificuldade. Tive que recomeçar do zero”, afirma o morador da México 70.

Há mais de 20 anos na comunidade, ele viu o progresso chegar por lá, e também viu a questão social ser esquecida. Sobre um dia mudar de vida, Costa questiona: “Espero, mas quando?”.

Ao todo, 1.316 unidades habitacionais não foram concluídas na Cidade (Foto: Luiz Torres/DL)

Além dos 416 apartamentos do Parque Bitaru, e dos 400 do Jardim Rio Branco, outras 500 unidades esperam para ser concluídas há mais de 10 anos. Localizado na entrada do Sambaiatuba, no Jóquei Clube, o conjunto Penedo-Primavera, se encontra totalmente deteriorado.

Em andamento

Procurada, a Prefeitura de São Vicente, por meio da Secretaria de Habitação (Sehab) informou que as obras do conjunto habitacional do Jardim Rio Branco não estão paralisadas. Segundo ela, os serviços são executados diariamente por funcionários da Companhia de Desenvolvimento de São Vicente (Codesavi), inclusive com o acompanhamento da Sehab. A conclusão das unidades está prevista para o final do primeiro semestre de 2015.

Apesar de a prefeitura afirmar que as obras acontecem normalmente, a Reportagem esteve no local durante a semana e não viu a presença de funcionários da Codesavi ou da Administração Municipal. O dia estava claro e não chovia.
No ano passado, a Prefeitura de São Vicente firmou contrato com a Codesavi para a conclusão do conjunto que é executado com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Sobre o conjunto do Parque Bitaru, a prefeitura informou que, em julho do ano passado, a Caixa Econômica Federal (CEF) autorizou a continuidade da obra, no entanto são necessários R$ 8 milhões para a conclusão. A Sehab aguarda assinatura do aporte por meio do governo do Estado, para complemento do recurso.


SV tem mais de 1.300 moradias inacabadas (Foto: Luiz Torres/DL)

Em relação ao conjunto Penedo-Primavera, a Administração Municipal informou que o conjunto foi vendido ao Governo do Estado no último dia 4 de julho, e que das 500 unidades 310 serão destinadas às famílias da área da Avenida Brasil, na México 70, e o restante para cadastrados em programas habitacionais do município. Ainda de acordo com a nota da prefeitura, as obras já foram iniciadas e têm prazo 20 meses para a conclusão.

Já sobre a urbanização da Avenida Brasil, a prefeitura respondeu que o contrato foi alterado, e que no momento está em processo de licitação de drenagem e esgoto. Porém, a Sehab deverá buscar mais recursos para o projeto. A nota ressalta ainda que urbanização tem relação com a remoção das famílias para os conjuntos do Rio Branco e do Bitaru.